Bruno Paes Manso é um dos maiores pesquisadores da atualidade sobre segurança pública e organizações criminosas. Ele não se limita a estudar o crime – ele o decifra. Nas entrevistas que concede e nas obras que publica, o pesquisador desmonta o senso comum que tenta encaixar o PCC na moldura clássica da máfia italiana. A comparação, embora tentadora, é falha. O Primeiro Comando da Capital não é uma família, não é uma hierarquia vertical, não é um clã. É uma rede. Um sistema. Uma engrenagem que opera com regras, contratos e prazos. Uma governança criminal que transformou o caos da biqueira em um mercado previsível e lucrativo.
A facção não depende de nomes. Marcola está isolado há anos, e a máquina segue funcionando. A Sintonia Final pode rachar, mas o crime continua operando com a mesma lógica: menos conflito, mais lucro. O PCC não é um cartel mexicano que desaba quando o chefão cai. É uma estrutura que sobrevive à prisão, à ruptura e à tentativa de desmonte. E isso, paradoxalmente, se dá dentro do próprio sistema penitenciário – o mesmo que deveria punir, mas que virou sede administrativa da facção.
A diferença estrutural entre o PCC e as máfias tradicionais está na ausência de vínculos familiares, religiosos ou históricos com o Estado. O PCC não nasceu de alianças políticas seculares, mas da lógica carcerária brasileira. Sua força está na horizontalidade, na capacidade de criar uma ética interna do crime, uma espécie de contrato social do submundo. O resultado é um mercado de drogas mais lucrativo, mais previsível e menos violento – não por benevolência, mas por cálculo.
Paes Manso avança além da análise criminal e parte para um diagnóstico político-social. Ele escancara o que muitos fingem não ver: o Brasil não é um narcoestado nos moldes mexicanos. É algo mais sofisticado e mais cínico – um Estado miliciano. Um Estado capturado por uma ideologia dinheirista, onde o objetivo não é governar, mas lucrar. A extrema direita, nesse contexto, sequestra esse imaginário e o converte em plataforma de poder, arregimentando setores econômicos e institucionais que enxergam no Estado não um espaço de mediação pública, mas um ativo a ser explorado.
Portanto, seus agentes não propõem um modelo de Estado – quer desmontá-lo. O agronegócio grileiro, os mercadores de armas, os pastores do mercado da fé, os operadores da segurança privada e os barões das apostas se articulam em torno de um projeto comum: transformar o Estado em balcão de negócios. Não há ideologia, há interesse. Não há política, há saque institucional. É a mentalidade dinheirista em sua forma mais crua – onde o Estado é apenas um obstáculo a ser quebrado para que a selva capitalista floresça sem freios.
A morte de Dorothy Stang – missionária católica norte-americana naturalizada brasileira, executada em 2005 por enfrentar grileiros e defender camponeses na Amazônia – escancara uma engrenagem que nunca deixou de funcionar. A grilagem, a violência contra trabalhadores rurais e a captura de terras públicas não são desvios: são práticas estruturantes do poder em vastas regiões do país. Hoje, essa engrenagem se funde à extrema direita, que enxerga o Estado não como ferramenta de justiça coletiva, mas como obstáculo à acumulação privada.
Nesse entrelaçamento de interesses, quando políticos brasileiros aplaudem ou apelam para que os Estados Unidos classifiquem o PCC como organização terrorista, não estão zelando pela segurança pública – estão escancarando uma brecha para intervenção estrangeira, sabotagem institucional e ataques à soberania nacional. Fazem isso como corretores da erosão democrática, operando em sintonia com agendas que não reconhecem limites constitucionais.
Portanto, atentar para isso é mais que um alerta – é um aviso. Setores da sociedade, pessoas comprometidas com a democracia e com um projeto de soberania nacional, precisam estar vigilantes antes que seja tarde demais. O crime se organizou. O Estado se desorganizou. E o Estado Democrático de Direito tornou-se um incômodo para quem deseja transformar o país num entreposto de lucro armado, lupanário de rentismo, fazendão agroexportador e pátria farisaica teocrática – espelhada em modelos teocráticos violentos que se espalham mundo afora.
Paulo Bressane é mestrando em Políticas Públicas, pedagogo e historiador.
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