O sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), um dos intelectuais mais influentes do século XX, em seus estudos e análises, cunhou um dos conceitos que muito nos ajuda a entender de modo específico a importância da cultura na formação do sujeito e no acesso ao conhecimento ampliado, podendo, inclusive, ser um recurso estratégico seja na reprodução de desigualdades, seja ainda na manutenção das hierarquias sociais.
Em outros termos, o acesso aos bens culturais socialmente produzidos permite gerar de modo simbólico um acúmulo – de informação, conhecimento, consciência e percepção – do mundo que nos cerca, capaz tanto de ampliar a visão de mundo do indivíduo, seu modo de pensar, agir, seu campo argumentativo, sua compreensão sobre a própria sociedade, por exemplo, quanto ser gerador de mais e mais capital cultural.
O acesso à escola, nesse sentido, poderia fazer toda diferença na formação do sujeito, na medida em que fosse, de fato, um espaço crítico, aberto, plural, transformador; uma célula fomentadora de arte, cultura, esporte, para além de unidades curriculares, propulsora do pensamento filosófico, sociológico, a título de exemplo, capaz de colaborar com a formação de um indivíduo consciente de si e do mundo ao seu redor.
Bourdieu também reconheceu que a escola em si e sozinha não é capaz de construir e ampliar o capital cultural do indivíduo. Ao contrário, ela pode, inclusive, reproduzir as desigualdades já existentes, à medida em que o acesso em si a bens culturais não é igual para todas as pessoas. O indivíduo, ao trazer consigo o que ele “herda”, também lhe permite ter mais ou menos acessos numa sociedade estratificada e de classes.
Alguém, por exemplo, que “consome” desde criança diversas expressões do universo artístico poderia ter certa vantagem no acúmulo de conhecimento adquirido. Ou seja, o próprio termo “capital” traz em si a ideia de algo valioso, alguém que acumula muito, que tem bastante conhecimento cultural, o que em si – considerando a história brasileira estruturalmente desigual em vários campos e esferas – mantém privilégios e a própria estratificação social.
Em suas análises, o autor observou famílias passando seu capital cultural, também adquirido e herdado, para seus filhos, apresentando-lhes ao universo da dança e da música, levando-os a teatros, galerias e locais históricos, e conversando sobre literatura e arte como parte do diálogo, por exemplo. Algo que de fato concentra estreita relação com a classe social a qual se pertence. Via de regra, pessoas mais pobres, assim como possuem menos acúmulo econômico, tenderiam a ter menos acúmulo cultural numa sociedade de consumo, como a sociedade capitalista. Isso de saída também alimenta e reproduz a própria desigualdade existente, especialmente porque parte da cultura produzida é comercializada e não são todos que podem consumi-la!
É por isso que a popularização da cultura é tão importante e tão necessária em nosso país, seja algo que se estimula na escola – por meio de iniciação musical, atividades teatrais, lúdicas, acesso a museus, exposições, feiras culturais, por exemplo – seja algo garantido e assegurado pelo poder público, no campo das políticas públicas, no fomento à cena cultural acessível a todas as pessoas, não somente a quem pode consumi-la, enquanto uma mercadoria.
Fomento esse que garantisse que cenas culturais – como shows, apresentações culturais, artísticas, musicais, peças teatrais, acesso à literatura, clubes de leitura, entre tantas outras expressões e manifestações culturais – fossem permanentes, contínuas e se estendessem a todas as pessoas; que, enquanto um bem público, oferecesse algo livre, gratuito e aberto à comunidade, que, articulado com a formação educacional, poderia permitir que todos acessassem e acumulassem capital cultural.
Que a cultura não fosse mera mercadoria, restrita a quem pode pagar por ela, que não fosse algo tão depreciado a ponto de não reconhecer sua importância e papel, seja como meio para ver o mundo com outros olhos e interpretá-lo a seu modo, seja como um elemento capaz de diminuir o abismo social presente em nosso país.

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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