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SUB-VERSÃO

Acidente

“Nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo”. Clarice Lispector

A menina de olhos grandes, maiores que o mundo, mais tarde míopes, mas desde sempre esquizofrênicos, e de uma esquizofrenia de enxergar diverso. A menina via poesia em tudo, inclusive naquilo em que juravam os homens crescidos não podia haver poesia alguma. Mas como é que alguma coisa pode ser sem poesia? Pensava ela, enquanto imaginava uma nova história mirabolante em sua cabeça cheia de caraminholas e cachinhos. Como é que podemos ser, eu e você, sem poesia? Não faz sentido, e nem precisa, afinal, quem faz sentido é soldado e a menina logo se reconheceria uma militante das causas mais improváveis, impossíveis, não, que ela nunca reconheceu a validade desse vocábulo.

Pedra nunca fora pedra, isso era um fato. E até mesmo os sentimentos e as situações mais odiosos podiam, a seu ver, transmutar-se em poesia. A fome talvez fosse seu poema mais doído; a injustiça e a desigualdade sempre foram todos poemas-feridas, sempre abertas, sempre purulentas e também coube à menina escancará-los à vista de todos, a fim de que seu odor pútrido penetrasse às narinas daqueles que se autointitulavam poderosos.

E a poesia não é isso mesmo? Uma ferida sempre aberta? Uma cusparada espessa na cara de uma sociedade violentamente hipócrita?

Mas é também a calma depois do amor bem amado e a fraqueza nas pernas e a força na alma, depois de um amor bem amado.

A poesia é a afronta mais delicada e mais violenta. Só as almas treinadas para a delicadeza são capazes de suportá-la com algum respeito e muita devoção.

Devota da poesia, a menina de olhos grandes cresceu e não permitiu que as obrigações da vida adulta a impedissem de seguir com sua esquizofrenia poética, não, ela escreveu e escreveu e escreveu, até chegar ao ponto de se questionar o porquê dessa sua necessidade, ou ainda da utilidade do que fazia. Que bobagem! Escrever é auto-justificável. Preciso e ponto. E vírgula e ponto-e-vírgula, mas nunca, nunca um ponto final. Talvez quando um dia, finalmente, transformada em palavra a menina descanse desse seu escrever.

Mas quem é que inventou essa besteira de se descansar em paz? Pensava ela sempre que lia alguém lamentando, não sei se sincera ou oportunamente a morte de outrem. A pessoa que morre em função de um acidente, por exemplo, como é que estava cansada? Ah... ele descansou! Que baboseira!

Meu acidente é ter nascido poeta!

Enquanto escrevo imortalizo minha existência, denuncio a maldade dos homens e me deleito com as imagens que esses meus olhões, agora cercados por inúmeros “pés de galinha” ainda são capazes de enxergar. Enquanto escrevo, volto a ser a menina curiosa da infância e me assumo a mulher de quarenta anos, igualmente curiosa. E porque não consigo evitar, sigo escrevendo e não peço desculpas por isso.

Isso é quem sou. Talvez um dia, quando ao invés de ocupar a Sub-versão meu nome esteja na seção de falecimentos, talvez aí, eu pare de escrever. Talvez porque não seja mais preciso, já que voltarei a meu estado original, voltarei a ser palavra, o verbo pronunciado pela boca santíssima, poesia, poesia pura!

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