Por Paulo Botelho
Entre os mais variados temas, tenho escrito com alguma regularidade sobre o trabalho; sempre a partir de minha experiência como consultor de empresas. Na verdade, as pessoas adoram ler sobre trabalho; sabe-se lá por que, mas adoram. Para mim, trabalho é ficar sem trabalhar. E escrever sobre trabalho é o que me dá mais trabalho no sentido de visualizar uma leitura correta, pois a leitura precede a leitura da palavra. E é preciso lutar com elas, como já recomendava o poeta Carlos Drummond de Andrade: “Lutar com as palavras é a luta mais vã; no entanto lutamos, mal rompe a manhã!”.
Certa vez, Ernest Hemingway foi visitar James Joyce, o consagrado autor do clássico Ulisses, e o encontrou tombado sobre sua mesa de trabalho, em um estado de profundo desespero. “Joyce, o que aconteceu?”, perguntou Hemingway. “É o trabalho?”, Joyce concordou. “Quantas palavras você escreveu hoje?”, insistiu Hemingway. E Joyce respondeu: 48. Mas isso é bom, dá um parágrafo razoável; pelo menos para você! “É”, respondeu Joyce, “só que eu ainda não consegui colocá-las na devida ordem!”.
É preciso trabalhar num parágrafo até conseguir se sentir razoavelmente satisfeito com o que se escreve, e reescrever até obter a ordenação correta das palavras; o equilíbrio exato, a música exata. Prefiro tentar me expressar com palavras aquilo que a música poderia fazer melhor; ela traduz de maneira mais simplificada. No entanto, prefiro o silêncio ao som. As imagens produzidas pelas palavras ocorrem no silêncio da memória que é a escrita da alma!
Paulo Augusto de Podestá Botelho é consultor de empresas e escritor. www.paulobotelho.com.br
0 Comentários