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Olhar Social

Adolescência

O sucesso de público e crítica da minissérie britânica “Adolescência”, lançado recentemente na Netflix, não é à toa!

Seu enredo, tão atual quanto dramático – sem querer dar spoilers – traz à tona questões muito presentes no cotidiano dos adolescentes e suas famílias, como bullying, masculinidade tóxica e o impacto das redes sociais.

Provocados pela história – que não nos deixa piscar os olhos e nos toca de muitas formas – inúmeras análises, reflexões, resenhas, espaços de debates têm sido fomentados trazendo como centralidade exatamente essa questão: como está o processo de desenvolvimento desses adolescentes hoje em dia, numa fase tão crucial e tão desafiadora, quando se forma – ou deveria formar – as bases que o conduzirão para a vida adulta?

Ser adolescente nunca foi um momento fácil, seja para os pais – ao lidar com a explosão de mudanças que os jovens vivem – seja para eles próprios, ao reconhecer as transformações em curso – em seu corpo ou mesmo no campo emocional e social – e conseguir lidar com elas, dada a sua intensidade, o modo como tudo ocorre e o contexto em que estão inseridos.

Além disso, cada período histórico guarda desafios próprios desse processo, o que corrobora em tensionar a relação geracional entre pais e filhos. “Só” isso já faz desse período uma fase difícil para todo mundo!

O que se acentua ainda mais com a presença do mundo virtual na vida moderna, sobretudo das redes sociais, e o que isso representa no cotidiano, especialmente dos adolescentes.

O universo livre, ilimitado e infinito no mundo virtual permite aos jovens acesso a todo tipo de conteúdo. Sua interação – autônoma e independente – lhes dá asas e lhes permite navegar por mares desconhecidos, relacionar-se com perfis reais ou falsos, serem capturados em práticas criminosas, produzi-las ou incentivá-las.

E é exatamente esse um dos problemas reais e contemporâneos que devemos enfrentar: o universo livre e sem regulamentação desses espaços.

O ambiente virtual, assim como todos os espaços de convivência em sociedade, requer ter regras e limites. Há, nesses espaços, inúmeras células criminosas – como narrado na minissérie – onde jovens (ou mesmo crianças) convivem “normalmente”. Espaços propulsores de ódio e violência. Lugar onde muitos desses adolescentes canalizam suas angústias, crises, desafios, típicos da idade, seja pela ausência de diálogos no mundo real, seja como forma de reconhecer pares e o modo como se lidam com os problemas.

Famílias, pais e responsáveis – ao seu modo e dentro das suas condições – vêm lidando com essa realidade. Mas precisamos fazer mais e construir uma pressão ampliada a ser feita por toda a sociedade em prol da regulamentação do universo virtual. Esse universo não pode seguir sendo “uma terra sem lei”, onde práticas criminosas seguem impunes e circulam livremente.

Comunidades “incel” (termo abreviado de celibatários involuntários), abordadas na minissérie, exemplificam bem o tamanho do problema. Nesses espaços – formados por homens que desejam ter um relacionamento ou uma vida sexual com alguém, mas sentem-se incapazes para isso – as pessoas destilam todo seu ódio e violência, especialmente contra as mulheres, culpando-as pelo seu fracasso, cujas consequências vão para além do espaço virtual.

Regulamentar esse universo não é cercear a liberdade de ninguém, mesmo porque liberdade de expressão não é salvo conduto para a prática de crimes, como dizem as alas de direita e mais conservadoras de nossa sociedade. Significa, entre outros, que as big techs monitorem esses espaços, denunciem e derrubem ambientes criminosos; que haja regras e limites para todos que circulam nesse espaço, o que é bem diferente de um ambiente propulsor de tanta mentira e violência, onde adolescentes estão circulando livremente!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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