Outro dia, na área do condomínio destinada à coleta do lixo, encontrei um troféu. Diga-se de passagem, era um troféu bonito, enorme, desses que aqui no Japão são conquistados em competições escolares ou esportivas. Não me aproximei, porém, para ver exatamente o que estava gravado na base daquela belezura dourada; apenas joguei a minha sacola de lixo no lugar correspondente e segui o meu caminho, apressado, como de costume – era cedo da manhã e tinha de tomar o trem para o trabalho.
No trem, fiquei matutando a respeito das razões que levariam uma pessoa a livrar-se de um objeto que para muitos significaria tanto. Explico: nasci e cresci no Brasil, onde, como em qualquer país de imigrantes, parecemos ter verdadeira fixação por tudo aquilo que reluz – acredito até que tal sentimento é herança de nossos antepassados (compostos em sua maioria por aventureiros que vinham ao “novo mundo” sonhando com o ouro e a prata dessas terras). Sim, parece mesmo absurdo para nós, fãs de objetos reluzentes, que alguém simplesmente se livre de um troféu.
E, enquanto pensava sobre as possíveis razões para o troféu estar ali, no lixo, tive uma espécie de epifania, que é, por assim dizer, uma revelação – uma compreensão súbita da essência das coisas. Sim, os motivos do dono ou dona do troféu para jogá-lo fora poderiam ser tantos – por exemplo, querer mais espaço na casa. Ou talvez o responsável pelo ato nem mesmo tenha sido o proprietário da coisa, mas sim um terceiro, a quem, não importando o valor sentimental do objeto, resolveu desfazer-se dele.
Mas, voltando à epifania, esta chegou até mim escandalosa, gritando a palavra “desapego”. Hipótese esta que, aliás, acabou me conquistando; uma vez que, sim, o desapego poderia muito bem ter sido a razão pela qual o troféu havia ido parar na lixeira. O dono certamente havia concluído que aquela peça de metal em nada contribuía para a sua existência. Ou ainda teria feito o que fez porque tal ato seria uma forma de libertação em relação a hábitos e paixões que precisava eliminar de sua vida. Algo nos moldes da teoria de Joseph Campbell, que, em seu clássico “O Poder do Mito” (1988), defende que “uma jornada somente começa com a morte do seu ‘velho eu’ e o nascimento do seu ‘novo eu’”.
Claro, tudo isso são especulações de minha parte. O verdadeiro motivo do proprietário jamais vou sabê-lo. Porém, se foi o desapego, vejo o “troféu no lixo” como uma espécie de lição japonesa para a minha vida literária neste ano que se inicia. Não, decididamente não vou sair de um dia para o outro jogando os meus troféus na lixeira. Mas, sim, decidi buscar novos ares na Literatura. Desapegar-me de velhos hábitos, que, em termos de crescimento literário, pouco ou nada representam.
Não sei aonde a jornada do “novo eu” me levará, mas uma coisa é certa: o arrependimento será muito maior se eu não tentar – e continuar assim, iludido, polindo o meu ouro... tão tolo.
Desejo também aos leitores valiosas epifanias neste ano que se inicia (isso se ainda não as tiveram). A todos, pois: um “Feliz Novo Eu”!
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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