Como se diz no Brasil, o preço do arroz está “pela hora da morte” no Japão. E, dependendo das condições financeiras da família, isso pode ser mais que uma simples hipérbole.
Porque, sim, ao contrário do que se pensa, há também muitas famílias pobres na Terra do Sol Nascente: e a coisa se agrava nas chamadas “famílias de mães solteiras” (uma denominação que, por si só, já é demasiadamente humilhante, a meu ver – são, sobretudo, famílias. Ponto.).
Outro dia, assisti a um documentário sobre uma jovem que, para alimentar e educar os dois filhos, tinha que trabalhar em diversos lugares como empregada temporária, e que, ainda assim, o dinheiro não dava para viver com dignidade. Fico imaginando, pois, o desespero dessa jovem mãe ao ver que o preço do arroz dobrou nos últimos meses. Felizmente, no país, o ensino fundamental (nove anos, pois) ainda é gratuito. Mas isso, claro, não exclui totalmente outros gastos do dia a dia das crianças.
De modo que, sim, muitas famílias têm passado por um aperto, principalmente se levarmos em conta que o arroz (ou “gohan”) é o alimento fundamental – diria até que sagrado – do povo japonês.
E os políticos aqui, o que fazem? Como todos os políticos do mundo, só pioram a situação.
Quando a crise começou, o ministro da Agricultura do Japão era um cidadão chamado Taku Etō. Pois bem, ao ser entrevistado, a figura declarou que “não costumava comprar arroz porque o recebia de presente”. Depois dessa, caiu? Claro. E não poderia ser de outra forma (acho até que deveria cair todo o parlamento japonês com ele). Mas isso não significou, nem de longe, uma solução para a crise.
Mesmo porque o político que foi chamado para o lugar do Sr. Etō também não inspira lá muita confiança nos japoneses. Trata-se de Shinjiro Koizumi (isso mesmo, filho do lendário primeiro-ministro, o “leão” Junichiro Koizumi). E não inspira porque, segundo a opinião pública, “Koizumi Júnior” – que, diga-se de passagem, já fracassou como ministro do Meio Ambiente – está loge de ser conhecido por sua inteligência (e aqui estou usando um eufemismo para não mencionar as palavras com que costumam chamá-lo por aqui...).
De minha parte, porém, prefiro ter esperanças no trabalho do “Júnior”. Quem sabe até ele nos surpreenda tomando as medidas certas e o preço do arroz caia tal qual o Sr. Etō.
Sim, vamos apoiar o “Júnior”. Até mesmo para que ele, caso fique emburrado (ops!), não comece a chorar e a rolar no chão, como outros “juniores” da vida.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quinhentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2024, seu livro obteve o Primeiro Lugar no Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) da UBE-RJ. Também em 2024, foi o roteirista vencedor do “WriteMovies Script Pitch Contest”, nos Estados Unidos. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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