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Educação

“A escola pública nunca é o problema, porque ela é a solução”, defende professor e antropólogo

Em comemoração ao Dia dos Professores, Marcos Cezar de Freitas comentou sobre a instituição da data no Brasil, os desafios da educação no país e opinou sobre o futuro da classe docente

O Dia dos Professores foi celebrado no Brasil na última quinta-feira, 15. A data é uma tradição antiga no país, instituída formalmente há quase 200 anos. Nessa data, sociedade civil e poder público realizam diversas homenagens à figura do professor e debatem os desafios da educação e da classe docente.

Justamente para entender os caminhos da educação no Brasil, bem como a importância da figura do professor e as dificuldades enfrentadas pela classe, o Jornal Em Dia conversou com Marcos Cezar de Freitas, professor livre-docente do Departamento de Educação da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo, e coordenador dos projetos internacionais de pesquisa Educinep (Educação Inclusiva na Escola Pública e Plataforma de Saberes Inclusivos).

Na entrevista, o professor contou sobre sua experiência profissional, refletiu sobre a instituição do Dia dos Professores no país, falou sobre os desafios e mudanças na profissão e qual deve ser o futuro dos educadores no Brasil, dentre outros assuntos. Confira:

Jornal Em Dia: Para começarmos, conte-nos um pouco sobre a sua formação e trajetória profissional.

Professor Marcos Cezar: Sou antropólogo e meu tema de pesquisa é a educação inclusiva, ou seja, a complexidade do convívio escolar com a diferença. Tenho me dedicado às variações culturais nas experiências de escolarização de pessoas com deficiência ou cronicamente enfermas. Sou professor há 38 anos e iniciei minha trajetória docente como professor de história na rede pública estadual em 1982. Em 1988, tornei-me professor universitário e a atuação na graduação e, principalmente na pós-graduação, fez com que eu transitasse da história para a antropologia. Meu universo de ensino e pesquisa é intensamente conectado à educação básica, especialmente as redes públicas e ensino, e o que escrevo e publico tem conexões permanentes com o chamado “chão da escola”.

Jornal Em Dia: Como você foi atraído para a Educação e por que decidiu lecionar?

Professor Marcos Cezar: Ao término do que hoje é denominado Ensino Médio, eu me precipitei e dei início aos estudos em Direito. Rapidamente, percebi minha precipitação, meu equívoco na escolha, mas paradoxalmente, esse equívoco conduziu-me a um grande acerto. Pois como universitário, fui convidado a cadastrar-me como professor admitido em caráter temporário (ACT) e especificamente convidado a apresentar-me para assumir algumas aulas nos municípios de Atibaia e Piracaia que, coincidentemente, tinham, naquele momento (final de 1981), uma complexa situação em que os professores efetivos estavam afastados e por um bom tempo aquelas aulas restavam sem atribuição. Entrei numa sala de aula com 19 anos e nunca mais saí. Percebi com muito entusiasmo que deveria ser professor. Cuidei de sair do Direito e procurar uma Licenciatura em História. Poucos anos depois, já formado, eu tinha alguns anos de experiência, pois aquela situação temporária permaneceu inalterada até minha formatura. Sabia, desde então, que minha profissão não mais se alteraria. Ser professor no Ensino Superior acrescentou a obrigação de tornar-me também pesquisador. Mas são atividades correlatas, inseparáveis, ou seja, para ensinar eu tenho que pesquisar. 

Jornal Em Dia: No decorrer de tantos anos de experiência, o que você considera que mais mudou em sua profissão?

Professor Marcos Cezar: Entre a primeira aula que dei há 38 anos e aquela que ontem eu ofereci na Unifesp, há uma diferença expressiva em relação ao tecido social que é inseparável da atividade docente. Felizmente, o cenário educacional nos últimos quarenta anos tornou-se mais inclusivo e permeado por grande diversidade. Especialmente entre 1988 e 2014, o país promoveu intensa inclusão educacional. A escola chegou onde não chegava, assim, o professor tem sido desafiado a falar com pessoas que historicamente não tinham voz, nem vez. Essa é uma mudança muito expressiva. O campus universitário em que atuo, por exemplo, está na periferia da periferia de uma grande metrópole. Isso melhorou muito meu trabalho, pois não há nada como a vida concreta e suas demandas para fortalecer nossos compromissos com a educação.

Jornal Em Dia: O Dia do Professor se deve ao fato de, na data de 15 de outubro de 1827, o imperador D. Pedro I ter instituído um decreto que criou o Ensino Elementar no Brasil. Mas foi somente em 1947, 120 anos após o referido decreto, que ocorreu a primeira comemoração de um dia efetivamente dedicado ao professor. Após tantos anos, qual a relevância dessa data?

Professor Marcos Cezar: Eu não diria que o Dia do Professor se deve ao ato instituinte de 1827. A comemoração se deve à iniciativa de uma professora negra, Antonieta de Barros, liderança feminista em Santa Catarina que, sendo uma das três primeiras mulheres eleitas no Brasil, em 1934, sustentou o direito à educação como causa. Quando foi reeleita em 1947, conseguiu aprovar o Dia do Professor e tomou o ato instituinte como referência. Mas o extraordinário não estava no dia 15 de outubro de 1827, mas sim na luta daquela professora, mulher negra com percepção densa sobre a escola pública como direito. Tornou-se feriado nacional em 1963, quando o presidente João Goulart, em interlocução com o grande Darcy Ribeiro intensificou a defesa da educação pública como causa associada também ao fortalecimento da docência.

Antonieta de Barros, professora, uma das três primeiras mulheres eleitas no Brasil

Jornal Em Dia: Muitos definem o ofício de professor como desafiador e, hoje, muitos jovens interessados em Educação desistem de segui-lo justamente pelas dificuldades que essa classe enfrenta. Em sua opinião, quais os maiores desafios de ser professor? Apesar deles, o que o motiva a seguir na profissão?

Professor Marcos Cezar: Ser professor é um trabalho. Não é um sacerdócio ou um dom. É objeto de formação específica, muito estudo, dedicação, compromisso e busca permanente por valorização, reconhecimento e estrutura de trabalho. Eu trabalho numa instituição que tem na formação de professores a sua principal razão de ser. Neste momento, temos aproximadamente três mil jovens estudando para a atuação como professores/as. O que os motiva? Algo parecido com o que me motivou há quase quatro décadas, ou seja, aquilo que Hannah Arendt quis dizer quando afirmou que a educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo suficientemente para assumirmos a responsabilidade de educar as gerações seguintes. O que motiva não é somente a percepção de que há um mundo a mudar, mas também a percepção de que em certo sentido já estamos mudando quando compartilhamos saberes que não pertencem a ninguém, porque pertencem à humanidade.

Jornal Em Dia: Nesse sentido, o que poderia comentar a respeito da afirmação do atual ministro da Educação, em entrevista ao Estadão, de que “hoje ser um professor é ter quase que uma declaração de que a pessoa não conseguiu fazer outra coisa”?

Professor Marcos Cezar: Um dos pressupostos mais elementares da antropologia é aquele que lembra que a pessoa que descreve mostra muito mais de si do que do objeto descrito.

Jornal Em Dia: Entre tantas histórias que um professor deve ter para contar, alguma em especial marcou sua vida?

Professor Marcos Cezar: É praticamente impossível escolher uma, tamanho o acervo de emoções. Para além disso, como coordeno atividades de pesquisa que, muitas vezes, abordam crianças cronicamente enfermas, há momentos em sala de aula muito marcantes que repercutem essas situações.

Jornal Em Dia: No dia a dia, além de ter a missão de ensinar os conteúdos formais que compõem o currículo, muitos professores ainda têm de lidar com as questões socioemocionais e culturais dos alunos. Como dar essa atenção e compreender a realidade de cada um tendo centenas de alunos e, muitas vezes, enfrentando más condições de trabalho?

Professor Marcos Cezar: Não penso que o currículo esteja num lugar e a vida concreta das pessoas noutro. Assim, considero equivocado perguntar como a vida atrapalha o currículo. Nada pode atrapalhar mais do que considerar que o conhecimento é algo em si mesmo, isolado da vida e que pode ser prejudicado por problemas pessoais. Se o currículo não diz respeito às desigualdades, assimetrias e tensões da vida, algo falta.

Jornal Em Dia: Hoje, muitos professores encaram a realidade do ensino remoto pela primeira vez. O que isso representa à classe docente? Há benefícios nessa modalidade?

Professor Marcos Cezar: Vivemos uma situação trágica, favorecida pelo descaso com a vida e desrespeito para com a ciência. Essa situação trouxe expressiva perplexidade para todos, e as atividades remotas apresentam dificuldades enormes, pois a escola é insubstituível e, simultaneamente, temos que ter a responsabilidade de reconhecer que o retorno é imprudente. Assim, o ensino remoto é paliativo. Demonstra grande dignidade e disponibilidade dos professores e das escolas que estão trabalhando intensamente, exaustivamente, nessa situação. Mas não podemos perder de vista que é uma emergência, uma estratégia de redução de danos.

Jornal Em Dia: Antes da pandemia, algumas pessoas exaltavam modalidades como o “homeschooling”. Você acredita que a sociedade passará a valorizar mais o trabalho dos profissionais da educação após esse período?

Professor Marcos Cezar:  A escola é insubstituível. Muitas manifestações equivocadamente salientam que a escola deve garantir o direito a aprender. A educação como direito diz respeito a inúmeros aspectos que são entretecidos no cotidiano escolar. Assim, aprender é uma parte da educação, não o todo, tampouco sua síntese. O que significa ensinar em casa? O que se substitui? Há também o equívoco de reduzir o conhecimento e o conhecer ao limite orgânico de cada pessoa, como se aprender fosse uma relação direta entre cérebros e palavras. Pesquisadores com experiências muito distintas como Lev Vigotsky, Marcel Mauss e Georg Mead demonstraram na riqueza de suas obras que a pessoa se faz no fazer com o mundo. Vigotsky chegava a indicar a “construção social da mente”. A escola é uma forma histórica que a educação adquiriu para ampliar enormemente a dinâmica de humanização das pessoas. Pois aprender sequer existe se não for aprender com, aprender ao lado de, aprender com a mediação de. Segregações e apartações têm históricos de elitismo ou de violência que afirma “separar para melhor ensinar”. Tenho medo.

Jornal Em Dia: Muito se fala sobre o “novo normal” na saúde, na cultura e na vida social. Qual o “novo normal” da educação?

Professor Marcos Cezar: Como assim “novo normal”? Voltaremos à dinâmica intensa de escolarização presencial com muito aprendizado que a experiência triste da pandemia proporcionou. Ou seja, estaremos como afirmava o poeta grego Kavafis, mais ricos do quanto ganhamos no caminho, mas de volta ao chão da vida. Nosso couro estará mais duro, nossas emoções mais calejadas. Mas não será um novo normal. As possíveis tentativas de afirmar que o pós- pandemia pode prescindir do professor não têm nada de novo, sempre tivemos autoritarismos dessa ordem insinuando a obsolescência do magistério.

Jornal Em Dia: Em sua opinião, de forma geral, qual a principal necessidade dos professores brasileiros?

Professor Marcos Cezar: Que o país como um todo reconheça que a escola pública nunca é o problema, porque ela é a solução.

Jornal Em Dia: Para encerrar, fique à vontade para fazer suas considerações finais e deixar uma mensagem aos seus colegas de profissão.

Professor Marcos Cezar: Deixo um abraço amigo, minha admiração e reconhecimento. Vivemos um momento dificílimo, de grande obscurantismo. Mas o dia claro sempre sai da noite escura. Amanhecerá.

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