A maneira como o nosso corpo e cérebro lida com o estresse e ansiedade não mudou muito nos últimos 10 mil anos. Um mecanismo de defesa maravilhoso, ligado ao nosso sistema nervoso, chamado de reação de fuga, é acionado quando estamos em perigo ou somos confrontados com uma ameaça, seja ela real ou não. Ocorre, então, que são liberados em nosso corpo hormônios como cortisol e adrenalina, que nos forçam a entrar em “estado de alerta”.
Os advogados não estão na selva enfrentando riscos de morte. Porém, o organismo aciona o mesmo sistema quando estamos em situações de estresse. Nestes momentos, nosso corpo responde como se estivesse sendo perseguido por um leão faminto. Com o tempo, essa ansiedade constante provoca a liberação de muitos hormônios. E essa liberação prolongada, de acordo com pesquisas, danifica o hipocampo (área do cérebro envolvida na aprendizagem e memória) e a amígdala (área do cérebro envolvida na forma como percebemos o medo), ambos associados à depressão. Constata-se, nos últimos anos, o surgimento de uma nova condição clínica chamada Burn-out.
A condição é acionada, em virtude da competitividade, das pressões por maior produtividade, pela necessidade do cumprimento de metas, dos conflitos gerados pelas relações interpessoais e pelas expectativas e também frustrações profissionais, tendo impactos na advocacia e nas condições dos advogados. Também conhecida por Síndrome do Esgotamento Profissional, a Síndrome de Burn-out é indicada como um estado físico e mental de exaustão. Desenvolve-se principalmente em situações de alta demanda emocional no trabalho.
É comum que os profissionais desta categoria adoeçam, seja por diabetes, pressão alta, problemas renais ou cardíacos ou transtornos psíquicos. Este quadro acontece porque o sucesso do trabalho de um advogado não necessariamente depende dele. O ganho de uma causa depende, no fim das contas, do entendimento do juiz, não necessariamente do desempenho de quem representou aquele processo. A pressão é grande, até porque, em muitos casos, a remuneração está associada à vitória da causa. O advogado é preparado durante a sua formação para ganhar sempre, mas é claro que isso não acontece. Então, é preciso aprender a lidar com a frustração de perder uma causa.
O estresse não tem relação direta com a especialidade, seja criminal, trabalhista ou de família. O que mais conta é a pressão pelo êxito, diante de toda essa loucura da Revolução Industrial 4.0 que vivenciamos hoje. Com a força das tecnologias, robôs e IoT, aqui está uma característica que a inteligência artificial jamais conseguirá reproduzir com a perfeição humana: os sentimentos. Como advogados, somos seres emocionais lidando com seres emocionais. Para atrair, receber, atender e tratar um cliente, é preciso usar todas as habilidades que compõem o quociente emocional. O maior segredo de uma advocacia de sucesso é, sem dúvida, a capacidade de nos conectarmos emocionalmente com os clientes. A empatia na advocacia exige um esvaziamento. Para exercê-la plenamente, é preciso esvaziar-se das suas próprias construções e do modo de enxergar as coisas, para lidar com elas sob a ótica dos clientes, quando eles estão, de fato, preocupados.
Não importa o quanto estamos de acordo com a relevância que é dada ao assunto. Defina prioridades e consulte a sua família. O trabalho ocupa um papel essencial em nossas vidas, mas nunca deve ser prioridade sobre a família. Esteja disposto a ocasionalmente dizer não para atividades de baixa prioridade, quando entrar em conflito com aquele tempo de qualidade que teria com ela. Ouça os sinais de alerta de estresse do seu corpo, se cuide, afinal, nossa ferramenta é única e insubstituível.
Lana Conceição Melo de Aviz é graduada em Direito, pós-graduanda em Direito Previden-ciário e membro da comissão da Jovem Advocacia da 16ª subse-ção da Comarca de Bragança Paulista-SP.

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