Fotos: Yasmin Godoy/Jornal Em Dia
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Educação

“Eu sou muito grato por tê-los ao meu lado”, diz Matheus, aluno que foi presenteado com um novo violão pelos colegas de classe

Mais uma ação de generosidade envolvendo estudantes do município de Bragança Paulista está conquistando corações dentro e fora da internet. Um vídeo publicado nas redes sociais da Escola Estadual Profª Mathilde Teixeira de Moraes, localizada no Parque dos Estados, mostra o momento em que o aluno Matheus Fernandes Santos, 14, foi surpreendido pelos colegas de classe, professores e funcionários da escola ao ser presenteado com um violão. O adolescente toca o instrumento há cerca de um ano, mas utilizava um violão bastante antigo, e por isso, recebeu um novo e ficou bastante emocionado.

O vídeo recebeu centenas de reações e, segundo a coordenadora da unidade, Solange Correia, responsável por postar o acontecimento na Internet, já alcançou quase 15 mil pessoas no Facebook.

Para conhecer mais sobre essa história, o Jornal Em Dia esteve na escola onde tudo aconteceu e foi recebido pela animada turma do 9º ano C, do período da tarde.

O aluno Gabriel Carvalho, um dos idealizadores da boa ação, conta que tudo ocorreu porque Matheus possuía um violão muito antigo e a classe achou que deveria presenteá-lo com um mais novo. “Ele tem um violão que o avô dele deu e estava muito velho, na parte debaixo estava rachado e estava fazendo um barulho estranho, aí tivemos a ideia de comprar outro”, relata.

No início, os alunos não sabiam se seria possível arrecadar a quantidade necessária para a compra do instrumento. “A gente ficou apreensivo se ia conseguir, pensamos em comprar um usado pela falta de dinheiro”, observa a aluna Giovanna Oliveira.

Na dúvida do que fazer para concretizar o plano, os estudantes receberam a sugestão de um professor para fazerem uma rifa e foram até a coordenação para pedir autorização, prontamente concedida por Solange. “Quando me procuraram para fazer a rifa, eu de prontidão achei super legal e autorizei”, conta a coordenadora.

Com a ideia aceita, faltava conseguir os prêmios para o sorteio. Para isso, foram até Roger Chaves, zelador da escola e vice-diretor do Programa Escola da Família, considerado um “paizão” para os alunos, que concedeu uma bola de futebol e uma de basquete como prêmios e comprou os talões da rifa.

A partir daí, as vendas começaram e o maior desafio foi “enganar” Matheus, que notou que algo estava estranho, mas não sabia exatamente do que se tratava. “Eu sabia da rifa, mas eles disseram que era para comprar alianças para um casal da sala. Eu sabia que estava acontecendo algo, porque não podia participar nem saber sobre a rifa”, relembra Matheus.

Desde o início até a entrega do presente, foi um mês de preparo. “A gente começou a vender no dia 28 de outubro e entregou no dia 28 de novembro pra ele”, conta Giovanna, ressaltando que toda a escola se engajou na ação – professores, alunos e funcionários – e o valor logo foi arrecadado para comprar um violão novinho em folha.

No dia da entrega, a turma preparou um piquenique na sala e Matheus acreditou que faria uma homenagem à professora de Matemática, Rozilene da Silva, muito querida pelos alunos, tocando uma música para ela. “Cheguei na classe e vi que tinha algo estranho porque todo mundo estava olhando pra mim em vez de olhar pra professora, mas só fui perceber a hora que entregaram o violão”, diz o tímido Matheus que, segundo os participantes, ficou um tanto sem reação no momento. “A homenagem aconteceu na minha aula. Eles tiraram o Matheus da sala pra pegar o violão, quando ele chegou, começamos a fazer uma festa pra ele, e ele se assustou porque pensou que seria pra mim. Ficou vermelho, paralisado, bem tímido”, entrega Rozilene.

Matheus recorda-se de qual foi sua sensação nesse instante. “Eu fiquei envergonhado – estou com vergonha agora, inclusive (no momento da entrevista). Fiquei pensando que eu não merecia, não sabia o que tinha feito pra ganhar”, confessa.

Porém, de acordo com todos os que convivem com ele na escola, Matheus é mais do que merecedor. “Ele é um cara muito gente boa, companheiro, ajuda os amigos”, elogia o colega Lucas Ariel. A professora também fez elogios ao garoto. “É muito bom aluno, tem um coração muito bom, ajuda os colegas da sala”, diz Rozilene.

Segundo ela, a sala que ajudou a realizar o desejo do colega é vista como indisciplinada, por isso, a surpresa com a ação foi ainda maior. “Essa sala é bem barulhenta. Quando foram à sala da coordenação para pedir autorização para a rifa, eu pensei que eles tinham ‘aprontado’ alguma coisa”, comenta.

Segundo a diretora da unidade, Rosermy Bellotto, todos ficaram encantados com a boa ação, que agora serve de exemplo para os outros alunos. “Eu acho que é uma coisa muito boa, um exemplo muito bom para os outros alunos porque eles são os mais velhos do período da tarde. Foi uma surpresa e foi muito gratificante pra gente ver o interesse pelo colega, a participação de cada um deles”, descreve.

Além de demonstrar a bondade dos estudantes, Rosermy acredita que os projetos desenvolvidos na escola auxiliam no desenvolvimento de valores humanos. “Na nossa escola, a gente procura trabalhar muitos valores, incluí-los em projetos de teatro, de esporte. Isso é algo que incentiva e consegue resgatar muitos alunos”, fala.

O zelador Roger é um dos responsáveis por esses projetos. Ele abre a escola voluntariamente para que mais de 200 alunos possam praticar esportes, de segunda a quinta-feira à noite, e aos fins de semana, durante o dia, pelo Programa Escola da Família. Ele explica que quando foi procurado, não titubeou em ajudar, já que valoriza muito esse tipo de iniciativa. “Eu acho que o berçário desses projetos de autoestima e valorização do ser humano tem que ser a escola, essa é a função dela, e apesar de ser legal o reconhecimento, a recompensa tem que ser o sorriso de cada um”, pontua.

Apesar de a turma ser “bagunceira”, Roger conta que sempre espera o melhor dos alunos. “Eu esperava isso deles, porque todo mundo tem um lado bom, se você vir o aluno como alguém que pode oferecer algo de bem. Às vezes, o que falta é alguém que dê carinho – não que você não tenha que corrigir quando necessário – mas você tem que acolher”, pondera.

Para Matheus, esse gesto representou um grande acolhimento. Ele morava em Morungaba e se mudou para Bragança há menos de um ano e conta que passou por um processo muito delicado. “Eu me mudei este ano, estava bem sozinho, com problemas familiares, e encontrei na música uma forma de me acalmar. Morei em Morungaba por 12 anos e quando me mudei, me senti desesperado porque meu pai estava desempregado e eu tinha perdido todos os meus amigos”, revela, acrescentando que o ato o fez repensar diversos conceitos. “Eu sou muito grato por tê-los ao meu lado, eu estava em uma fase bem difícil e eles me fizeram desistir de muita coisa que não era certa, e se não fossem eles, provavelmente eu não teria ninguém”, declara.

Matheus e seu novo violão, presente concedido pelos colegas de turma

Para os profissionais da educação, uma ação como essa serve de injeção de ânimo para continuar acreditando em dias melhores. “Acredito que Deus está movendo o coração deles, porque não é algo exigido, é algo que está vindo deles, essa vontade de ajudar o próximo. Eu me senti homenageada também porque é difícil ver jovens com esse coração”, diz Rozilene. “Sempre que eles fazem algo que é pra ajudar seu colega eles se motivam. Achei fantástico, lindo, acho que isso que move a questão da educação: o amor ao próximo”, observa Roger, salientando que apesar de cansativo, o ofício de educar lhe dá prazer e satisfação. Em sua opinião, fatos como esse podem ajudar a mudar a história de uma pessoa. “Para a gente, é algo que pode passar, mas pra ele, vai marcar a vida inteira. Se, futuramente, ele tiver uma insatisfação pessoal com a vida, é um fato que pode resgatá-lo e fazer ele se lembrar do quanto é querido”, argumenta.

Matheus, o vice-diretor da Escola da Família, Roger, e a amiga Giovanna, uma das organizadoras da boa ação

Mais do que uma lição de solidariedade, a atitude demonstrou a amizade e o coleguismo dos alunos da E.E. Profª Mathilde Teixeira de Moraes, que fazem questão de ressaltar o apreço que possuem por Matheus. “Ele pode contar sempre com a gente, sempre que precisar, que a amizade vai estar sempre aqui, porque amigo que é amigo nunca abandona”, afirma o colega de turma, Mathias Olegário.

Agora, o jovem Matheus, que, apesar de ter um hobbie e uma válvula de escape na música, sonha em trabalhar na área de design gráfico, está totalmente adaptado em Bragança e tem muitos motivos para agradecer. Um vídeo registrando o momento também foi publicado em seu canal do YouTube, o “Café da Noite”, em que divulga vídeos jogando videogame e falando sobre temas do cotidiano.

Para a coordenadora Solange, toda essa repercussão, além de mostrar a generosidade dos alunos, serve também para demonstrar à sociedade o valor da escola pública. “Tantas pessoas desmerecem o aluno da escola pública, mas é importante mostrar o que acontece, o afeto que eles têm, a amizade. Muitas vezes, a gente fala: ‘os valores estão mudados, estão invertidos’, e vem uma atitude dessa e contrapõe essa ideia. No final, isso rendeu milhares de pessoas alcançadas, visualizações e a felicidade do Matheus, que é o mais importante”, finaliza.

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