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SUB-VERSÃO

Rosa e Azul

Pobre não tem frescura, seu moço... Sabe como é, né? A gente não é que nem rico que fica mais de mês escolhendo roupa pra criança. Que roupa de criança que dura um mês? Pobre não arruma quarto do nenê, não, seu moço, que as crianças dorme tudo junto mesmo.

Sem contar que às vez, já aconteceu comigo, sabe? A gente tá embuchada e nem sabe. A vida na lavoura é dura demais, e nem sempre o sangue desce certinho, sabe? Acho que o corpo é muito forçado no serviço.

Pobre vive é preocupado com o que comer e com o que pagar as conta, moço, a gente não liga pra essas coisa de cor, não, moço.

Meus fio tudo usaram roupa dada pela minha patroa. O senhor pergunte se eu ligava pra cor que ela dava... Isso é bobeira de gente que não tem serviço pra catar!

E digo mais pro senhor, se qualquer um dos meus fio for gay, acho que não tem nada a ver com a cor da roupa, não. Sabe, moço, o que eu quero mesmo é que meus fio seja honesto, trabalhador, eu não dou trela pra gente besta que maltrata o outro só pruque ele não gosta da mesma coisa.

Coisa mais besta essa de dizer que menina usa cor de rosa e menino azul. Vai catar um servicinho pra fazer, dona!

E, sabe... sempre achei tão bonito os meus menino de cor de rosa... Eles são moreno, acho que a cor fica bem bonita neles. E as menina, bem arrumadinha, de vestidinho azul... Ah, seu moço, que bobagera essa história que o senhor me contou. Se o senhor não fosse moço sério, eu dizia é que o senhor tava inventando causo! (Risos).

Ah, acabei de lembrar de uma coisa, moço... Ai, que fico inté emocionada quando lembro. É meu vestido de casamento, moço. Era azul-clarinho, minha mãe mesma, que Deus a tenha, é que costurou. Sobra de um tecido fino da dona da fazenda. E quando eu entrei na capelinha, os zóio do Zé se alumiou mais que fogueira de São João. Ele disse que eu tava linda!

O Zé foi homem bom demais pra mim e pras crianças, seu moço. Os homem que mataram ele deve de tá é no inferno!

Me desculpe, seu moço, é que eu ainda sinto ódio, sabe? Deus que me perdoe, mas eu sinto. Matar o pobre do Zé por causa de terra? Terra que nem nossa era, que nós vivia de favor...

Sabe seu moço, nesse país aqui é tudo tão esquisito, mas de uma coisa eu tenho certeza, o sangue de nós tudo, o meu, o do senhor, o do Zé, que eu vi empoçado naquele dia, debaixo da figueira, o sangue, moço, o sangue é da mesma cor.

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