Jeniffer pretende colaborar para a melhora da qualidade do ensino musical no Brasil, ainda precário
No final deste mês, Jeniffer Coresma estará a aproximadamente 16.978 km de distância do Brasil, partindo para a segunda metade da realização de um sonho. A jovem bragantina de 22 anos é estudante de Música na Yong Siew Toh Conservatory of Music, uma das instituições mais conceituadas na área, localizada no sul da Ásia, em Singapura. Passando as férias de verão no Brasil, a musicista conversou com o Jornal Em Dia sobre o desejo de construir sua própria escola de música na cidade, um programa de cunho pedagógico voltado para crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social. Para muitos, uma utopia, mas para alguém que almeja alcançar as maiores orquestras sinfônicas do mundo, e com potencial para isso, talvez seja apenas questão de tempo.
“Utopia”, aliás, é uma palavra que acompanha Jeniffer desde que, aos 15 anos, se deu conta de que o “trombone baixo”, instrumento que toca, poderia levá-la de fato a uma profissão. Seu primeiro contato com o objeto foi por volta dos 12 anos, quando começou a participar de um projeto social que atuava com bandas marciais em Bragança. Na época, tudo era despretensioso, apenas para “matar o tempo”, como muitas crianças faziam.
Foi em 2017, numa oficina de música em Curitiba-PR, que a musicista conheceu o estadunidense Darrin Milling, que viria a tornar-se seu maior mentor e incentivador na área. Darrin é trombonista baixo solista da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) e, segundo a Emesp, “artista da Edwards Instrument Company (EUA) e cofundador do Quinteto de Metais São Paulo, do Low Brass Project Brasil, do Duo das Américas, do The Heritage Duo Ensemble, do Aubin e Milling Duo e do Golden Brass Trio (EUA)”, entre outras inúmeras atribuições.
Depois desse encontro, tudo mudou e a perspectiva de uma vida voltada para a música parecia mais realista. Em 2019, depois de ter participado de oficinas e diversos festivais, prestou pela primeira vez para Singapura, mas por conta do pouco conhecimento da língua inglesa, não conseguiu passar. Neste período, a menina já era professora de música e começou a perceber uma enorme defasagem no método do ensino musical no Brasil, tendo como base a sua própria experiência.
“Muitos só ficam aqui e o que eu queria para os meus alunos era incentivá-los a ir para um rumo que dá uma profissão de verdade. Porque senão é aquele lema que todos os pais falam ‘a música não dá dinheiro’. Então eu tentei levá-los para o caminho que eu gostaria que tivesse descoberto antes”.
Devido a divergências, acabou se desvinculando do projeto de origem e ficou um longo período sem instrumento, uma vez que não tinha condições para a compra de um trombone, que custa cerca de R$ 35 mil. Na segunda tentativa, em meio a esse turbilhão, já trabalhando como balconista no Posto Tasca, foi aprovada na Yong Siew Toh Conservatory of Music. Quase desistiu do sonho, mas Darrin garantiu que Jeniffer se preparasse adequadamente. O valor da passagem foi uma benfeitoria de sua chefe, Sylvia, que se comoveu com a história.
ESCOLA DE MÚSICA
“Quando eu fui para lá, me deparei com o ensino de verdade. Fiquei um de dois anos fazendo fundamentos. É vergonhoso? É, mas aleluia, que bom que eu consegui encontrar uma pessoa para me mostrar o certo. Para construir um país com mais OSESPs, a gente precisa mudar a base. Não é aprender errado pra depois acertar”, explica.
Jeniffer vai retornar para Singapura em breve, mas vem aproveitando essas férias para aprender tudo o que pode sobre os editais voltados para a cultura em Bragança Paulista. Segundo ela, pequenos eventos e projetos são o caminho de persistência que, em parceria com Darrin, deve percorrer para que a escola de música não seja apenas mais um sonho, mas se torne realidade num futuro próximo.
O objetivo é realizar a cada seis meses um evento voltado para a educação musical de crianças e jovens na cidade. A primeira experiência foi muito positiva: o “Abrindo janelas para o futuro da música erudita”, realizado no dia 26 de junho, no Centro Cultural Teatro Carlos Gomes, acabou chamando a atenção de sete integrantes da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo, que fizeram questão de comparecer.

O evento, realizado das 8h30 às 18h30, contou com tópicos como reeducação disciplinar e carreira na música erudita, didática fundamental, preparação para concurso, masterclass e muitos momentos para prática individual e em conjunto. O projeto, que recebeu apoio do Posto Tasca e da Churrascaria Coração Gaúcho, não foi criado do zero, mas é baseado no The Program Brasil, administrado pelo próprio Darrin, e um modelo para o programa que ela deseja implantar em Bragança.
Para que tudo corra conforme o planejado, também a mentalidade dos professores precisa ser trabalhada, uma vez que eles são os grandes incentivadores dos alunos. Por isso, quando a escola passar a existir, todos os professores receberão mentoria prévia, a fim de que, desde o início, eles consigam mostrar o que é preciso para seguir carreira. “Se você fizer o certo, não tem como dar errado”, comenta.
COMPLEMENTO DO CURRÍCULO EDUCACIONAL
Para Jeniffer, a música é fundamental para o desenvolvimento humano, em especial para as crianças, e deveria fazer parte da base comum curricular do país, pois converge com diversas matérias consideradas essenciais.
“Olha quantas bases existem no futebol, que é tão valorizado no Brasil! Quais bases existem de música? É uma problemática do Brasil de [a música] não ser uma das prioridades. É outra linguagem, se eu te der uma partitura aqui, você não vai conseguir entender o que está escrito, porque é como aprender um novo idioma; nós temos então a Matemática, conectada completamente o valor das figuras musicais; tem a Educação Física, você precisa ter um preparatório físico, no meu caso é o respiratório; a Filosofia, você tem que saber de onde vem a história da música, tem que entender o contexto musical daquela obra… não é tirar ou trocar, é dar um complemento”, diz.

A jovem trombonista segue por mais dois anos estudando Música em Singapura, e embora acredite que não exista povo melhor que o brasileiro, pretende continuar alçando voo no exterior. O objetivo é chegar nas grandes orquestras do mundo, em especial as de Chicago e Berlim. Ainda não sabe se deve fazer mestrado ou academia, mas, se possível, quer criar vínculos com os Estados Unidos, considerado uma grande potência na área.
“Para mim, a música é o respirar e atualmente eu quero viver sobre isso. O caminho sou eu, Deus e a música, então é dela que eu tiro o meu refúgio, é onde eu me carrego, onde eu consigo me reconectar comigo mesma e com outras pessoas. Na área eu tenho muita oportunidade de fazer a diferença”, conclui.
0 Comentários