Há dois assuntos que, recentemente, estão em maior destaque nos noticiários japoneses: a eleição da primeira primeira-ministra na história do país – e merecidamente, comentarei sobre isso em uma outra crônica –; e uma série de crimes cometidos por... ursos.
O segundo tópico parece aterrorizar bem menos a (ainda) sexista sociedade japonesa; mas, ainda assim, tem deixado muita gente preocupada – principalmente os moradores da província de Akita, região montanhosa localizada no norte do país.
A coisa foi começando aos poucos, através de pequenos ataques às latas de lixo das casas localizadas nos arredores das montanhas habitadas pelos “peludos gângsteres”. Mas, paulatinamente, a situação de perigo adquiriu proporções, digamos, mais épicas; culminando, pasmem, no assassinato de alguns anciãos.
Exatamente o que leram: os ursos declararam guerra contra os seres humanos – inclusive sequestrando algumas pessoas e levando-as para as montanhas, onde as matavam.
Muitos se perguntam, claro, qual seria a causa da repentina e excessiva agressividade por parte desse grupo de ursos. Uma teoria seria de que, com a mudança climática (provocadas por quem?), as árvores teriam produzido neste ano uma menor quantidade de frutos – forçando asim os animais a saírem de seu habitat natural em busca de alimento.
Particularmente, também acredito ser esse o motivo – ou, pelo menos, um dos principais. Aprendi desde cedo, em minha Amazônia natal, que a natureza jamais agride: apenas reage a uma agressão. E, mesmo que nós, os seres humanos, neguemos tal argumento; a verdade é que, pelo simples fato de construirmos nossas casas nos locais que antes pertenciam aos animais, ora, isso por si só já seria agressão suficiente contra a Mãe Natureza. O resto é tentar tapar o sol com a peneira.
Certa vez, assisti a um vídeo em que o cantor Raul Seixas era entrevistado após ter tido o seu carro destruído pela ressaca do mar carioca. E Raul, sempre com a palavra certa, respondeu algo do tipo: “O mar não está errado, não! Os errados somos nós, construindo esse monte de prédios tão perto da praia”.
Aqui reproduzo de memória as palavras do roqueiro, mas, creio, de um modo muito semelhante ao que ele disse na ocasião. E concordo com ele. Os errados somos nós, os sempre destruidores seres humanos.
Acredito, como já mencionei acima, que o caso dos ursos japoneses também seja parecido com o da “ressaca do mar carioca”; ou seja, é a natureza sendo invadida... e reagindo à invasão.
E mais: se os ursos precisarem de um advogado, já deixei com um deles o meu cartão...
É causa ganha, garanto. Basta comprar-se um juiz.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Foi premiado em mais de quinhentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2024, seu livro obteve o Primeiro Lugar no Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) da UBE-RJ. Também em 2024, foi o roteirista vencedor do “WriteMovies Script Pitch Contest”, nos Estados Unidos. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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