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SUB-VERSÃO

Do contra

Quando eu nasci, naquela noite gelada do dia que marca o início do inverno, o Altíssimo, de lá de cima, ordenou a um de seus anjos: - Cuidado com essa daí, que vai ser difícil, viu? Ela é do contra!

E gargalhou pausadamente, como só faz aquele que está seguro do perigo e da beleza presentes em suas palavras.

E não é que, mais uma vez, ele estava certo? Nasci do contra. Sou do contra, e não foram poucas as vezes em que alguém disse, referindo-se a mim: “Ah, aquela dali, aquela dali é do contra mesmo”.

Talvez hoje os psicopedagogos me classificassem como uma criança com Transtorno Desafiador Opositivo. Na época não havia essa nomenclatura, e minha mãe e familiares mais próximos tiveram que me aturar assim mesmo.

Eu sei, é feio, mas eu sou assim. Eu vencia, e às vezes ainda venço, pelo cansaço. Quando criança, eu chorava. Hoje, uso algumas outras armas. Mas sabem, o país que eu amo tem ultimamente me causado um sentimento que foge a todos quantos já senti, porque logo eu, que sou assim do contra, tenho experimentado o que venha a ser a desesperança, e isso para alguém como eu, é muito, muito angustiante.

Hoje, apesar de manter parte da graça e da teimosia da meninice, sou uma mulher. E ser mulher num país como esse, que repito, eu amo, é uma tarefa difícil. Ser mulher, e educadora e escritora, e do contra é mais difícil ainda.

Mas é justamente por essas razões que eu continuo do contra, ou melhor, eu continuo contra. Contra a pobreza, contra as injustiças, contra toda e qualquer forma de violência, contra a privação de direitos, contra o preconceito, contra o ódio. E ver que tudo isso tem se manifestado de forma tão horrorosamente explícita ultimamente no país que amo é que me deixa assim, digamos, desesperançosa.

Eu vou morrer sendo do contra, sabem... Isso é um fato. Mas me nego a viver distante dos meus ideais.

Boa votação no domingo!

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