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SUB-VERSÃO

11 vezes

“Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto o negro for vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial”.

Martin Luther King e seu espírito não estão ainda satisfeitos, estou certa disso. Imagino com que pesar o ativista pelos direitos dos negros norte-americanos receberia a notícia de que um de seus irmãos foi brutalmente assassinado por policiais no estado de Minneapolis.

Asfixiado. George chamou pela mãe, enquanto sentia o ar fugir-lhe dos pulmões. Covardemente morto! Joelhos brancos em seu pescoço bloqueavam a passagem do ar. Acaso ele não tinha o direito de dividir o mesmo ar com outros homens brancos? Acaso o direito à vida é privilégio do homem branco?

“Não consigo respirar”, foi a frase repetida por George 11 vezes.

Os policiais obviamente deram sua versão do fato. Alegaram não ter usado nenhuma arma durante a ação. E existe arma mais letal que o racismo? Por acaso ser negro é sinônimo de sentença de morte no país que se vangloria por ser a maior economia do mundo?

O triste e revoltante é constatar que aqui, em nosso país, a situação não é diferente. Lá, George suplicou por ar 11 vezes. Aqui, a família do músico Evaldo Rosa foi alvejada por 80 tiros de fuzil... Números...

Segundo relatos, George teria chamado por sua mãe. Aqui, um menino baleado em uma comunidade enquanto ia para a escola, também chamou pela sua, questionando-a: Eles não viram que eu estava de uniforme?

Estar sob a pele negra é como vestir um uniforme de morte. Que o racismo resiste em nosso país, isso é um fato, o pior é saber que tem cada vez mais se alicerçado em discursos odiosos e absolutamente criminosos.

Nascer negro num país como o Brasil, de maioria negra, pasmem, é levar consigo desde o berço um atestado de óbito debaixo do braço.

Sinto-me enojada quando chegam ao meu conhecimento situações como a de Minneapolis, aliás, crimes como o cometido em Minneapolis. E chego mesmo a pensar que é chegado um momento em que notas de repúdio já não funcionam mais efetivamente. Daí meu verdadeiro encanto ao ver as cenas dos protestos promovidos pela comunidade negra de lá.

Quanto tempo se passou desde o famoso discurso de Martin Luther King, e quão pouco se modificou na sociedade... Vivemos o retorno ao inadmissível, o elogio à barbárie, uma era de absoluto desrespeito às vidas negras.

Vidas negras importam, corpos negros não são propriedade de qualquer Estado, esteja ele sob a insígnia de qualquer flâmula. Negros não podem continuar sendo mortos por esse mesmo Estado.

Onze vezes maldito, oitenta vezes assassino o racismo que mata nossos irmãos!

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