Meu amado Julinho,
Com muito carinho li sua última cartinha, e mais uma vez, sua singeleza e mansidão me comoveram.
Como é que pode um menino tão esperto como você não pedir nada para si? Eu não me canso de me surpreender com a maturidade de seu espírito.
Ah, Julinho... fique tranquilo, que vou cuidar de todas as crianças, não vou deixá-las sem comida ou afeto, não vou permitir que tenham seus corpinhos explorados pela lascívia maldita dos adultos, nem tampouco que sua alma seja por eles desonrada.
Vou sim, continuar com os planos que tenho desde há muito para você, meu pequeno. Ah... você nem imagina quantos frutos essa nossa amizade genuína ainda renderá.
Eu sei, Julinho, sei que tem crianças na escola que implicam com aquele garoto só pelo fato de ele gostar de rosa. Mas rosa não é uma cor linda? Quando a criei pensei em doçura, e todos nós não precisamos dela, na mesma medida?
Mais lindo ainda é o seu coração, e eu sei o quanto ele se aflige diante dos pequenos desafios que a maldade dos homens já lhe impõe. Eu o conheço a tal ponto, meu querido, que choro com você seu choro de revolta por aquilo que os homens, uma vez criados à minha imagem e semelhança se tornaram.
Eu sei, Julinho, eles estão tramando contra você, tramarão muitas vezes mais ainda, distorcendo suas palavras e seus atos, condenando-o sem que seja encontrada em você qualquer culpa. Eis o preço de sermos eu e você assim tão íntimos.
Eles o fizeram a mim também, lembra-se? Você aprendeu na missa.
Estou com você, como sempre estive, Julinho... não permitirei que sua alma se consterne ou seu espírito seja abalado, cuidarei para que continue a falar por mim, ainda que desejem calá-lo. Se você não falar, as pedras falarão.
Por saber da confiança cega que tem por mim, provinda do entendimento de meu amor insano, confio que nada, nada será capaz de nos afastar um do outro e da missão que construímos juntos.
Esses homens maus não passam de uns fariseus pós-modernos e meu juízo sobre eles será implacável.
Agora, Julinho, descansa, dorme seu sono de menino, que eu continuo velando por você. Amanhã, bem cedinho, vai até a sala e vê seus presentes, todos preparados antes mesmo de você nascer, são eles: bondade, compaixão, respeito, empatia, amor. Você será meu guardião deles e me auxiliará na tarefa de ensiná-los ao mundo. Sim, você, meu pequeno, a quem o amor pelo Pai e por seus semelhantes constrange tanto, você será meu porta-voz entre os homens, sejam eles de boa e de má vontade.
Dorme em paz, meu querido...
Nessa noite em que um mundo desumano forçosamente "celebra" em ritmo de alucinante consumismo minha chegada, eu celebro a beleza de sua existência.
Feliz Natal!
Com amor,
Papai do Céu.
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