José era morador de rua há quase dez anos. A vida degringolara depois da separação da esposa, quando resolvera arrumar uma nova companheira.
Hoje, sem teto, sem dignidade, sem amor, vive pelas ruas de São Paulo, acompanhado de sua cadelinha Mila e dela sua companheira pra vida toda: a bebida.
As noites têm sido quase tão frias quanto a própria selva de pedras, pelo menos ela o ajuda a aquecer-se. Ela nunca lhe decepcionou, nunca lançou sobre ele um olhar de desprezo sequer, como fazem diariamente as centenas de pessoas que passam por ele como se ele fosse apenas parte integrante da paisagem. Olhares que já não diferem gente de concreto.
A vida na rua não é fácil, e no frio, torna-se mais cruel ainda.
Conheci José por acaso, se é que isso de acaso existe mesmo. Estava tomando café na padaria da esquina, como faço todo dia, quando ele chegou. Parecia bastante alterado, gritava, com a urgência de quem precisa comunicar algo muito importante e foi o que bastou para começarem os julgamentos: “Ih, esse aí deve estar drogado!”, “Nada, ele gosta é de um corotinho mesmo!”, e riam.
José, por sua vez, parecia nem ouvir tais comentários, parecia, e eu só percebi isso por dar e prestar atenção a ele, parecia comovido, envolto numa espécie de encantamento, como quem viveu ou presenciou algo extraordinário.
Quando ele notou que lhe dava atenção, que queria enfim saber o que de tão maravilhoso tinha lhe acontecido, passou a falar mais baixo, olhando diretamente para mim. Éramos agora confidentes.
“O senhor, sabe...” dizia ele entusiasmado demais para as pausas corretas. “O senhor, sabe, hoje, hoje mais cedo, eu vi Jesus Cristo!”. Seus olhos quase que mudaram de cor enquanto terminava a frase, foram tomados por um verde tão intenso, tão bonito, tão vivo, que me comovi.
O camarada na banqueta ao lado, quase cospe todo o café, ao ouvir a fala de José. Eu não, eu queria ouvir mais, por isso, continuei a conversa, dando-lhe a liberdade, o respeito e o incentivo necessários para que narrasse essa sua experiência tão singular.
“É mesmo? O senhor viu Jesus?”
“Vi sim. O senhor acredita em mim, né? Porque olha, eu bebo mesmo de vez em quando, todo mundo sabe, anda muito frio, a bebida também serve para me esquentar. Eu sei que todo mundo acha que eu sou só mais um vagabundo bêbado da rua. Mas hoje mais cedo, eu nem tinha bebido nada, eu juro pro senhor”.
“Tudo bem, amigo, não precisa se justificar. Quero que me conte mais sobre esse encontro. Sabe, se tem uma pessoa que admiro é Jesus. Como ele é? É parecido com aqueles quadros que a gente vê nas igrejas?”
“Não. Ele não é daquele jeito, não. O tempo passou, né? Ele agora é idoso. Mas vou falar pro senhor, que disposição! Ouvi dizer que passa o dia inteiro, até a noite, distribuindo comida, remédio, máscara...”
“Jesus está distribuindo comida? Aqui em São Paulo?”
“Está, não tô te falando que o vi hoje mais cedo. Se o senhor quiser, depois te levo lá, para o senhor ver com seus próprios olhos...”
Enquanto ele falava, sentia-me culpado por ter levado aquela conversa adiante e alimentado a fé inocente daquele pobre homem. Afinal, como é que Jesus Cristo poderia estar, em pleno 2020, no centro de São Paulo?
Para aplacar um pouco minha culpa, resolvi aceitar seu convite e ver com meus próprios olhos.
Sim, ele estava lá, Cristo, o amor feito homem, o desejo profundo do coração do Pai, a misericórdia encarnada!
Padre Júlio Lancelotti era quem o personificava. Ainda atônito, extremamente comovido, olhei pro José e tudo o que pude dizer-lhe foi: “Você tinha razão, meu amigo. Jesus Cristo está aqui”.
Engana-se quem pensa que Cristo está nos templos suntuosos ou que se agrada de charlatões que saqueiam e oprimem seu povo, usando seu nome. Cristo está é com os marginalizados, os doentes, os mal quistos, os esquecidos, os pestilentos, com aqueles a quem convencionou-se chamar “escória”.
O amor ainda caminha entre nós. Padre Júlio Lancelotti é prova viva disso. Cristo se faz presente naquele que ousa ainda hoje amar seus semelhantes. Padre Júlio o faz com maestria.
E porque no amor não existe medo é que padre Júlio continua sua missão, apesar das ameaças que vem sofrendo. Dá para imaginar isso?
Vivemos dias tão absurdamente maus, que acredito eu se o Cristo voltasse à Terra, seria morto a balas pelos ditos “cidadãos de bem”.
Acreditem, meus amigos, eu e José vimos Cristo em São Paulo.
Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me;
Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver.
Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? Ou com sede, e te demos de beber?
E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? Ou nu, e te vestimos?
E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?
E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.
Mateus 25:35-40
(Texto em homenagem ao padre Júlio Lancelotti)
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