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Saúde

1º de dezembro, dia de conscientização e luta contra o HIV/Aids

Neste sábado, 1º, comemora-se o Dia Mundial de Luta Contra a Aids. A data marca o esforço conjunto de órgãos de saúde, entidades, poder público e sociedade civil no combate ao vírus HIV e à Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. Segundo dados da Unaids, em 2017, havia 36,9 milhões de pessoas no mundo vivendo com HIV. Apesar do expressivo número, a quantidade de pessoas que morreram por doenças relacionadas à Aids em todo o mundo caiu mais de 51% desde 2004, ano em que houve um pico da doença. Essa queda se deve principalmente à maior disseminação de informações disponíveis e à democratização do tratamento com antirretrovirais.

De acordo com a infectologista Januária Peres Gonçalves, que atua no município, entre janeiro e agosto de 2018, foram diagnosticados 24 novos casos de HIV em Bragança Paulista, sendo 83% de proeminência no sexo masculino e 60% concentrados na faixa etária de até 24 anos.

Ela explica que o HIV infecta, principalmente, os linfócitos T CD4+, que são responsáveis pela defesa do organismo humano contra infecções causadas por diversos microorganismos, como fungos, vírus, bactérias, e pode levar ao desenvolvimento da Aids. “A Aids surge quando essas células de defesa estão tão baixas (geralmente abaixo de 200), que o organismo fica mais vulnerável a microorganismos causadores de infecções – as chamadas infecções oportunistas – pois não tem capacidade de responder adequadamente a elas”, esclarece.

A doença é incurável, mas os tratamentos hoje disponíveis podem melhorar a imunidade e a qualidade de vida do indivíduo. “O tratamento do HIV/Aids é baseado no uso dos antirretrovirais, que são medicamentos que controlam a multiplicação do vírus, evitando, assim, o enfraquecimento do sistema imunológico. Ao longo dos anos, novas drogas foram incorporadas como opção de tratamento, com menos efeitos adversos e melhor posologia (menor número de comprimidos, tomados menos vezes ao dia), melhorando substancialmente a qualidade de vida das pessoas que vivem com o HIV”, comenta. De acordo com a Unaids, o tratamento antirretroviral é altamente eficaz na redução da transmissão do HIV, e estudos comprovam que as pessoas que vivem com uma carga viral indetectável, ou seja, com quantidade de vírus inferior a 40 cópias por ml de sangue, não transmitem o HIV em relações sexuais. Além de eficiente, o tratamento é oferecido de forma gratuita no Brasil pelo Sistema Único de Saúde (SUS), em diversas unidades.

No entanto, nem sempre foi assim: durante um longo período, principalmente na década de 80 e 90, personalidades como Cazuza, Renato Russo e Freddie Mercury morreram em um curto espaço de tempo em decorrência da doença, haja vista que não havia tratamentos eficazes nem muitos estudos na época. Aliás, a doença recebeu alcunhas, como “peste gay” e “câncer gay”, criando a falsa sensação de que a doença afetava apenas os homossexuais. Por muito tempo, falou-se em “grupos de risco” para o HIV, mas, hoje, não há um público específico para a contração do vírus, e sim, comportamentos de risco. “São práticas adotadas que aumentam o risco de contrair uma infecção sexualmente transmissível (IST), tais como a prática de atividade sexual sem proteção, uso de álcool e drogas. Atualmente, falamos que há pessoas com maior vulnerabilidade para aquisição do HIV, as populações-chave, que são profissionais do sexo, pessoas trans, gays e outros homens que fazem sexo com homens, usuários de drogas e pessoas privadas de liberdade”, pontua a profissional.

Apesar do estigma que se criou em torno da doença, hoje, diversas pessoas estão assumindo sua sorologia como forma de conscientizar a sociedade e ajudar a diminuir os índices de contágio. É o caso de Aírton Elias Paes, 49, representante da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids em Bragança Paulista e região. Militante pelas políticas públicas em prol da causa, é soropositivo há 18 anos e trabalha para evitar novas vítimas da Aids, bem como ajudar a oferecer mais qualidade de vida às pessoas com HIV e diminuir o preconceito e a falta de informação. “A Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids (RNP+) Bragança Paulista desempenha atividades de prevenção em parceria com o Programa Municipal de IST/Aids, efetua palestras sobre prevenção e esclarecimento à população nos avanços do tratamento, procura mecanismos legais para garantir o atendimento às pessoas vivendo com HIV no município, garantir os direitos dessas pessoas e, principalmente, lutar por políticas públicas de saúde, bem como combater o estigma e a discriminação que ainda hoje, mesmo com todo o avanço no tratamento, as pessoas vivendo com HIV ainda sofrem”, pondera.

Atualmente, ele encara com tranquilidade seu estado sorológico, mas conta que o momento do diagnóstico foi muito impactante. “No ano de 1999, após desenvolver uma tuberculose ganglionar, quando se iniciou o tratamento da tuberculose, o médico me perguntou se tinha feito alguma vez exame de HIV, respondi que não e ele perguntou se queria fazer. Então, fiz o exame e, após 30 dias, ele leu o diagnóstico: positivo. Entrei em desespero porque já tinha uma ideia do que aquilo significava. Perdi o chão, era como se a minha vida acabasse ali. Fui encaminhado ao programa, onde recebi orientação, apoio e comecei o tratamento”, recorda.

O medo foi a primeira sensação que veio à cabeça dele naquele momento. “Quando você se descobre soropositivo, a primeira coisa que vem à cabeça é o medo do que vão pensar de você, você se sente sozinho, procurando esconder sua sorologia de tudo e de todos”, diz. No entanto, com o apoio da família e de amigos, encontrou forças e percebeu que, com o tratamento disponível, poderia levar uma vida normal. “Por isso, decidi que não ia me esconder para morrer, mas sim, me mostrar para viver”, conta.

Segundo ele, a decisão de revelar sua sorologia veio quando percebeu a necessidade de dar visibilidade aos portadores do vírus que vivem no município. “Senti que não tínhamos representação junto a nossos governantes e comecei a participar de conselhos de saúde, elaboração de planos como a LDO (Lei de Diretriz Orçamentária) do município, para poder incluir e garantir as demandas das pessoas vivendo com HIV. Hoje, a RNP+ está inserida em vários espaços a nível municipal, estadual e federal em que antes não tínhamos uma representatividade”, explica.

No ano de 2004, Aírton começou a participar de reuniões de organizações sobre a Aids, conheceu muitas pessoas que enfrentavam a doença e passou a integrar várias ações na luta contra a enfermidade e na construção de políticas publicas para pessoas vivendo com HIV. Hoje, ele é representante da RNP+ na Frente Parlamentar de Enfrentamento às IST/Aids na Assembleia Legislativa do estado e participa de diversas articulações e reuniões em vários estados e até fora do Brasil.

Aírton Elias Paes, soropositivo há 18 anos, é engajado em políticas públicas em prol do combate à Aids - Foto: Arquivo pessoal

Aírton realiza seu tratamento e vive uma vida normal, apesar de ter adquirido uma infecção oportunista devido ao HIV, a neuropatia periférica, que lhe causa muita dor ao caminhar. No entanto, para ele, além de ter perdido amigos para a doença, a pior parte de ser soropositivo ainda é o preconceito. “Apesar das incertezas e desconfortos de ter uma doença que pode levar à morte e para a qual ainda não existe cura, devemos concordar que o pre conceito e o estigma da doença são grandes obstáculos a serem vencidos por quem é portador do vírus. O medo da reação da sociedade ainda faz com que muitas pessoas não façam o teste, escondam sua sorologia e, pior, não façam o tratamento”, conta, afirmando que o estigma, o preconceito e a discriminação nutrem a expansão da epidemia, seja na falta de promoção da saúde, prevenção de doenças ou na dificuldade de obtenção da assistência. Para criminalizar essa discriminação foi instituída a Lei nº 12.984, de 2014, que pode levar à prisão por um a quatro anos e multa.

O preconceito se dá, principalmente, devido à falta de informação. Muitos ainda acreditam que o HIV se passe de uma pessoa para outra num simples contato físico, por saliva ou suor, o que é um completo equívoco.  O vírus é transmitido somente por meio de contato com sangue, sêmen, secreções genitais e leite materno. As únicas formas de transmissão são: relações sexuais desprotegidas – anal, oral ou vaginal –, transfusão de sangue, compartilhamento de seringas ou de mãe para filho (transmissão vertical).

As pessoas que possuem comportamentos de risco devem ficar atentas, pois a prevenção ainda é o melhor remédio. A relação sexual protegida com preservativo é um dos métodos mais eficazes, mas também há outras possibilidades para evitar a infecção. “A PEP (Profilaxia Pós-Exposição) é o uso de medicamentos antirretrovirais por pessoas após terem tido um possível contato com o vírus HIV em situações como: violência sexual; relação sexual desprotegida (sem o uso de camisinha ou com rompimento da camisinha), acidente ocupacional (com instrumentos perfurocortantes ou em contato direto com material biológico). Deve ser iniciada logo após a exposição de risco, em até 72 horas; e deve ser tomada por 28 dias”, explica a médica Januária.

Outra possibilidade é a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição). “Trata-se do uso preventivo de medicamentos, antes da exposição ao vírus do HIV, reduzindo a probabilidade da pessoa se infectar.  Os públicos prioritários para a PrEP são as populações-chave, que concentram o maior número de casos de HIV no país: gays e outros homens que fazem sexo com homens (HSH); pessoas trans; trabalhadores/as do sexo e parceiros sorodiferentes (quando uma pessoa está infectada pelo HIV e a outra não)”, pontua.

Tanto a PEP como a PrEP estão disponíveis gratuitamente no Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) em Bragança Paulista, onde também é possível encontrar preservativos masculinos e femininos.

Por fim, àqueles que, por algum motivo, não conseguiram se prevenir e estão apreensivos com a possibilidade de terem contraído o vírus, é preciso ter atenção aos sintomas, que se diferenciam de acordo com as fases da doença. “Inicialmente, ocorre infecção aguda, geralmente de duas a quatro semanas após o contágio, a pessoa pode apresentar febre, dor de cabeça, mal-estar, dores no corpo, mas esses sintomas são autolimitados e desaparecem sozinhos depois de alguns dias. Depois, entra na fase assintomática, que pode durar muitos anos, em que a pessoa não apresenta nenhum sintoma, porém, os vírus continuam atacando e destruindo as células de defesa do corpo. Com esse ataque frequente, essas células vão diminuindo e o organismo fica cada vez mais fraco e vulnerável a infecções comuns, podendo apresentar febre, emagrecimento, diarreias e, quando essas células estão geralmente abaixo e 200 unidades por mm³;, aparecem as doenças oportunistas que caracterizam a Aids, tais como tuberculose, neurotoxoplasmose e criptococose”, pontua a profissional.

“Em minha opinião, o Dia Mundial de Combate à Aids é muito importante para levar informação sobre a doença, maneiras de prevenção, e conscientizar a população contra o preconceito e os estigmas que portadores do HIV sofrem na sociedade”, afirma a infectologista Januária Peres Gonçalves

De qualquer forma, a recomendação é, em caso de dúvida, que se procure a unidade de saúde mais próxima ou o CTA para realizar o exame de detecção e, em caso de resultado positivo, o ideal é iniciar o tratamento o mais rápido possível para evitar maiores complicações. Em Bragança Paulista, o CTA está localizado no Centro de Saúde “Dr. Lourenço Quilici”, situado à Rua Dona Carolina, s/nº, no Bairro do Lavapés. O atendimento é feito de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 17h, e são disponibilizados exames de sorologias para HIV, sífilis, hepatites B e C e teste rápido de diagnóstico anti-HIV, além de orientações e consultas com médico infectologista. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone: (11) 4033-4385.

Aos recém-diagnosticados, Aírton deixa seu conselho. “Cuidemos um dos outros, ninguém deve ser deixado para trás. Siga o tratamento corretamente, não se sinta culpado por nada e viva bem, pois viver com HIV é possível, sim, com qualidade de vida. Se precisar de apoio, nos procure, diga no centro onde faz o acompanhamento que quer falar com alguém da RNP+ que estaremos juntos, ou entre em contato pelo e-mail: grupoviver2005@yahoo.com.br. Culpar-se só dificulta o acesso ao tratamento e afeta a qualidade de vida. O importante após o diagnóstico é entender que, a partir deste momento, temos a responsabilidade em seguir o tratamento para manter a saúde em dia”, recomenda, afirmando que, após quase duas décadas vivendo com HIV, aprendeu a dar mais valor à sua vida e a de outras pessoas, e por isso, assumiu o compromisso de contribuir para, mais do que ajudar a evitar novos casos da doença, prestar auxílio a outros soropositivos e lutar por uma saúde pública de mais qualidade.

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