Ainda para falar sobre o Dia Mundial da Água, celebrado nessa sexta-feira, 22, o Jornal Em Dia conversou com a professora, bióloga, especialista em Gerenciamento Ambiental e mestre em Educação, Maria Cristina Muñoz, conhecida na cidade por sua atuação em campanhas e outras atividades relacionadas à preservação do meio ambiente.
Ela contou que iniciou trabalhos de educação ambiental formal nas escolas como professora, em 2003, e, em seguida, foi coordenar a Sala Verde Pindorama, uma iniciativa desenvolvida por meio de parceria entre a Secretaria Municipal de Educação com o Ministério do Meio Ambiente. “Lá desenvolvemos inúmeros projetos e um trabalho de formação continuada dos professores da Educação Ambiental. Nesse mesmo tempo, a gente também organizou o Coletivo Socioambiental de Bragança com a intenção de desenvolver ações de educação ambiental não formal, que é aquela educação ambiental que acontece fora da escola, com a comunidade de maneira geral. E aí também surgiu a parceria com a Associação Bragança Mais”, disse.
Maria Cristina representou Bragança Paulista em diversos eventos voltados ao meio ambiente e educação ambiental, como o Rio Mais 20, no Rio de Janeiro, o Fórum Mundial da Água, que aconteceu em Brasília, e eventos realizados na região promovidos pelos Comitês PCJ ou por universidades. “Sempre tentando levar as experiências de educação ambiental daqui de Bragança, como também trazer boas experiências que a gente vê que acontece em todo o Brasil e adequá-las para desenvolver aqui na nossa realidade, em Bragança”, comentou Cristina.
Autora do livro “Educação ambiental: um sonho que se sonha junto”, lançado em 2012, ela explicou que a intenção de escrever a obra foi para colocar no papel ideias e atividades que conheceu por meio de cursos nos quais participou para que as pessoas possam passar por um processo de educação ambiental ao lê-la. O livro trata também de consumo consciente, equívocos conceituais da educação ambiental e sobre a água da Região Bragantina.
Cristina também comentou que só a educação pode transformar a realidade e fazer com que a sociedade construa uma cultura de sustentabilidade. “A educação é primordial nesse processo”.
Sobre o Dia Mundial da Água, a ativista ambiental considerou que se trata de uma oportunidade para abordar informações que muitas vezes passam despercebidas. Dentre elas, o fato de que 97% da água do Planeta Terra é salgada e que, dos 3% restantes, apenas 1% da água doce está disponível para o consumo de todos os seres vivos, cerca de sete bilhões de habitantes. “A disponibilidade hídrica de água doce é muito pequena. Quando se fala que 70% do nosso planeta é composto por água, cria-se uma falsa visão nas pessoas de que tem muita água no planeta e aí a gente pode usar e abusar desse bem, mas não é bem por aí. Além disso, esses sete bilhões de habitantes produzem esgoto, tem o impacto ambiental da geração de lixo, então, acaba sendo bastante delicado e, na verdade, esse 1% de água, se a gente for considerar, parte dele já está comprometida com contaminação de poluição”, alertou.
Cristina também apontou que antigamente, a escola ensinava que a água era um bem infinito. Porém, é preciso desconstruir essa ideia, defendeu: “Por mais que exista o ciclo da água, que mantém essa quantidade de água no planeta, o que adianta chover em um manancial que já está todo poluído e contaminado? Na verdade, então, é um alerta mundial que a gente tem que ter”.
Bragança Paulista abastece sua população com a água do Rio Jaguari, que contribui com o Sistema Cantareira antes de chegar ao município. O Sistema Cantareira abastece quase 50% da população da Região Metropolitana de São Paulo e, além de receber a água do Rio Jaguari, também é abastecido pelo Rio Jacareí.
Cristina explicou que o Rio Jaguari nasce em Minas Gerais e, quando entra no estado paulista, deságua na represa e depois volta para o seu curso normal, passando por Bragança, Morungaba e Pedreira.
“A gente tem um prejuízo muito grande em relação a isso, não só Bragança, como todas as cidades que estão dependendo dessa água e do sistema do Rio Jaguari porque a maior parte da água dele fica reservada para abastecer a Grande São Paulo, no Sistema Cantareira, e uma porcentagem bastante pequena de água volta para o seu curso natural. Então, o Sistema Cantareira gera um impacto muito grande na disponibilidade hídrica para a cidade e toda a região da bacia hidrográfica do Sistema PCJ (os rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí). Além disso, quando essas represas estão em baixa, para nós, é um alerta, porque se o grande objetivo da represa é abastecer a Grande São Paulo e está com pouca água lá, automaticamente reduz a quantidade de água que sai para o curso natural e a gente também acaba tendo menos água a nossa disposição”, observou.
A ativista também apontou que embora o verão tenha tido boa quantidade de chuva no final, ainda não houve recuperação satisfatória dos reservatórios. “Não podemos correr o risco de fazer uma análise simplista e dizer que é só a falta de chuva, porque não é, é uma soma de fatores entre a gestão de recursos hídricos, que é uma má gestão do governo estadual e da Sabesp. A gente tem o regime de chuvas, tem muita perda de água no sistema de distribuição, podemos falar também em desperdício de água no percurso até a população. Os processos industriais também demandam muita água, então, é bastante complexo pensar nas causas de ter pouca água no Sistema Cantareira. A gente não pode cair no risco de só responsabilizar os consumidores por desperdício de água na sua casa, também temos que economizar, é claro, mas é importante ter uma visão macro de todos esses problemas, principalmente de gestão dos recursos hídricos”, declarou.
Na avaliação de Cristina, as pessoas costumam se preocupar com o uso consciente da água apenas durante campanhas sobre o tema, as quais geralmente ocorrem em épocas de escassez. Para ela, os processos educativos precisam acontecer com mais força a fim de conscientizar a sociedade sobre o fato de haver pouca água disponível para uso e, por isso, ressaltar a importância de usá-la “com muita consciência e dar valor a esse bem tão precioso”.
Outro aspecto importante abordado por Cristina foi sobre o consumo de água que, na maioria das vezes, a população nem se dá conta que existe, aquele consumo por meio de outros itens. “É importante colocar também que esse uso consciente da água não está só no uso doméstico, mas quando a gente está consumindo de uma maneira geral. Aí a gente traz a ideia da água virtual, que é toda a água que é utilizada na produção dos bens de consumo, por exemplo, para produzir um sapato de couro são necessários 8.000 litros de água, para produzir uma camiseta são necessários cerca de 2.500 litros de água, para produzir um tomate são necessários 30 litros de água. Quando eu tenho uma atitude consumista no meu dia a dia, seja em comida, roupa, outros itens, enfim, eu estou também fazendo com que a demanda de água pela indústria seja grande. Na agricultura também. Então, ser um consumidor consciente de produtos de uma maneira geral também é ser um consumidor consciente de água”, explicou.
Concluindo, Cristina afirmou que é importante que a Região Bragantina tenha para si a identidade de produtora de água, pois é isso que ela é. “Precisamos construir na Região Bragantina uma identidade de região produtora de água porque aqui na nossa região, a gente tem a cabeceira da bacia hidrográfica e onde estão as principais nascentes que vão abastecer boa parte da capital e abastecer também os rios que levam água para a região da Grande Campinas. Então, são os dois maiores PIBs do estado de São Paulo. A água que é produzida aqui na nossa região vai abastecer esses polos econômicos e industriais. Por isso, é importante a gente construir na nossa região e nas pessoas essa identidade, essa valorização da Região Bragantina como região produtora de água, esse deve ser o foco de todo o trabalho de educação ambiental que é desenvolvido”, finalizou.
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