Grupo já realizou mais de 80 apresentações pelo país e convida o público a se privar da visão durante o espetáculo a fim de ativar os outros sentidos
Nesta sexta-feira, 10, o projeto Teatro Cego, realizado e produzido pela Caleidoscópio Comunicação & Cultura, estará novamente em Bragança Paulista, como parte da programação do Festival de Inverno 2015. Serão duas apresentações, às 19h30 e às 21h, no Centro Cultural Geraldo Pereira, no Matadouro.
O Jornal Em Dia conversou, na manhã dessa quarta-feira, 8, com Paulo Palado (texto e direção) e Luiz Mel (produção e direção musical), que explicaram um pouco sobre a proposta de encenar uma peça teatral no escuro.
Eles contaram que a ideia do projeto surgiu há cerca de cinco anos, quando ficaram sabendo que a iniciativa era desenvolvida na Argentina. Luiz e Paulo foram até lá e conheceram o trabalho. Após, começaram a elaborar o novo formato de teatro no Brasil.
“Apesar de termos nos inspirado no projeto da Argentina, não temos nenhum vínculo com o trabalho desenvolvido lá. Começamos efetivamente do zero para formular o Teatro Cego aqui no Brasil”, contaram.
A primeira apresentação do Teatro Cego aconteceu em 2012, com a peça “O Grande Viúvo”, de Nélson Rodrigues, que será encenada em Bragança Paulista na próxima sexta-feira, 10. O grupo também tem outro espetáculo, “Acorda, amor”, e calcula que já tenha realizado mais de 80 apresentações pelo país.
Questionados sobre os obstáculos de formular um espetáculo que coloca a plateia no escuro, Paulo e Luiz disseram que os desafios foram muitos porque tiveram de elaborar cada parte da peça pensando em como transmitir a mensagem na escuridão. Para isso, eles consultaram deficientes visuais, que deram informações importantes sobre como fazer com que a plateia entenda o que está acontecendo sem enxergar nada.
“A contribuição dos deficientes visuais foi e é muito importante para nós, porque nos ajuda a entender o mundo deles. Eles nos explicaram detalhes que fazem a diferença na hora do espetáculo, na parte técnica, por exemplo, como saber se a pessoa que está andando é mais jovem ou mais velha; o público entende que os personagens estão tomando café porque sente o cheiro dele, enfim, são detalhes que as pessoas não prestariam tanta a atenção se estivessem enxergando”, explicaram.
Durante o espetáculo, sons, vozes e cheiros chegam aos espectadores vindos sempre de locais diferentes, dando a sensação de que eles estão realmente dentro do ambiente cênico. Tais sensações são o caminho para a compreensão da trama, mesmo ela ocorrendo completamente no escuro.
Além da proposta inovadora, o projeto ainda tem o objetivo social de abrir um novo campo de trabalho para atores, produtores e técnicos, priorizando deficientes visuais que atuam ou tenham intenção de atuar na área. O elenco é formado por seis atores, sendo três deles cegos, e mais três músicos. Dessa maneira, além de cumprir o papel social, de inserir esses profissionais no mercado de trabalho, o projeto ainda lhes abre uma nova possibilidade de formação e expressão artística que, até então, supunha-se inviável para os deficientes visuais.
Paulo e Luiz também falaram sobre a resposta que costumam ter do público ao final das apresentações. Eles disseram que quando o espetáculo termina os atores esperam o público do lado de fora, para que se conheçam. “Geralmente, as pessoas saem impressionadas e dizem que nem elas mesmas acreditam em como conseguiram entender a peça sem enxergar”, afirmaram.
Além do objetivo de fazer com que a plateia se atente para os outros sentidos, já que atualmente as pessoas “acreditam muito na visão”, conforme apontaram Luiz e Paulo, o projeto Teatro Cego tem a intenção de despertar a consciência do público para a doação de córneas. Em algumas apresentações, por exemplo, o grupo faz parceria com o BOS (Banco de Olhos de Sorocaba) e, ao término da peça, representantes da instituição ficam à disposição para o cadastro de doadores, sempre com boa adesão.
Da primeira vez que o Teatro Cego esteve em Bragança Paulista, as duas sessões estavam cheias e a expectativa é que ocorra o mesmo nesta sexta-feira, 10. “Convidamos a população para que vá aos espetáculos, faça essa experiência, que será diferente e enriquecedora. Só a gente faz isso no Brasil e não sabemos quando Bragança terá nova oportunidade como essa. Aproveitem!”, concluíram Luiz Mel e Paulo Palado.
Realizado e produzido pela Caleidoscópio Comunicação & Cultura, o projeto Teatro Cego tem patrocínio da Santher, por meio do ProAc (Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo). Em Bragança Paulista, tem o apoio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo.
A peça é baseada no conto “O Grande Viúvo”, do livro “A Vida como ela é”, de Nélson Rodrigues, e conta a história de um viúvo que, após ter perdido a esposa, comunica à família que também quer morrer e ser enterrado junto à falecida. Porém, antes irá construir um mausoléu para que ambos permaneçam lado a lado. A família tenta a todo custo convencê-lo a desistir do suicídio e encontra uma forma de evitar a tragédia, baseada em calúnias sobre a falecida, mas o resultado é inesperado para todos.
As apresentações acontecem às 19h30 e às 21h, no Centro Cultural Geraldo Pereira, e não é necessário retirar ingressos antecipadamente.
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