No mês de maio, o hino oficial de Bragança Paulista foi escolhido. Dentre 11 trabalhos inscritos em concurso promovido pela Prefeitura Municipal, a composição “Alma Bragantina”, de Danilo Stollagli, foi a vencedora, após audição fechada com jurados da Orquestra Sinfônica do estado de São Paulo (Osesp) e da Banda Sinfônica do estado de São Paulo (BSESP).
O Jornal Em Dia conversou com o compositor, que é tenor e vocal coach e estudou no prestigiado Conservatório de Música Giuseppe Verdi di Milano, em Milão, na Itália. À reportagem, ele falou sobre os motivos que o levaram a participar do concurso: “Primeiramente porque achei uma iniciativa muito bonita por parte do poder público, um cuidado raro com a tradição, história, símbolos e valores da cidade. E também porque gostei da ideia, do desafio de criar uma música que pudesse representar esses valores”.
Segundo Danilo, diversos fatores o conduziram à inspiração para compor a letra. “Fiz uma pesquisa sobre a história da cidade, fatos e curiosidades mais marcantes. O edital do concurso estabelecia uma série de regras sobre o que devia ou não constar na letra. Não era permitido, por exemplo, a citação de nomes próprios, religião, política etc. Isso já limitou bastante o repertório de palavras e fatos que poderiam ser descritos. Desta forma, optei por um texto leve, com rimas alternadas, e que pudesse representar o sentimento de todos”, explica.
Outra preocupação para valorizar o hino foi a música, parte importante do processo criativo. “Optei por começar pelo texto e deixar que a própria entonação das palavras fosse me dando a indicação das possibilidades melódicas. Escrevi primeiro os versos, os quais alterei diversas vezes, fazendo ajustes tanto nas palavras como na melodia. O refrão veio mais tarde e nasceu pronto na minha cabeça, simplesmente brotou. Eu queria algo simples, mas forte, e em uma noite ele simplesmente apareceu, música e letra juntos, eu parei o que estava fazendo, corri para achar um lápis e um papel e escrevi”, relembra o tenor.
A partir de então, veio o processo de arranjos. “Pronta a melodia, passamos para a harmonia e, nesse momento, tive a ajuda de uma profissional incrível que, por coincidência, é minha esposa, Zoe Clare Ramsden. A Zoe tem grande experiência em arranjos de música para vozes e corais e tem um conhecimento e bom gosto excepcional. Ela sabe como fazer harmonias sofisticadas que se encaixam nas possibilidades de cada tipo de voz. Um dos desafios era justamente criar algo que fosse melódica e harmonicamente possível de ser cantado por qualquer pessoa, mas sem ter que abrir mão de uma harmonia e melodia rica e interessante. Neste aspecto, a ajuda dela foi fundamental”, pontua. “Um hino pede tradicionalmente a sonoridade de uma orquestra ou de uma banda marcial para executá-lo, eu obviamente não tinha esse recurso à minha disposição. Então, recorri a alguns amigos que me ajudaram a dar aos jurados uma ideia de como poderia ser o resultado final da composição. Meu amigo e grande musicista Marcos Leit, que é um artista dos sintetizadores, me ajudou gravando os instrumentos de orquestra, dei a ele liberdade para criar linhas de cordas que pudessem enriquecer e valorizar a melodia e assim ele criou uma base linda de orquestra. Meu outro amigo e grande percussionista Vinícius Imenez gravou a parte de percussão”, acrescenta.
O músico Marcos Leit explica que fez o arranjo de orquestra em 11 dias, com violoncelos, violinos, contrabaixo, cravo, trompa e trombone. “Gravei tudo em sintetizadores com os timbres mais puros possíveis que eu tenho. Parti da harmonização da Zoe Ramsden e comecei a criar os acordes para as cordas, com isso terminado, eu precisava de uma melodia bonita pra servir de contraponto para o refrão do hino, então fui buscar inspiração pra uma sensação épica e emotiva, e me veio uma melodia linda, praticamente inteira de uma só vez, e por último, construí contrapontos com o cravo e os metais para as outras partes do hino”, relata.
Assim, letra e músicas feitas, Danilo gravou a parte vocal e então “nasceu” a versão que foi submetida à apreciação dos jurados. O compositor explica que sua principal intenção era participar, pois, no início, não tinha a expectativa de vencer. “Eu sabia que existiriam outras composições fortes, pois Bragança é uma cidade muito musical”, justifica.
Danilo, apesar de paulista, vive em Bragança há alguns anos, e, por isso, já se considera bragantino. Para ele, a repercussão foi surpreendente e muito positiva. “Foi incrível, eu não imaginava como isso seria tão importante para as pessoas, como todos se sentiram felizes de ter uma música que os representa. Senti uma satisfação e orgulho muito grande, primeiro porque o hino foi escolhido por uma banca de músicos altamente qualificados das melhores orquestras do Brasil, e também porque a aceitação popular foi enorme”, declara.
O vocal coach conta que foi homenageado pela Prefeitura com uma placa emoldurada de agradecimento da cidade pela composição da obra.

A reportagem questionou Danilo sobre o fato de o hino, apesar de ficar eternizado na história da cidade, não atingir grande sucesso de público como músicas de Carnaval, por exemplo. Ele respondeu que uma de suas maiores inspirações para compor foi justamente o grande compositor de hinos e marchinhas de Carnaval Lamartine Babo. “Um gênio popular que compôs nada mais, nada menos, do que todos os hinos dos grandes clubes do futebol carioca. Isso sem falar das marchinhas de Carnaval que foram escritas na década de 40 e são cantadas até hoje. Quando Lamartine compôs os hinos (marchinhas) do Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo etc., todos estes clubes já possuíam hinos oficiais. Porém, a aceitação popular das composições foi tão grande que aos poucos ninguém lembrava mais dos hinos originais. Por isso, acredito que uma boa música, assim como um bom livro, só pode ser avaliada no decorrer do tempo. Esse é, na verdade, o grande teste. É impossível dizer se a música ficará na memória e no coração das pessoas, isso só o tempo dirá”, finaliza.
Confira a letra do hino oficial de Bragança Paulista:
“Alma Bragantina”
Danilo Stollagli
Da nobre dinastia tens o nome
Que mora dentro do meu coração,
Paulista com orgulho é sobrenome,
Que ostentas com sublime vocação.
Juntemo-nos sob a nossa bandeira
Que é símbolo de nossa união,
Ouvindo a comunidade inteira
Cantar com amor esta canção.
A minha alma é bragantina
Sou feliz vivendo aqui,
E não importa se estou longe
Pois sempre volto para ti.
Com muito orgulho hei de servir-te
Trabalhando com vigor,
O povo unido canta e proclama,
Salve Bragança, meu amor!
A força que é própria do teu povo
Exalta o teu nome e a tua glória,
Bragança a cidade poesia,
De nossas mãos virá a tua vitória.
Entre sete colinas um poema
Que enaltece a tua memória,
Em teu brasão refulge o nosso lema,
És “A Maior”, confirma a tua história.
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