Por Joel R. Castilho
No último domingo, 20 de abril, pela quinta rodada do Campeonato Brasileiro, os torcedores do Bragantino se despediram do histórico e eterno Estádio Marcelo Stéfani – hoje oficialmente chamado Estádio Nabi Abi Chedid. A vitória por 1 a 0 sobre o Cruzeiro, com gol marcado por Jhon Jhon, marcou a última partida disputada nesse palco que sempre foi motivo de orgulho para Bragança Paulista. O estádio será demolido para dar lugar a uma arena multiuso de padrão internacional, que recebe o nome de Arena Red Bull.
Durante os próximos quatro a cinco anos, enquanto a nova casa do Red Bull Bragantino é construída, o time mandará seus jogos no Estádio Municipal Cícero de Souza Marques, que passou por uma grande reforma, e hoje tem capacidade para 12 mil lugares.
A trajetória do Estádio Marcelo Stéfani se confunde com a própria identidade de Bragança Paulista e do Clube Atlético Bragantino. Mais do que uma simples arena esportiva, o “Marcelão” é fruto de lutas políticas, união popular, investimentos privados e conquistas dentro e fora das quatro linhas.
Tudo começou ainda nos anos 1940, quando a Prefeitura desapropriou parte da Fazenda da Família Zago, no Bairro Santo Agostinho (antigo Seminário Santo Agostinho), para a construção do estádio. Inicialmente conhecido como Estádio das Pedras, sua estrutura logo se tornou motivo de disputa entre os clubes locais. O Gynme Club, rival do Bragantino, alegava – com razão – que o estádio era municipal e exigia o direito de uso.
A disputa chegou à Câmara Municipal, onde, por margem estreita, venceu a corrente ligada ao ex-jogador do clube Marcelo Stéfani. Com cinco votos, foi aprovada a lei que doava o estádio ao Clube Atlético Bragantino. Como reconhecimento, o estádio recebeu o nome do ex-atleta e ex-presidente do clube, Marcelo Stéfani, figura central também por ter doado parte do terreno para a construção do estádio.
Sua inauguração oficial ocorreu apenas em janeiro de 1965, pelo então presidente Nabi Abi Chedid, consolidando o estádio como a casa oficial do C. A. Bragantino.

Pelé, o maior jogador de futebol de todos os tempos, desfilou seu talento nos gramados do Marcelão em duas oportunidades: em 1958 e 1966, marcando quatro gols nas duas partidas.
O Marcelão também foi palco para o maior jogador de futebol de todos os tempos: Pelé, que faleceu em dezembro de 2022. O rei do futebol esteve nos gramados do Estádio Marcelo Stéfani em duas ocasiões vestindo a camisa do Santos. A primeira foi em 1958, em um amistoso quando tinha apenas 17 anos e iniciava sua carreira. O Peixe venceu a partida por 4 a 1, e o camisa 10 santista fez um dos gols.
Já em 1966, oito anos mais velho e bicampeão mundial, ele voltou a Bragança, e foi decisivo para a vitória do Santos por 3 a 2, mancando os três gols no jogo que foi válido pela 21ª rodada do Campeonato Paulista daquele ano.

Início da construção da nova arquibancada para 5 mil lugares, em 1990. Na foto, Edmir Chedid (atual prefeito de Bragança), Jesus Chedid, Carlos Picareli e Mauro Baúna.
No final da década de 1980, o clube enfrentava novos desafios: com o crescimento da equipe e sua ascensão nas competições estaduais e nacionais, os 15 mil lugares já não bastavam. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF), ao classificar o Bragantino para disputar a elite do Futebol Brasileiro após a conquista da 2ª Divisão – denominada à época como “Copa União” – exigia um estádio com capacidade mínima para 25 mil torcedores.
Sob a liderança do então presidente Jesus Abi Chedid, com apoio do patrono Nabi Abi Chedid e de seu filho Marquinho Chedid, uma verdadeira força-tarefa foi mobilizada na cidade e na região. Jesus chegou a se afastar das empresas de ônibus da família para se dedicar integralmente ao projeto.
Engenheiros, pedreiros, dirigentes, torcedores e empresas locais se uniram em um mutirão incansável para construir um novo setor de arquibancadas com capacidade para 5 mil pessoas. A obra consumiu cerca de 800 metros cúbicos de concreto, 80 toneladas de ferro e envolveu cerca de 60 operários. O novo setor, atrás de um dos gols, foi comparado à construção de um edifício de 20 andares. O investimento total girou em torno de 80 milhões de cruzeiros – aproximadamente um milhão de dólares na época.
Além das arquibancadas, o estádio recebeu melhorias estruturais, como a instalação de um moderno departamento médico, comandado pelo renomado Dr. Marco Aurélio Cunha, melhorias no gramado – elogiado pela mídia – e reestruturação das cabines de imprensa.
Com essas reformas, o Bragantino passou a ter um estádio compatível com as exigências dos campeonatos nacionais, firmando-se como um clube de destaque do futebol brasileiro.
Em 6 de janeiro de 2009, o estádio teve seu nome alterado oficialmente para Estádio Nabi Abi Chedid, em homenagem ao ex-presidente e eterno patrono do clube e um dos principais articuladores do crescimento do Bragantino. A mudança, no entanto, gerou controvérsia na cidade: muitos torcedores e moradores ainda se referem carinhosamente ao estádio como “Marcelo Stéfani”, em respeito à memória da família do antigo benfeitor.
Hoje, o “Marcelão” não será mais palco de emoções, conquistas e história. Mas ficam as memórias inesquecíveis de momentos gloriosos, como o título do Campeonato Paulista de 1990, sob o comando do técnico Vanderlei Luxemburgo – na famosa “Final Caipira” contra o Novorizontino – e a brilhante campanha do vice-campeonato brasileiro em 1991, quando o Braga que era comandado pelo técnico Carlos Alberto Parreira enfrentou o São Paulo na final.
Não se pode esquecer que o Marcelão também foi palco para grandes shows musicais da época, como o do cantor Roberto Carlos, da dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó, da banda RPM, entre outros.
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