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Cultura

Consciência Negra, um dia de reflexão sobre igualdade e valorização da história brasileira

Na próxima terça-feira, 20, é celebrado o Dia da Consciência Negra. A data marca a morte de Zumbi dos Palmares, líder da resistência negra à escravidão na época do Brasil Colonial. Em muitos municípios, foi instituído feriado a fim de conscientizar a população sobre a importância do povo negro para a história do Brasil, bem como a influência que exerce na sociedade.

Em Bragança Paulista, a data foi instituída no ano de 2009, por meio do Projeto de Lei 96/2009, de autoria dos vereadores Toninho Monteiro e Mário B. Silva. A aprovação da proposta foi árdua e só passou a valer apenas a partir de 2010. No início, estipulava que o feriado seria antecipado para as segundas-feiras, quando caísse nas terças e quartas, e adiado para as sextas-feiras, quando caísse nas quintas.

Em 2016, por meio do Projeto de Lei 42/2016, de autoria dos vereadores Juzemildo Albino da Silva e Quique Brown, essa condição foi extinta, possibilitando que o feriado seja sempre celebrado exatamente na data de 20 de novembro.

No ano passado, a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados aprovou projeto que torna o Dia da Consciência Negra feriado nacional. De autoria do deputado Valmir Assunção (PT-BA), a proposta já foi aprovada pela Comissão de Cultura e rejeitada pela Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Serviço e está pronta para ser pautada no Plenário da Câmara. 

Para falar sobre a importância da data, das conquistas já adquiridas e as que ainda são reivindicadas pelo povo negro, o Jornal Em Dia convidou algumas pessoas engajadas nesse movimento que, em sua maioria, envolve arte e cultura.

Izilda Toledo, de 66 anos, pedagoga especialista, atuante nos conselhos de cultura, gestora da Fundação Casa e promotora legal popular, se considera uma negra em movimento. Em 1988, centenário da abolição escravagista no Brasil, criou, com a união de alguns parentes e amigos, a ARCAB- Associação Recreativa e Cultural Afro-Brasileira, entidade civil sem fins lucrativos, com o objetivo de resgatar, valorizar e preservar a cultura afro-brasileira, que vigorou até o ano de 2016, tendo em 2003 estabelecido uma parceria com o Clube Recreativo e Beneficente 13 de Maio, que se tornou a sede onde os projetos passaram a ser realizados, sendo este o primeiro clube negro do Brasil. “Foi uma luta de resistência pelo resgate, valorização e preservação da memória de uma raça que habitou e habita nesse território”, conta, relembrando que, durante esses anos, foram realizados vários projetos voltados para todos os segmentos sociais, envolvendo a comunidade negra e a sociedade de Bragança e região. Hoje, continua à frente lutando pela causa do povo negro e é uma das responsáveis pela organização das atividades do Dia da Consciência Negra no município.

Junto a ela, ativo na militância da cidade, está Pai Bil, herdeiro da primeira casa de candomblé da família Mirerê no estado de São Paulo, no ano de 1970 por seu pai, Casimiro Gomes de Oliveira, conhecido como Pai Miro de Sobá. Para ele, o Dia da Consciência Negra é de suma importância para promover reflexões. “Esse dia, ao contrário do que as pessoas pensam, que a cultura do negro é ‘samba, suor e cerveja’, é um dia de reflexão para as pessoas que comandam esse país, nos espaços de decisões, vejam o que fizeram e continuam fazendo durante 500 anos ao povo negro. Esse dia 20 é um dia para que as pessoas possam refletir e é um marco de resistência para nós negros”, afirma.  Em sua opinião, a escravidão de negros africanos no Brasil foi uma das mais dolorosas. “Nós, escravos africanos no Brasil não tivemos nenhuma política social naquele tempo para que conduzisse nosso povo, meus ancestrais, para uma vida digna. Nos Estados Unidos, quando os escravos foram libertos, todos eles ganharam ou conseguiram comprar um pedaço de terra, sementes, cavalos ou carroças, foram remunerados, apesar do sofrimento - não pelo serviço, mas para começar uma vida nova - enquanto nós aqui não tivemos nada disso”, pondera. O resultado disso, segundo ele, é possível ver até os dias atuais. “O que se reflete disso são as favelas, as palafitas barracos os espaços de decisões que não são ocupados por negros. Nós viemos para o Brasil sem querer, debaixo de chibatadas e continuamos desse jeito, porque a gente percebe nas estatísticas que, nesse país, o negro sempre é inferior”, opina.

Izilda reconhece os avanços que os negros já conseguiram, mas defende que muitos dos direitos são desrespeitados até hoje. “Ao completar 130 anos que marca o fim da escravidão, é preciso recordar também que há exatamente 30 anos, nascia a atual Constituição, denominada Cidadã, que necessitou de 488 anos para comprovar que racismo é crime, mas na maioria das ocorrências, se minimiza o racismo como injúria racial e nada acontece”, coloca, ressaltando outros descasos, como a Lei Federal 10.639, que inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, mas não se cumpre.

Para ela, mesmo após a implantação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, em 2009, “a saúde da população negra continua sendo negligenciada e violentada, apresentando-se como maioria da violência obstétrica, sem contar com a violência que atinge nossos jovens negros, denominado estatisticamente de genocídio negro”, observa.

Apesar disso, vê com alegria os avanços sociais que a população já alcançou. “Em 2010, a Lei 12.288 institui o Estatuto da Igualdade Racial e em 2012, a Lei de Cotas de nº 12.711 determina que as instituições de ensino reservem uma porcentagem de suas vagas para negros, pardos e índios – a grande revolta da Casa Grande, sob um falso pretexto meritocrata”, opina, complementando sobre o panorama municipal. “No dia 6 deste mês, fomos agraciados com o Projeto 04/2018 da vereadora Pocaia, obtendo, mais uma vez, a votação unânime na Câmara Municipal instituindo a Medalha Zumbi dos Palmares a personalidades ou entidades que atuam em prol da valorização e do desenvolvimento da comunidade negra do município de Bragança Paulista”.

Na cidade, um dos marcos da resistência negra é a Igreja dos Enforcados, localizada na Rua da Liberdade. “A igreja foi feita com mão de obra escrava e ali, havia muitos escravos iam até o local para se enforcar ou eram enforcados mesmo pela inquisição. Por isso, a rua chama-se Rua da Liberdade. Essa liberdade, aliada ao povo negro, ficou conhecida porque, muitas vezes, eles acreditavam que, morrendo, voltariam para África. Era preferível estar do outro lado do mundo do que viver na escravidão, a vida ingrata. A igreja é uma lembrança, um marco do povo negro bragantino, mas precisaria ser mais bem cuidada, mais bem vista”. Essa é também uma queixa de Izilda. “Não conseguimos recuperar a Capela Santa Cruz dos Enforcados, tombada pelo Condephaat - Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo”, lamenta-se.

Capela Santa Cruz dos Enforcados, na Rua da Liberdade, é um marco da escravidão negra em Bragança Paulista - Foto: Castilho/Jornal Em Dia

CULTURA NEGRA, UMA CULTURA POPULAR E REPRESENTATIVA

O educador de Cultura Popular do Entrando Em Cena, de Bragança Paulista, e Mestre da Companhia Malungos do Baque, Heri Roots, é envolvido com o tema há mais de 12 anos. “Essa cultura é muitas vezes nascida com negros descendentes de escravos. Dentro disso, é quase que inevitável não unirmos ela a movimentos negros. Nesses 12 anos, foram várias ações (em Bragança ou não), palestras, apresentações culturais, sempre engajado a não deixar a data passar despercebida”, comenta. Para ele, é importante, mesmo após 323 anos da morte de Zumbi dos Palmares, relembrar sua figura e exaltá-la nos dias atuais. “Zumbi foi resistência pura, um líder que provou que podemos sim questionar a arbitrariedade imposta pelo regime da época”, diz.

Heri explica que, apesar de muitas vezes a população negra ser tratada como “minoria”, trata-se da maior parte do povo brasileiro, que deve participar mais ativamente da sociedade. “O negro representa 56% da população brasileira. Ele está em todos os âmbitos possíveis, a diferença no meu ver é que, em locais mais expressivos, sua participação ainda é tímida. Infelizmente muitas vezes não é por falta de esforço próprio, e sim pela forma que a população muitas vezes vê o negro no Brasil”, avalia. Para ele, o Dia da Consciência Negra, “ representa a força de um povo, a história não mente”.

O EMPODERAMENTO DAS NOVAS GERAÇÕES NEGRAS

A militância também está presente nas novas gerações negras, que se utilizam de manifestações artísticas para se expressarem, se empoderarem e se fazerem ouvidas na sociedade. É o caso do paulista Jerê Nunes, de 27 anos, que se apresenta em Bragança Paulista na próxima terça-feira, 20, junto ao coletivo Núcleo Negro de Pesquisa e Criação, com a leitura encenada “Fala das Profundezas”. Trata-se de um jogo cênico que se dá por uma proposta estética de dramaturgia e que pretende tencionar, de forma dialética, os diferentes pontos de vista a respeito da origem da desigualdade social no Brasil, a meritocracia, e as consequências desses dois temas nas relações afetivas da população negra. A apresentação contará com a participação da tradutora e intérprete de Libras, Malu Silva. “Os lugares por onde a gente passou nos mostrou a necessidade desse nosso objetivo, que é buscar sensibilizar. Temos que ser um espelho para as outras pessoas durante a peça e vemos que elas se sentem questionadas”, fala.

O grupo é formado por cinco integrantes: Deni, Maria Gabi, Gabriel Cândido, Thaís Arruda e Jerê, e une artes visuais, cênicas e musicais, já que conta com um “guarda-chuva” de possibilidades, visto que eles têm talentos e personalidades diversas.

Um dos grandes trunfos do núcleo foi o curta-metragem “Jardim Peri Alto em Cena”, que tem como tema território e ancestralidade negra. O projeto foi possível graças a um auxílio do Projeto VAI (Valorização de Iniciativas Culturais) da Prefeitura de São Paulo.

Para ele, a arte é uma forma de se posicionar e mostrar quem cada indivíduo é na sociedade. “Existem muitas formas de lutar. Eu acho que todo corpo negro que já foi violentado que já despertou começa a lutar porque percebe que está sendo passado para trás faz muito tempo e nas expressões artísticas, a gente está se colocando para mostrar que existe e começar a ser quem somos”, defende.

Para ele, o Dia da Consciência Negra passou a ter outro significado depois que entendeu melhor sua história. “É um dia muito importante, mas para quem conhece a cultura, a história, como foi formado o Brasil. Isso acaba passando batido, e por isso, o Núcleo Negro surgiu, e cada indivíduo que faz parte dele é um corpo negro vivendo o agora. Para mim, o dia representa necessariamente uma descoberta desde quando a gente começou a se encontrar e a se conhecer através dessa perspectiva”, declara.

PROGRAMAÇÃO EM BRAGANÇA PAULISTA

A programação em comemoração ao Dia da Consciência Negra está repleta de atrações em Bragança Paulista. Por meio da Secretaria de Cultura e Turismo, a Prefeitura realizará diversas comemorações alusivas à data, como passeata, apresentações da cultura negra com grupos do município, feira gastronômica, exposições, roda de conversa e shows.

A ação tem apoio da ABUC - Associação Bragantina de Umbanda e Candomblé, da conselheira municipal Izilda Toledo, da Cia Malungos do Baque e, também, do Instituto Entrando em Cena.

As atividades ocorrerão no Centro Cultural Geraldo Pereira, que fica na Praça Cel. Jacinto Osório, 26, no Matadouro, e seguirão o seguinte cronograma: a partir das 8h, começa a concentração para a Caminhada Zumbi dos Palmares, que parte às 9h da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e segue em direção à Praça Cel. Jacinto Osório, no Matadouro. Ali, a partir das 10h, acontecem diversas apresentações culturais: afoxé, maracatu, capoeira, roda de coco, hip hop e samba.

Às 15h, o Núcleo Negro de Pesquisa e Criação apresenta a leitura encenada “Fala das Profundezas” e, logo em seguida, às 16h, acontece uma roda de conversa sobre arte engajada, com participações de representantes dos movimentos negros bragantinos e convidados. Quem mediará a mesa será a Profª Fátima Guimarães, Coordenadora do CDPAH - Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa em História da Educação, da Universidade São Francisco. 

Encerrando as atividades, a partir das 18h, acontecerão diversos shows, com os artistas: Projeto Pé na Areia, Suzana Nogueira, Igor Sorriso e Bernadete.

O Campus Bragança Paulista do Instituto Federal de São Paulo também realizará diversas atividades alusivas à data durante a próxima semana. Na quarta-feira, 21, às 8h30, ocorre uma apresentação de trabalho sobre literatura africana, na sala B501; e no auditório, ocorrem três atrações: às 10h30 uma mesa redonda com o tema “Racismo e Eugenia”; ao meio dia, um mix cultural; e às 13h30, uma sessão-cinema.

Na quinta-feira, 22, ocorre, às 9h30, uma oficina cultural, na sala A504; às 11h, a palestra “Raça e Ciências”, no auditório; e às 19h, a roda de conversa “Mulheres Negras: realidade, conquistas e desafios”, na sala B102.  Por fim, na sexta-feira, 23, às 8h30 ocorre uma oficina de capoeira no pátio; às 10h35, uma sessão-cinema e, às 15, uma oficina de dança afro, ambas no auditório.

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