“Aonde vocês estão indo?”, perguntou o senhor de semblante marcado pelo tempo e pela poeira da estrada. Com a simplicidade de quem, movido pela curiosidade, quer entender o que se passa e o porquê de tanta movimentação de carros em sua terra.
“Está todo mundo junto?” – continuou ele, após ouvir de meu irmão que estávamos todos os carros apenas dando uma volta, conhecendo a região, ao que completei: “É um rali, senhor”, informação essa, inútil, segundo meu irmão, pois o tal senhor, segundo ele, nem imaginava o que vinha a ser um rali.
O fato é que a inocente pergunta daquele senhor foi suficiente para me paralisar por alguns segundos. Havia nela algo muito profundo, quase que um questionamento ontológico.
“Aonde estamos todos nós indo?”, eu pensei comigo mesma.
E assim, longe de soar como uma pergunta boba, o questionamento daquele senhor, encantado com a movimentação de carros no “quintal de sua casa”, ganhou para mim ares filosóficos. E eu aproveitei os segundos do “Neutro”, nome dado a algumas paradas necessárias ao rali de regularidade, para repensar esse estradão de terra imenso, que é o meu Brasil.
Em tempos odiosos como os que estamos vivendo, perguntar-se vez por outra aonde estamos indo é um exercício absoltamente plausível, e diria até mesmo necessário.
Aonde estamos indo, afinal?
Vergonha após vergonha, palavras que de tão detestáveis jamais poderiam ser pronunciadas pelo mandatário da nação. Ódio, favorecimento, desumanidade em um estado tal, que me faltam adjetivos para descrever.
Não, a poeira do rali, essa parede que se coloca intransponível defronte minha vista, não, nem ela é capaz de impedir-me de enxergar muito nitidamente a monstruosidade dos dias que vivemos, nesse país que amo. E como razoável navegadora que sou, quase que já posso prever o que nos espera depois da próxima “tulipa”.
Aonde estamos indo? Ladeira abaixo? Ao fundo do poço? A pergunta singela e arrebatadora daquele senhor ressoou em minha alma como um lembrete urgente, um aviso, um sinal de alerta.
Quem é que nos colocou nesse caminho? O quão desumanos alguns de nós ainda poderão se mostrar? O que foi feito do país que eu amo e de toda sua gente trabalhadora e gentil? Quem é que vai olhar pelos nossos pobres? Por quanto tempo as mentiras deslavadas se sobreporão à verdade que dói feito fome. Porque sim, a fome existe e macera o ventre dos meus irmãos. Por quanto tempo eles resistirão?
Talvez aquele senhor nunca venha a saber, mas além de inspirar o texto dessa semana, sua pergunta foi capaz de despertar em mim sentimentos muito estranhamente opostos.
Cada vez mais estou certa de que o Brasil é um latifúndio imenso, cujas generosas porteiras sempre abertas deixaram penetrar sorrateiramente um tipo muito perigoso de gente. Gente que odeia gente. Gente, que num patamar absurdo de egoísmo, massacra sua própria gente, renega seu passado, e segue orgulhosa, a passos largos por uma estrada de sangue e retrocessos sem fim.
“Aonde vocês estão indo?”
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