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SUB-VERSÃO

Afinal, o que os japoneses fazem aqui?

O dia começou estranho. Depois de acordada pelo despertador do celular, munida não sei de que espécie de força, talvez honra, levantei da cama, como quem levanta o mundo nas costas e fui pro banheiro. Era dia de pilates, mas o tempo chuvoso convidava mais à prática do repouso que à do exercício inventado por Joseph. De qualquer forma, e porque não posso me deixar afetar pelas mudanças climáticas, eu ia ao pilates.

Na volta do banheiro, a constatação: eu dormira com o inimigo. Assustada com a minha presença, mas posso lhes garantir que não mais do que eu com a dela, lá estava aquele corpinho gélido, melindroso e sagaz, movendo-se velozmente na parede do meu quarto. Graças a Deus era das pequenas, ainda filhote, suponho. Mas a presença daquele ser ainda me atormenta, quando agora, escrevendo esse texto, olho para minha estante de livros, de trás de onde ela sorrateiramente se escondeu de minha vista assustada.

Eu passei a noite toda com aquele serzinho. Certamente, que ela desfilou pelo teto, por sobre meu corpo, perigando, ao menor descuido deixar-se cair sobre mim. Não! Não posso nem pensar nessa possibilidade.

Pois é, cada qual com seu bloqueio. O meu com relação às lagartixas tem sua justificativa, que prometo abordar em outro texto.

O fato é que, lagartixa fora da vista, terminei de me arrumar, tomei meu café e fui para a aula de pilates. Aula cansativa, tenho uma professora excelente e que exige de mim sempre o melhor que posso oferecer. Saí de lá exausta.

Na volta, esqueci-me das obras que interditam a rotatória do Lavapés... Que descuido meu! Para ir, evitei o lugar, mas esqueci-me completamente do transtorno na volta. Obviamente, tive que fazer alguns desvios, mas a vida tem me convencido de que os desvios muitas vezes podem se tornar nossas melhores rotas.

Numa das ruas pelo qual não imaginava ter de passar, um senhor nitidamente de ascendência asiática, tentava atravessar. Não tive dúvidas, parei o carro e fiz sinal com a mão para que o fizesse. O agradecimento que se sucedeu me deixou comovida. O senhor abriu um sorriso tão, mas tão bonito, curvou-se, como costumam fazer os japoneses e ainda agradeceu acenando com uma das mãos. Seu sorriso me contagiou e eu sorri de volta. Quanta generosidade naquele gesto de agradecer o que nem precisaria de agradecimento. Quanta alegria naquele encontro, cuidadosamente preparado pelo destino.

A atitude daquele senhor, além de constranger-me, ensinou-me sobre gratidão. Aliás, mais do que isso, ensinou-me sobre polidez, educação e generosidade.

Então, quando tardiamente chega ao meu conhecimento o comentário inescrupuloso do mandatário de minha nação a respeito de uma jornalista de origem japonesa, eu coro de vergonha, literalmente.

E é esse sentimento de vergonha que me incita a responder à pergunta do Sr. Jair Messias Bolsonaro. Talvez, em sua mediocridade, ele nem suponha, mas o que os japoneses fazem aqui, no Brasil, é muito mais que ajudar a construir esse país, eles aqui, com sua presença nos ensinam sobre respeito, cordialidade, gentileza, responsabilidade, virtude e lealdade. Quisera eu ter um presidente capaz de reconhecer a valiosa contribuição da comunidade japonesa e de tantas outras para a construção desse país de dimensões e ignorância monumentais.

Só mesmo alguém que não respeita a diversidade, para também não ser capaz de enxergar a beleza que nela há.

Sinto-me extremamente envergonhada. Envergonhada pela completa falta de educação, envergonhada pela ignorância, envergonhada pelo fato de meus irmãos japoneses terem tido de ouvir uma atrocidade tão grande assim...

E é envergonhada, que, através desse texto, peço-lhes desculpas e agradeço pelo simples fato de serem quem são e por tudo o que já fizeram por esse país. Através da figura incrível daquele senhor atravessando a rua, cujo nome não pude saber, eu humildemente peço perdão a todos os japoneses e seus descendentes que aqui escolheram viver. Eu sei bem o que vocês fazem aqui, e por toda essa generosidade, lhes sou imensamente grata!

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