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- Quem é que dá nome aos passarinhos? – pergunta a menina.
- Bem, tem o nome popular e o nome científico – diz a vizinha.
- Ah!? E como se chama aquele lá? – pergunta a menina, apontando.
- É um Tiê-preto, porque é preto. Esse é o nome popular.
- E aquele que está junto? Que tem cor que parece de ferrugem?
- É uma Tiê-preto também, mas é a fêmea.
- Uai, mas se ela é cor de ferrugem, não pode se chamar Tiê-preto. Está errado! Por que ela não se chama Tiê-ferrugem?
- Porque os nomes populares dos pássaros são, quase sempre, dados pelas características dos machos.
- E porque não dizem Tiê-preto/ferrugem? Daí todos saberiam que a cor do macho é preta e da fêmea, ferrugem. Não seria mais certo? – pergunta a menina.
- Seria! Mas sempre foi assim e tem muita gente que resiste às mudanças. É o machismo estrutural.
- Mas quando minha avó casou, ela teve que adotar o nome do marido, já minha mãe, quando casou, pôde conservar o próprio nome. Isso foi mudado.
- Você tem toda razão! Está na hora de mudar nome popular das espécies de aves para uma forma mais inclusiva, com o nome salientando as particularidades tanto dos machos quanto das fêmeas. Está vendo aquela ali? É a fêmea do saí-azul, mas ela é esverdeada. Como você disse, o nome popular poderia ser saí-azul/esverdeada. Daí ambos os sexos estariam representados.
A menina, que mora na cidade e está descobrindo os passarinhos, se encanta. Saltitando, aponta:
- E aquele lá, parado em cima da casinha? Que bonita, tem porta e tudo!
- É um João-de-barro.
- Então ela se chama Joana, como eu? Cadê ela? Será que está lá dentro, tem filhotes? Ele ajuda a cuidar?
A vizinha volta para casa com mais perguntas na cabeça do que a menina. Pega o caderno onde anota as passarinhadas – passeio de observação de aves dirigido por um guia do Movimento de Observação de Aves Urbanas – e resume a conversa toda na seguinte frase:
- Chega de machismo estrutural na identificação de aves!
Vivian Feres José
Integrante do Coletivo Socioambiental Bragança Mais
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