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SUB-VERSÃO

Eu também vejo Cristo no pé de goiaba

Àqueles que se perguntam quem é ele...

Eu sou o odor pútrido do mendigo,

O verme na barriga do menino descalço,

O encarcerado,

A meretriz.

Sou a margem do caminho,

Sou o filho renegado,

O homossexual expulso de casa,

A mulher violentada.

Eu sou o Cristo torturado,

O Senhor dos miseráveis,

Meu nome é MISERICÓRDIA!

Ana Raquel Fernandes

Sabem, eu não duvido que a futura ministra tenha visto Jesus no pé de goiaba. Estou falando sério, eu não duvido mesmo. Duvidar é coisa que deixei de fazer há algum tempo, e além do mais, quem sou eu para por em prova a fé de alguém.

Que Jesus tenha aparecido num pé de goiaba, eu realmente não duvido. Na verdade, eu só estranho. E não pense que eu estranho o enredo da história, não. O que me causa estranhamento é o fato de uma futura ministra, de um estado laico, estar usando o nome e a figura do nazareno para se promover ou promover sua crença. Isso eu estranho mesmo. Aliás, penso que ele nem voltará a aparecer para ela depois dessa, ou, se o fizer, será para chamar-lhe a atenção.

Nunca tive essa visão de Jesus, no pé de goiaba. Talvez porque para mim, ele tenha escolhido se apresentar quase sempre de forma menos bucólica que essa. A mim, ele sempre se apresentou sob a face da pobreza mais aguda, sob a pele purulenta do leproso, sob as marcas do corpo da mulher violentada, sob o sorriso roubado da criança interrompida, sob a dor do abandono e da marginalização...

O Cristo em quem eu creio poderia sim, muito bem, apresentar-se sob a sombra de uma goiabeira, mas a cena que imagino para tal situação é um tanto quanto diferente da que descreveu a ministra. Meu Cristo estaria, sob a sombra de uma goiabeira, dividindo seus frutos com os esfaimados, enquanto lhes consolava da dor de serem quem são.    

E entre um carinho e outro, um sorriso e outro, uma piada e outra, lhes devolveria a dignidade. Cristo lhes poria, a todos, a mesa farta do amor, na qual, os miseráveis têm lugar privilegiado. Na mesa do amor de seu Pai todos são bem-vindos: a virgem, a prostituta, o encarcerado, o desprezado, o homossexual, o imigrante, o retirante, o refugiado, aquilo a que chamam escória da humanidade também...

À mesa, em tom de conversa informal, com naturalidade, ele ensinaria às meninas que seus corpos lhes pertencem, e que aquele que os macula, macula o coração do próprio Deus.

Aos meninos, dirigiria palavras fortes e doces, a fim de que entendessem de uma vez por todas do respeito e da paridade.

A todos, lhes dirigiria palavras de amor e ânimo, mas só depois de lhes matar a fome, só depois de lhes lembrar que são gente, só depois de lhes resgatar do abismo imundo no qual essa “humanidade” doente insiste em colocá-los.

E não diria uma só palavra sobre política. E por acaso seria preciso?

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1 Comentários

  • Lamartine Oscar Veiga Veiga , Segunda, 24 de Dezembro de 2018

    Bom dia Ana !

    Parabéns pelas palavras emanadas do seu ventre: desconstruir o estabelecido não é pecado como pensam os estabelecidos nas crenças estáticas, mas sim graça.

    Em uma mulher periférica Deus encontrou graça e anunciou sua humanização, em um homem medrado pela cultura e pela religião antiga Deus o fez seu pai.

    Em uma periferia Deus se anunciou aos descalços e se fez corpo humano no coxo onde os animais se alimentavam.

    Em uma caverna fria e aquecida pelo baforedo dos animais os anjos cantaram Glória In Exelsis Dei, tudo como escreveste, Deus se fez pleno de humanidade em Jesus de Nazaré, e acredito que não subiria nos devaneios dos insanos transformados em pé de goiaba ou de outra fruta qualquer, pois optou pela vida e seus incontidos desejo de viver.

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