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SUB-VERSÃO

GUARACI, ou o extermínio dos donos da terra

Hino Nacional Brasileiro na versão Tupi Guarani:

Onhe endu Ypiranga gui hembe kanguy’i

Xondáro sapukai omboryry 

Kuaray aça oetxape vy nhanderesaka

Hendy pe arai re agu’i

[...] Ywy aywu’py, Nhemboete, Oúma ! Oúma!

Pindorama nhe’em baraete overá endy 

Mborayu ha’e nhearô gui ywy oguejy

Yvá porã py tory potim açy

Kurutxú ra’ angaa hetxakã.

Tuitxa odjegui rrae oíny rraepy

Iporã, hatã há’agaa ndaovaiguái

Tuitxa odjekuaa araka’ e werã

Ywy porã

Rreta va’ egui

Ndee rra’e

Ywy aywu’py

Ko Yuy Rra’y kwery Gui txy Marangatu

Ywy aywu’py, Pindorama!

Uma noite dessas, peguei-me envolta num sonho estranho. Eu paria uma criança, e o mais estranho é que, logo em seguida, a cena se transformava e eu me pegava ouvindo uma voz, que me conduzia, e eu a seguia. Embrenhamo-nos numa mata fechada, como nunca tivera visto antes. Havia música no ar, pássaros dos mais diversos, cujos cantos eu não saberia identificar, sapos coachando e muitos ruídos que sugeriam haver muita vida naquela floresta.

A princípio, pensei se tratar de uma voz masculina aquela que me conduzia, no entanto, e para minha surpresa, tratava-se de uma mulher. Guaraci era já uma senhora. Os cabelos longos e extremamente lisos, agora brancos feito as nuvens que enfeitavam o céu, cobriam parte de seu rosto, sem, no entanto, conseguir ocultar por completo a beleza de sua face. Coberta de rugas, marcada pelo tempo, a pele já afinada pela dureza da vida, ainda assim Guaraci refletia uma beleza, um poder e uma força extraordinários.

Foi ela minha guia. Sua voz firme e doce ainda ressoa em meus ouvidos, mesmo agora, já desperta do sono e do sonho.

A senhora índia conhecia cada trecho daquela mata e me contou de quando era ainda uma menina indiazinha e corria por toda aquela extensão, em busca de aventuras. Contou-me de sua amizade com uma saguizinha, a quem dera o nome de Potira, que significa “flor”. Escolhera esse nome porque encontrara o animalzinho durante uma de suas saídas para colher florzinhas. Potira estava caída, machucada. Guaraci, em sua inocência de criança, não podia supor, mas sua mãe havia sido morta. Apenas mais tarde, ela descobriria sobre a maldade de que é cheio o coração do homem branco.

Guaraci cuidou da pequena Potira, como se fora sua própria mãe. E foi com sua mãe que aprendeu, ainda criança, que as mulheres devem se proteger e defender sempre. Que a mulher carrega consigo o sagrado de todos os seres, e foi assim que ela, menina sagaz que era, chegou mesmo a pensar se Tupã não seria na verdade uma linda índia, forte e corajosa, como as meninas de sua tribo...

Além disso, enquanto me conduzia por trilhas estreitas até a aldeia, Guaraci também me falou sobre os banhos de rio e cachoeira, e sobre a vez em que ela jura, vislumbrou Iara!

Ah... e sobre a colheita da mandioca e o preparo do beiju. E aí eu me reconheci nela, porque simplesmente amo mandioca. Comentário meu a que se seguiu uma deliciosa gargalhada dela.

Falou-me também das noites estreladas, das histórias contadas sob o calor da fogueira e do respeito que há em ouvi-las da boca dos mais velhos. Guaraci falou-me, sobretudo, sobre a simplicidade da vida de um povo tão bonito, tão forte e ao mesmo tempo tão ameaçado e atacado. Um povo para o qual a terra, antes de ser um bem monetário, a terra, a terra é sagrada, e Guaraci não consegue entender como é que o homem branco, tão “evoluído”, nas palavras dela, não entende isso.

Guaraci segredou-me que também não compreende a gana do homem branco por destruir a floresta. Mas Guaraci já se considera velha demais para lutar por aquilo que desde sempre pertenceu a seu povo.

Guaraci deseja paz. Guaraci quer ser enterrada à sombra de uma gariroba, a fim de lembrar os vivos de que a vida não é, senão um amargor. Ela diz que vai é misturar seu espírito sempre doce ao amargor do coco produzido pela palmeira, porque acredita que até mesmo na morte se pode amenizar um pouco a tristeza de quem fica, e que, ao provarem o coco da palmeira onde vó Guaraci foi enterrada, seus netos entenderão que nossa missão aqui é tornar a vida uns dos outros mais doce e amena.

Mas o homem branco não quer saber de doçura alguma. E é aí que paramos, de súbito, a um gesto brusco de Guaraci, com o braço esticado, impedindo-me, e a si mesma de prosseguir.

Guaraci ou Quaraci, Coaraci ou Coraci (do tupi kûarasy, “sol”) na mitologia tupi-guarani é a representação do Sol, às vezes compreendido como aquele que dá a vida e criador de todos os seres vivos, tal qual o Sol é importante nos processos biológicos.

Guaraci fora meu Sol. Sua sabedoria e sua coragem guiaram-me mata adentro. Quisera eu que sua luz da mesma forma adentrasse o coração do homem branco, fazendo-o enxergar para além de sua sede por dinheiro e poder.

-Você consegue escutar, moça dos olhos de esmeralda? São eles, eles já chegaram! Sente? Consegue sentir o cheiro? É cheiro de morte, moça!

Escondemo-nos na mata. Guaraci, sábia e prestativa como só uma mulher guerreira sabe ser, foi quem fez meu parto, acredito que antecipado pelo pavor.

 Mas qual foi sua tristeza, quando constatou que minha criança nascera MORTA!

Texto dedicado à memória da criança da etnia Awá-Gwajá, de aproximadamente 8 anos, que foi assassinada e queimada por madeireiros na terra indígena Araribóia, no município de Arame, distante 476 km de São Luís.

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