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Crônicas de um Sol Nascente

Bem-vindos a nuestro uchi!

Outro dia, meu pequeno Endi repetiu, todo faceiro, uma palavra que sua mãe proferiu enquanto conversávamos: “Mañana”. Possivelmente, a essa altura o leitor deve estar se indagando: “Como pode? O filho de um brasileiro e uma japonesa falando em espanhol?”. Pois é, mas, apesar de estranha, é esta a nossa realidade: em nosso uchi (palavra japonesa que significa “lar”), minha e esposa e eu sempre conversamos no idioma de Cervantes. E por quê? Bem, a história é longa, mas tentarei simplificar. Meu pai nasceu em uma cidade denominada Benjamin Constant, no Amazonas, que faz fronteira com o Peru e a Colômbia. Meu avô, por sua vez, é oriundo da cidade peruana de Iquitos, e parte de nossa família ainda reside em Letícia, na Colômbia. Ou seja: desde muito cedo, a língua e a cultura “latinas” foram uma forte presença em minha casa; fosse pela visita dos parentes, fosse pelos muitos discos que papai trazia de suas viagens à Colômbia e ao Peru: por exemplo, o grupo “Los Pasteles Verdes”, o cantor Calixto Ochoa, entre outros artistas da América espanhola. 

Particularmente, também sempre gostei de escutar meus tios e primos “hablando”: o que fez com que muito cedo aprendesse o idioma. Bem, mas para encurtar a história: além do Espanhol, minha paixão por idiomas levou-me a aprender também o Inglês, que acabou se tornando a minha porta de entrada para cursar, em 2001, o Mestrado em uma universidade no Japão. E, um ano depois, residindo e estudando em Osaka, a magia dos idiomas viria de novo abençoar minha vida. Isso porque, certa noite, convidado por meu tutor para ir a uma pizzaria, eu viria a conhecer minha futura esposa – uma linda “Osakajin” (natural de Osaka) que havia morado um ano em Granada, onde se especializara no idioma espanhol. 

Bem, o resto da história vocês já podem imaginar: foi “hablando Español” que nos “quedamos enamorados”. De modo que, em 2019, após quatorze anos de casamento, nosso Endi veio nos proporcionar a maior alegria dessa união. 

Confesso, porém, estar um pouco preocupado com o fato de o pequeno começar a arranhar no espanhol tão cedo, para que não acabe confundindo as línguas de Cervantes e Camões. Claro, seu idioma principal é o japonês, mas gostaria, sim, de que o pequeno aprendesse mais palavras em português – para isso, tenho feito de tudo, lendo os livros de nossos autores, colocando música brasileira... Por exemplo, recentemente, ele tem adormecido ao som de Chico Buarque (ainda que demonstre maior preferência pelas canções de Caetano).

Mas talvez minha preocupação não faça sentido. Talvez, na verdade, seja até muito positivo que o pequeno se familiarize desde cedo com vários idiomas. Afinal de contas, a pluralidade cultural é o futuro do planeta, não é mesmo? Isso, claro, se os “cringes” não triunfarem.

***
EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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