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Crônicas de um Sol Nascente

ANA

Estou ficando velho – e isso não é uma metáfora. E, conforme a idade vai avançando, também é natural que o corpo comece a nos dar certos sustos. E foi exatamente um baita susto que o corpo me deu no mês passado.

Fui fazer um exame oftalmológico porque comecei a ser incomodado pelas chamadas (e famigeradas) “moscas volantes”. Para quem não conhece as tais pragas – e levante as mãos aos céus por não as conhecer – trata-se das moscas volantes de pontinhos ou linhas pretas que subitamente aparecem no campo de visão. Em um primeiro exame, o médico informou-me que os tais pontinhos faziam parte do processo de envelhecimento, posto que seriam uma natural consequência do descolamento do vítreo. Fiquei aliviado, e voltei para casa esperançoso de que a coisa não era assim tão grave. Mas foi aí que, dias depois, durante um segundo exame, o médico surpreendeu-me com a frase: “ANA ga aru!”. Traduzindo: “Há um BURACO”.

Eu, que adoro filmes de terror, confesso: jamais levei um susto tão grande em minha vida do que escutar aquela frase do médico. Imaginem: um buraco estranho foi encontrado no canto de meu olho esquerdo e, logo em seguida, o doutor determina: “Temos que operar hoje mesmo para evitar um deslocamento de retina”.

Como descrever a terrível sensação? Foi como se eu fosse caindo pelo buraco de meu olho, buraco este que parecia ir se agigantando e me engolindo rumo à mais completa escuridão.

E não exagero. Pois, desde o dia da operação, minha vida sofreu um verdadeiro revés. Isso porque tenho penado, a fim de preservar a visão, para realizar todos os tipos de atividades: inclusive escrever, uma vez que minha vista cansa mais facilmente diante de um computador. Hoje, para terem uma ideia, depois de 38 dias de operado, foi que consegui escrever esta crônica...

Sim, estou envelhecendo, e o meu corpo começa a pagar o preço dos meus excessos. Mas, se há um ponto positivo de envelhecer-se aqui, no Japão, é saber que, como naquele dia da descoberta do “buraco” (ou “ana”) ocular, terei pronto atendimento no eficiente sistema de saúde local.

O que, para um velhinho brasileiro como eu, já é uma luz no fim do túnel.

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quinhentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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