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Olhar Social

As mulheres de Atenas de ontem e hoje

Em menção ao Dia Internacional da Mulher – rememorado em 8 de março – para além das manifestações de carinho e apreço – legítimas e bem-vindas –, capturadas pelo mercado com a venda de produtos considerados femininos, a data nos convoca a refletir sobre as relações de gênero e prosseguir no fronte por respeito, mudanças e no reconhecimento de espaços e direitos. Sim, em 2022, porque a luta não está ganha!

Há ainda muito enfrentamento a ser feito, numa sociedade – a exemplo da brasileira, mas não só – onde o patriarcado e machismo estão enraizados de forma estrutural na dinâmica da vida; onde se naturaliza as diferenças sociais entre os gêneros e “não se mete a colher” face às inúmeras formas de violência, opressão e crimes contra a mulher.

A crítica entoada em “Mulheres de Atenas” de Chico Buarque já denunciava a estrutura patriarcal vigente. Escrita em 1976 – durante a segunda onda do movimento feminista brasileiro –, a melodia faz uma analogia entre as mulheres da Grécia antiga e as brasileiras. Em comum e atravessada por séculos, a mulher permanecia sendo submissa, sem voz, sem sonhos, direitos; objeto de posse, desejo e prazer do homem, cujo protagonismo centrava-se na atuação doméstica, na procriação e cuidados com os filhos, onde prevalecia (e prevalece) a supremacia masculina.

Passos importantes foram dados ao longo do tempo, frutos de muita luta daquelas que vieram antes de nós. Conquistamos direito ao voto; a estar na vida pública e política; a fazer escolhas quer seja no campo profissional, pessoal ou social; a dizer “não é não”; a ter voz e vez nos diversos espaços em sociedade, ainda que essas conquistas não se estendam a todas, sejam, por vezes, restritas e limitadas – em razão da classe, raça ou mesmo pelo imperativo da estrutura patriarcal e machista predominante.

Estrutura essa que oprime, cala, violenta e mata inúmeras mulheres diariamente. Nossas estatísticas mostram uma realidade ainda muito grave e dramática – ampliadas durante a pandemia, em que muitas mulheres foram obrigadas a conviver com seus algozes – além da desigualdade de gênero, da sub-representação em arenas de debate, da sobrecarga de tarefas, do acúmulo de papeis e da provação diária de nossas competências e habilidades.

Realidade que nos coloca em movimento para denunciar qualquer ato ou crime contra a mulher – seja a si mesma ou a outras, endossando o coro: “mexeu com uma, mexeu com todas” – como o deplorável episódio protagonizado pelo deputado estadual paulista Arthur do Val (Podemos) ao ter um áudio vazado, em sua ida para Ucrânia, ao dizer que as mulheres “são fáceis por serem pobres” e outras declarações obscenas e indigestas, parecendo ser possível tirar algum proveito diante da vulnerabilidade delas num cenário bárbaro de guerra.

Ou, ainda, dizer “Ele não”, por reconhecer que uma pessoa misógina e machista, que prega a inferioridade feminina, não pode (ou poderia) presidir um país. Que políticas públicas para as mulheres precisam ser geridas por pessoas “terrivelmente” comprometidas com os direitos humanos, em prol do empoderamento feminino, do combate a toda forma de opressão contra a mulher e na construção de uma cultura de respeito, desmontando as estruturas de uma sociedade patriarcal.

Não queremos seguir os exemplos das “Mulheres de Atenas”, que se humilham, sofrem caladas, “vivem pros seus maridos”, não tem sonhos e nem vontades... Ao contrário, temos muitos sonhos e desejos!

Sonhamos com um mundo onde haja respeito e igualdade entre os gêneros, onde não prevaleça o medo de ser mulher; onde meninas sejam heroínas, intelectuais e cientistas; onde o machismo (e o racismo) seja extinto; onde a mulher não seja subjugada e esteja onde quiser, como defendia a filósofa francesa Simone de Beauvoir: “Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre.”

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

 

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