news-details
SUB-VERSÃO

A feira e ela

Havia muito tempo que não ia à feira... Desde a pandemia, para ser mais exata, que foi quando ela mudou de lugar. Mas eu sempre adorei esse passeio, por assim dizer. Por conta da proximidade com a minha casa, era meu exercício aeróbico de todas as quartas-feiras, descer e subir o morro carregando sacolas, mas isso só depois de ter percorrido toda a extensão das barracas.

Quando a feira mudou de lugar e foi lá pro Posto de Monta confesso que fiquei triste, fomos separadas por uma distância muitíssimo maior que a de outrora, e desde então, nunca mais tinha ido vê-la.

Mas era feriado, não haveria aula de natação, então, e não sei bem o porquê, resolvi que iria à feira naquela manhã.

Mais tarde do que o de costume, admito, mas lá fui eu, dessa vez de carro e vestindo uma camiseta de manga longa, daquelas com proteção solar. Os dias têm sido insuportavelmente quentes e minha pouca melanina não me permite exposições prolongadas ao sol.

Os dias têm sido extremamente tristes desde que ela se foi. E por isso minha absoluta estranheza ao caminhar pelas fileiras de barracas e gentes e não ouvir sua voz. E por isso minha mais completa decepção por não esbarrar com ela, escolhendo alguma roupa e me dando dicas de itens bons e baratos mais à frente. 

Eu quase que podia ouvi-la dizendo: -Ih, Raquel, pode ir embora, já comprei tudo! Frase essa à qual se seguia uma risada autêntica e gostosa, capaz de afugentar qualquer tristeza e de fazer inveja ao mais habilidoso dos feirantes.
Eu sei o quão estranho isso pode soar a ouvidos desacostumados à saudade, mas no fundo do meu peito, bem lá no fundo, eu verdadeiramente nutria a esperança de encontrá-la. Afinal, toda quarta era assim, e se não era, algo de errado tinha.

Tenho sonhado com Tia Nina algumas vezes, em todas elas ela está como sempre foi, animada, risonha, falando alto e festejando a vida. Será que ela tentou me avisar através de um desses sonhos que não estaria lá? 

Quel, a tia não vai à feira essa semana... 

Não, não me lembro dessa mensagem. Lembro-me apenas dela, e agora sei como é ir à feira sem contar com sua presença iluminada.

Talvez não tenha me avisado de sua ausência, porque de fato nunca deixaria de ir... Sim, ela foi, eu sei! Esteve comigo durante todo o percurso, no sol, forte como ela, nas falas agitadas dos feirantes e clientes, no riso das crianças e no multicolorido das frutas. 

Tia, eu voltei a ir à feira. Vamos quarta que vem de novo?

***

Siga o JORNAL EM DIA BRAGANÇA no Instagram: @jornalemdia_braganca e no Facebook: Jornal Em Dia

Você pode compartilhar essa notícia!

0 Comentários

Deixe um comentário


CAPTCHA Image
Reload Image