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Religião

Campanha da Fraternidade 2026: Fraternidade e Moradia

Por Dom Sérgio Aparecido Colombo, bispo diocesano de Bragança Paulista

A Campanha da Fraternidade, assumida por todas as Dioceses do Brasil desde 1964, consolidou-se em sua trajetória, não obstante os desafios, como expressão de comunhão, conversão e partilha, portanto como um tempo privilegiado de evangelização, renovação do espírito comunitário e cristão do povo de Deus, na busca do bem comum, exigência central do Evangelho.

Na segunda fase de sua realização, quando a Igreja se voltava para as situações existenciais do povo brasileiro, em 1993, o tema foi Fraternidade e Moradia, com o lema: “Onde moras?” Naquela circunstância, o seu objetivo geral já afirmava o direito à terra e à moradia como condição básica para o desenvolvimento da vida plena, tanto do indivíduo como da família, com o exercício da cidadania, para viver e morar saudável e dignamente, com infraestrutura, no meio social e no meio ambiente, com participação e possibilidade de colaborar nas decisões referente a vida da cidade.

Em sua mensagem, por ocasião da abertura daquela campanha, assim se expressava São João Paulo II: “[...] a nossa fé intima-nos a nunca desviar o compromisso pessoal de sair em defesa da justiça, particularmente no âmbito dos direitos fundamentais da pessoa. Cumpre-nos defender o direito que todos têm, de viver, de possuir o necessário para desenvolver uma existência digna, de trabalhar e descansar, de formar um lar, de passar serenamente o tempo da doença ou da velhice, mas, sobretudo, de conhecer e de amar a Deus [...]”. Afinal, estamos neste mundo como peregrinos, buscando edificar nossa vida, nossa casa, rumo à casa definitiva, construída não por mãos humanas, mas por Deus.                         

Para sermos honestos, precisamos reconhecer que, desde sua segunda fase, a partir de 1973 até nossos dias, as Campanhas da Fraternidade tratam de situações que dizem respeito à vida de nosso povo – situações existenciais, sempre ancoradas na máxima evangélica: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Reconhecendo e solidarizando-se com milhões de irmãos e irmãs em todo o Brasil em situação de vulnerabilidade, mormente quando se trata de moradia, a Campanha da Fraternidade deste ano, “inspirada pelo mistério da Encarnação, que revela a proximidade amorosa de Deus com a humanidade, volta seu olhar mais uma vez para a realidade dramática da moradia”. O que nos é proposto mais uma vez é que nossa conversão quaresmal pessoal, comunitária e social seja uma conversão integral, e que de algum modo nos faça chegar aos que experimentam esta realidade: não ter onde morar. É preciso cuidar para não nos convertermos a nós mesmos, a nossos interesses pessoais ou corporativos. A verdadeira conversão sempre se traduz em gestos concretos, fraternos, como aconteceu com Jesus que foi acolhido com alegria na casa do publicano fariseu.

O que refletimos nesta Campanha da Fraternidade é que a moradia não é uma mercadoria de consumo, individual ou familiar, mas a porta de entrada para os demais direitos.  Ninguém pode viver sem moradia adequada, por mais simples que seja. O texto base desta campanha é bastante claro. A questão habitacional, como tantas outras questões, não é pelo Brasil ser considerado um país pobre – o que não é – mas por ser um país extremamente injusto, em seu sistema tributário e no da dívida pública: “[...] a transferência de renda da maioria da sociedade, a parte que ganha menos, para a pequena camada mais rica, que vai concentrando cada vez mais renda e riqueza” (Texto-Base, nºs 32-34). Cada dia o país se defronta com o crescimento da dívida pública – é o que ouvimos – e, com isso, o aumento da desigualdade social e territorial que pesa sempre sobre os mais pobres. Muitos, não por opção, mas pela situação, estão morando nas ruas, em favelas, sem as mínimas condições humanas. Impõe-se, urgente, um sério programa habitacional – questão de política pública. O que se faz e se tem é pouco, e não atende às demandas habitacionais, sobretudo nas grandes cidades. A questão não é só dos que não têm casa, mas de toda a sociedade.

Falar de moradia é falar de hospitalidade, proteção, proximidade, encontro, estreitamento dos laços familiares, comunhão e partilha. Na cultura judaica, o povo de Deus, que já cultivava esses valores, era identificado como Casa de Israel, Casa de Jacó, Casa de Judá... No Novo Testamento, a casa abriga o sentido comunitário e torna-se ainda o lugar de encontro e celebração – a Igreja Doméstica.

O que podemos fazer? Conhecer o problema da moradia – problema de todos nós – apoiar organizações populares que lutam por moradia digna para todos; fortalecer a solidariedade nas áreas periféricas, mormente nas situações emergenciais; incentivar a presença da Igreja para a escuta, apoio, solidariedade e espiritualidade; formação do clero, sensibilizando-o para os desafios da moradia nas regiões periféricas das paróquias; popularizar os espaços físicos, comunitários e celebrativos; educar para o direito à cidade; presença da Igreja nos momentos de calamidade socioambientais; fortalecer/criar conselhos municipais, estaduais e federal de habitação; fomentar o cooperativismo habitacional; garantir assistência espiritual e pastoral aos habitantes de comunidades e assentamentos populares [...] (cf. TB¸  nº s 172 – 175).

Que a CF seja para todos o que é em si mesma: instrumento de comunhão eclesial, formação das consciências, um novo olhar cristão e compromisso com a fraternidade. Cuidado com aqueles que dizem “eu faço a Quaresma, não faço a CF”. Se faltar um dos dois, você não terá feito nada.

 “Em Maria, o Deus transcendente se fez hóspede. Com ela, silenciemos, ouçamos, acolhamos e caminhemos – apressadamente ao encontro dos irmãos” (cf. TB, nº 181). Sua história de amor seja também a nossa. Amém.

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