Eu ia morrer, eu ia, não havia como evitar. Estava feito. Consumado. E não, minha vida não passou feito um filme diante dos meus olhos, como costumam descrever que acontece diante da morte. Eu só conseguia pensar, tomada por um repentino de terror, que iria inevitavelmente morrer.
Desde criança sonho com uma onda enorme que me engole, não há tempo para correr, não há chance de resistir a ela. Ela é descomunal, avassaladora, ela sempre me alcança. Desde criança também que sonho com um rio, sempre o mesmo sonho, sempre o mesmo rio. No início do sonho, tranquilo, rasinho, caminho por entre suas pedras; depois, repentinamente transforma-se num rio imenso, como se tivesse sido atingido por uma tromba d’água ou algo assim, e eu sempre, sempre morro nele, levada pelo furor de sua correnteza. Já morri nele criança, já morri nele vestida de noiva; as situações mudam, o rio, não, e segue me matando.
Deve haver alguma explicação para esses dois sonhos recorrentes, já ouvi que têm a ver com minhas vidas passadas, talvez tenha. O fato é que a água é sempre minha assassina.
Mas voltemos ao início desse texto... Naquele dia, em Itacaré, na Bahia, mais uma vez, e dessa vez pra valer, a água ia me matar. Estava num ponto da praia onde as ondas já não quebram mais, absolutamente relaxada, curtindo a quentura das águas baianas, tão diferentes das daqui, quando de repente, olho para trás, e lá está ela, surgindo lá do fundo, erguendo-se feito um gigante recém-acordado de seu sono mais profundo. E se, ao longe já se mostrava tão grande, que estatura adquiriria quando chegasse mais perto? Não dá tempo de correr para a areia, constatei. O que eu vou fazer? Eu vou morrer.
Entra nela, Ana, disse minha amiga notando o terror em minha face. Eu entrei, e devo estar cuspindo alga salgada até hoje. Não sabia nadar, não sabia sequer respirar embaixo d’água. Engoli muita água, perdi meus óculos de sol, mas não, não morri. Não foi naquele dia que a onda do meu sonho me levou para Atlântida Eterna. Saí da água trêmula, o medo ganhara proporções diferentes depois daquela ocasião. Mas o que é o medo se não um desafio?
“Entra nela, Ana!” Eu só entendi mais tarde a preciosidade desse conselho,e encarei meu medo.
Vou aprender a nadar, prometi para mim mesma. Aprendi a nadar. Hoje, nadar é uma paixão e um exercício bem completo, diga-se de passagem. O primeiro dia na piscina foi aterrorizante, os outros que a ele se seguiram também, mas é preciso enfrentar o medo, afinal, “O que a vida quer da gente é coragem”, não é mesmo?
Mas preciso confessar que as ondas gigantes ainda me metem medo, principalmente aquelas que o mar da vida nos traz sob a forma de incertezas e dúvidas, tirando de nós toda e qualquer ilusão de controle. Elas se formam repentinamente, feito a grande onda de Itacaré, e feito aquele dia, e feito Pedro, descrente, aterrorizado, por alguns instantes eu me permito afundar em minha falta de fé. Luto contra mim mesma, e essa é uma luta vã e muito, muito cansativa. Imagino milhares de situações que nem sequer aconteceram e muito provavelmente nunca acontecerão e tento criar soluções para elas. Eu gosto de estar no controle. E assim que termino de digitar essa última afirmação, me pego pensando em quão ridícula ela é. Eu tenho controle sobre o que, afinal? Nada, absolutamente, nada.
Enfim, um momento de lucidez! Quero voltar a caminhar sobre as águas, quero confiar novamente que Aquele a quem os ventos obedecem jamais erra a direção da nau, e está cuidando de tudo. Não, não preciso temer as ondas ou o amanhã que se mostra tão incerto quanto os passos vacilantes do homem de pequena fé, Ele está no controle de tudo.
E talvez... Talvez eu ainda morra mesmo na água, talvez seja essa a forma que Ele escolherá para buscar-me, e se assim for, que morte mais terna e bonita, eu, corregozinho medroso e tímido, finalmente mar, finalmente de volta à essência primeira. Sem quaisquer preocupações ou medos, junto dEle, finalmente, serei oceano e é como se já pudesse ouvi-lo: - Vem, Aninha, vamos nadar juntos!
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