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Olhar Social

A exemplo de Brutus

A arte é talvez uma das estratégias mais sublimes de contato com o lúdico e da permissão irrestrita de viajar para lugares tão distantes ou desconhecidos, quanto capazes de despertar nossos sentidos. Já cantavam os Engenheiros do Hawaii: “há tantos quadros na parede; há tantas formas de se ver o mesmo quadro”, porque há uma capacidade quase infinita de senti-los.

É assim com as obras do pintor francês Jacques Louis David (1748-1825) – um dos representantes do neoclassismo, nomeado pintor oficial de Napoleão – que nos atormenta e inquieta com um de seus trabalhos: “Os lictores trazendo para Brutus os corpos de seus filhos”, de 1789, no qual se interpreta a tragédia de Brutus, baseado na história de Roma.


     A obra “Os lictores trazendo para Brutus os corpos de seus filhos”, do pintor francês Jacques Louis David

A delicadeza e força dos seus traços – perfeitos em cada detalhe e contorno – narra a história de Brutus, cônsul romano do final do século VI a.C., o qual deu um exemplo extremo de virtude cívica ao mandar decapitar seus próprios filhos por conspirar contra a República. A dor da mãe e das filhas compõe a cena, enquanto Brutus permanece imóvel nas sombras, dividido entre sua tristeza e seu senso de dever.

Não há perdão ou qualquer forma de anistia para quem atenta contra a República; não há “jeitinho”, relações de compadrio, interpretações jurídicas caso a caso, em especial por tratar-se dos seus próprios filhos. A justiça só é de fato justa se vale para todas e todos!

Longe – bem distante – de fomentar qualquer forma de violência, a centralidade da magnifica obra de David nos permite identificar o senso de justiça. A dor do pai à sombra e o desespero das mulheres que choram acentuam e dão vida ao sofrimento que cada personagem vive. Embora cada dor seja única, intransferível e legítima, David nos provoca ao destacar que ela não está acima dos princípios republicanos, algo que traga espirito de coletividade. O que é – e deve ser comum a todos – não pode sucumbir ao campo do individual.

Realidade que tensiona pensar o Brasil de 2023, quando – não é de hoje – se fomenta uma sociedade em que as necessidades e interesses individuais tentam se sobrepor a todo custo aos interesses coletivos, às instituições democráticas e aos princípios republicanos; em que a tão famigerada liberdade de expressão é tratada como sinônimo de outorga para se agir ao seu bel prazer, fomentando narrativas e ações criminosas de modo irrestrito, irresponsável e arbitrário.  

O dia oito de janeiro, que abre 2023, é o expoente mais gritante desse comportamento, quando atos antidemocráticos e criminosos deram vida aos ensaios de golpe, na tentativa insólita de colocar abaixo a República Federativa do Brasil!

Ainda que haja ajustes a serem feitos no sistema republicano do país, em especial dada a realidade brasileira construída sob terras invadidas, que fomentam uma abissal desigualdade social, econômica, racial e de gênero, que busca – a passos lentos – reparar uma quase impagável dívida social – ainda assim, a República é o que temos de mais moderno e possível para congregar e permitir a coletividade de um povo culturalmente diversificado, com princípios que estimulem a transparência das ações, participação de todas e todos e o respeito às pessoas e instituições.

Não se propaga que cabeças sejam decapitadas pelos atos antidemocráticos e criminosos de janeiro, tampouco pouco que a justiça se faça com as próprias mãos.

Ao contrário, defende-se que todas – absolutamente todas – as pessoas envolvidas sejam punidas com o rigor da lei, responsabilizadas por seus atos: sejam aquelas que foram protagonistas – tanto no apoio, com suas orações deslocadas, ou na depredação concreta do patrimônio público – quanto aquelas que foram idealizadoras, financiadoras ou inspiradoras das ações.

Basta de impunidade, de qualquer tentativa de anistiar os responsáveis – que, sob pretensa liberdade de expressão, crentes numa realidade irreal – atentaram contra a República e, mais do que isso, atentaram contra cada um e cada uma de nós. Quem quer que sejam essas pessoas, não dá para reproduzir o que cantam os Engenheiros: “todos iguais, todos iguais, mas uns mais iguais que os outros”, cujo peso da lei depende de quem se trata! 

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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