Para celebrar o seu aniversário, levei o meu filho ao parquinho temático de um de seus personagens favoritos: o super-herói Anpaman (a grafia é essa mesmo, com um “n” antes do “p”). Consiste o referido personagem – aliás, um dos mais populares no Japão – em um herói nos moldes do ocidental Super-Homem (ou do Super Mouse), exceto por um detalhe: sua cabeça é na verdade um pão doce recheado de anko. E isso tem um propósito: toda vez que Anpanman depara-se com alguém faminto, ele doa um “pedaço” da própria cabeça para que o outro se alimente.
O personagem, idealizado pelo cartunista Takashi Yanase, apareceu pela primeira vez em 1973, como parte de uma série de livros infantis do autor. No entanto, a primeira obra contendo somente histórias de Anpanman foi publicada apenas em 1976; e o sucesso foi tão grande que, em 1998, tornou-se um desenho animado, sendo até hoje o programa mais assistido pela criançada japonesa (incluindo o meu filho, que não perde um episódio).
O programa, vale frisar, também fascina os adultos – por exemplo, o famoso grupo coreano BTS fez uma homenagem ao personagem em um de seus discos. Pois o conceito é mesmo interessante, provocando reflexões e proporcionando ensinamentos, como o da solidariedade em qualquer situação. Afinal de contas, Anpanman dá de comer a quem tem fome, ainda que, para isso, perca temporariamente suas forças, ficando à mercê de seu arqui-inimigo “Baikinman”, este uma bactéria cujo objetivo é disseminar a falta de higiene por todo o planeta (como não poderia deixar de ser em se tratando de uma bactéria).
Anpanman nasceu, aliás, das experiências de seu criador durante a Segunda Guerra. Sim, Yanase, como muitos japoneses, também passou fome e outras privações durante a invasão norte-americana. Mas, em vez de escolher o caminho do ódio e do revanchismo, optou pela arte, sempre salvadora.
Por tudo isso, gosto que meu filho assista aos episódios de Anpanman. Pois é um desenho que prega valores que, em sua simplicidade, ajudam a moldar um bom caráter. Valores como solidariedade e justiça, entre outros, que parecem estar esquecidos nestes tempos que vivenciamos, de muitos punhos fechados e poucas mãos estendidas.
Sigamos, pois, o que nos ensina a letra da canção de abertura do desenho Anpanman: “Sou da ureshiinda ikiru yorokobi/ Tatoe mune no kizu ga itandemo”. Traduzindo: “Eu percebi o quanto é bom viver/ Ainda que doam as cicatrizes do meu coração”.
Dedico, pois, esta crônica a todas as crianças: por um futuro com mais anpanmans e menos baikinmans.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo que, em 2022, lançará mais um, agora pela Editora Folheando (Pará). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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