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SUB-VERSÃO

O corpo estirado no chão

Dava ainda para ver o sangue, e a carne compactada pelo impacto dos pneus contra o corpo. Estava meio esmagado, mas ainda conseguiu movimentar o carro, quando, sem querer, passei por cima dele. Já era a segunda vez que alguém fazia isso. Segunda, terceira, quarta? Não sei...

E o pior é que eu o vi, mas não sei por que, não desviei dele. Acho que pensei, calculando mal, que o pneu do carro não o atingiria, mas atingiu, e eu me peguei pensando no enorme desrespeito de passar por cima de um corpo.

Saíra atrasada de casa, ia rumo à aula de pilates. Mas isso não é desculpa para tamanha indelicadeza.

Desde criança, aprendi em minhas idas ao cemitério com a família, que não se deve pisar onde há pessoas enterradas. É preciso certo malabarismo em algumas situações, confesso, mas nunca, nunca ousei pisar no local de descanso de ninguém. Inclusive, em recente viagem a São Thomé das Letras, visitando sua famosa Igreja de Pedra, onde, antigamente eram enterradas figuras da alta sociedade, senti um arrepio ao quase pisar numa das sepulturas. E, mesmo avisada por minha amiga que as ossadas já nem estavam mais lá, haviam sido transferidas para outro local, mesmo assim, não ousei pisar naquele terreno sagrado.

Mas acaso a morte é terreno sagrado? Nada! A vida é que é. E é por isso que cada vez mais tenho ousado vivê-la em sua plenitude.

E eu não sei ao certo que fascínio é esse que a morte exerce sobre mim. Na verdade, é mais respeito que fascínio, porque sou fascinada mesmo é pela vida.

Ultimamente, a despeito do que se possa pensar depois de ler a introdução desse texto, ando mesmo é fascinada pela vida!

Não consegui identificar de que animalzinho se tratava o corpo estirado no chão, mas fosse um pássaro, ou um rato, ou um pombo, aquele compactado de carne, ossinhos e sangue já fora uma vida e dividira esse tempo comigo em nossa existência aqui na Terra, talvez daí o meu respeito.

Toda existência merece meu respeito e minha gratidão. E eu tenho aprendido que a vida pode ser uma aventura incrível, quando nos libertamos de pré-conceitos e nos permitimos ser quem somos.

Viver é tão bom, que chega a doer!

 

 

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