Foi uma dor lancinante, daquelas traidoras, que fingem ir embora, mas que voltam com toda força, e ficam nesse exercício cruel de ir e vir por um bom tempo. Foi uma dor inesperada, mas como toda dor inesperada, ensinou-me algo.
Estava na cozinha preparando minipizzas com aquelas massinhas rápidas de que dispomos hoje em dia, quando, ao cortar um pedaço de queijo, pensei ter me cortado, mas como? Não havia sangue, eu nem sequer esbarrara com a faca em minha mão.
Não, descobri que não era um corte, quando, num gesto movido pela dor, levantei a mão, e aí, só aí, reconheci a causa, ou melhor, a causadora daquele meu mal-estar. Era uma abelha, dessas lindinhas que produzem mel e que a Monsanto insiste em querer exterminar de nosso convívio. Amarelinha, sabe? Típica abelhinha de desenho infantil. Aliás, acho mesmo que daqui a algum tempo é assim que o Lucas vai desenhá-la.
Perdoem-me o lapso, Lucas é meu sobrinho, a criatura mais linda e adorável com quem já convivi, um ano e alguns meses de puro desejo de descobrir o mundo.
Ele estava na cozinha, sentado na mesa, amparado por minha mãe, assistindo, todo faceiro, à “titi”, como ele me chama, preparar uma “coisinha gostosa pro nenê”.
Pensei tê-lo assustado com meu choro, mas foi só impressão, porque o que se seguiu ao meu choro de mulher crescida, foram gargalhadas deliciosas de um menininho esperto demais para deixar passar em branco a cena de sua “titi” fazendo caretas de dor.
E rimos, apesar da dor, por causa daquela criança e sua presença espirituosa em nosso meio.
O dedo ainda está vermelho, um pouquinho inchado, e olhem que enquanto escrevo esse texto é sábado e o incidente ocorreu na quinta-feira.
Mas o mais interessante é o que essa experiência me ensinou.
Depois de passada um pouco a dor e o susto de ser ela ocasionada por uma criaturinha tão bonitinha e aparentemente inofensiva quanto aquela abelha, eu finalmente, pensei: “Nossa, ainda bem que ela veio em mim e não no Lucas”.
É uma constatação óbvia, afinal, se doeu tanto em mim, que sou mulher crescida de 1,75 de altura, imagine numa criança como ele...
E foi aí, que esse pequenino arauto de meu Senhor falou-me mais claramente. Falava-me ele sobre o amor sacrificial das mães.
Não, nem de longe posso ousar querer comparar meu amor ao de uma mãe, mas entendi um pouco mais sobre essa espécie insana de amor, após ter minha pele visitada pelo ferrão envenenado daquela pequena.
É assim que as mães amam, com sacrifício. E é um amor tão verdadeiramente louco, que a elas é preferível sofrer ao invés de ver seu rebento em sofrimento.
Por amarem assim, elas nos ensinam o que vem a ser o Amor em sua essência. Amar, como só as mães amam, é ser capaz de oferecer-se em sacrifício pelo outro, por aquele que, dolorosamente foi gerado em seu ventre.
“Ser mãe é padecer no paraíso”, já disseram. E acho que agora, depois da chegada do Lucas e de eu presenciar o amor fazendo de minha irmã, Mãe e minha mãe tornando-se Mãe mais uma vez e da forma mais profunda que pode haver, como Avó, eu compreendo essa sentença.
Aliás, eu mesma, pretensiosamente, me sinto um pouco mãe daquele lindinho e seria capaz de me oferecer, sem pestanejar, a um enxame inteiro de abelhas para livrá-lo de sofrer qualquer dor.
As mães fazem isso diariamente, sem que seu exercício sacrificial nem seja notado muitas das vezes...
Para finalizar essa minha reflexão sobre as mães, citarei uma conversa que tive com um aluno, um adolescente especial essa semana.
Falávamos sobre o Dia das Mães, quando ele me segredou que a sua havia falecido e, então, queria escrever um cartão para a avó. Isso, só isso, já me comoveu. Mas quando li o cartão, ah...
Não satisfeito, disse que queria escrever um também para sua mãe. Não discordei, incentivei inclusive, mas confesso que fui tomada por uma tristeza pesada, quando, cheia de minhas certezas adultas, pensei que seria inútil, afinal, ela não estava mais entre nós.
Quanta insensibilidade a minha...
As palavras que se seguiram escritas com sua letra infantil, uma após a outra no sulfite dobrado ao meio, ah... aquelas palavras seriam capazes de trazer à vida uma legião de anjos!
Então, eu entendi que aquele menino é guiado por um anjo. E não me causaria espanto se a sentíssemos ali.
Curiosa, ainda perguntei qual fora a causa da morte da mãe. E ele, prontamente respondeu, com seu trejeito infantil e especial, que a mãe sofria de problemas do coração e, como para dar à luz a ele, precisou fazer muita força, morreu.
Bendita seja a força das mães, bendito seja o Amor que se personifica nelas!
Foi o último sacrifício daquela mulher que não cheguei a conhecer, mas a quem admiro pelo simples fato de ter sido mãe.
Para finalizar, ele ainda me ensinou mais uma lição, ao dizer que colocaria o cartão na árvore de natal. Alguém poderia achar ridículo, questionar se o menino estava confundindo as datas. Mas não, eu não, eu sei que, na noite de Natal talvez ela venha, e movida pelo amor que só as mães conhecem, rompa a barreira da morte e do tempo e do espaço e leia aquelas palavras que eu li.
Talvez até ela já as esteja lendo, no coração de seu filho, que é onde todas as mães vivem eternamente!
Feliz Dia das Mães!
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