“Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
(...)
Existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?”
(Trecho do Poema Navio Negreiro – Tragédia no mar, Castro Alves, 1868)
Chicotadas. O barulho do açoite furioso rasga o ar denso. Chicotadas. As costas negras como chocolate, lanhadas. A carne exposta em lâminas deixa escorrer o sangue negro.
Castigo! O crime? Ter nascido pobre e negro num país de maioria negra, mas que estranhamente, odeia seus filhos, negando assim sua ancestralidade e identidade mais primária.
A cena descrita acima poderia muito bem figurar de algum texto abolicionista, ao estilo Castro Alves, já que nos transporta a uma época tão distante, e tão assustadora e contraditoriamente próxima. Mas o fato é que aconteceu em pleno ano de 2019.
A senzala, um supermercado, de onde o negro roubara um chocolate. O capitão-do-mato, um funcionário do próprio estabelecimento.
Chicotadas no ano de 2019! Roubar sempre foi crime, isso é fato, mas a legislação evoluiu a ponto de não tolerar mais castigos físicos, tais como chicotadas, como punição. Ela prevê também, muito claramente, quem deve aplicar a sanção. E não, essa não é a função de um funcionário de supermercado. Não, a lei não pode continuar mofando nas prateleiras desse mercado de almas chamado Brasil, enquanto seus filhos legítimos são injustiçados de todas e das piores formas.
Ser negro e pobre sempre foi crime nesse país. Mas e o chocolate? Não se enganem... O chocolate é o menor dos delitos. O chocolate não passa de mero detalhe e pretexto, nesse país que ainda sente gana de surrar seus negros, como outrora fazia. Como ainda faz, diariamente, nos becos, nas encruzilhadas, nas revistas policiais, na confusão absurdamente inaceitável entre um guarda-chuva e uma arma de fogo.
E convenhamos que os supermercados roubam-nos quantias infinitamente maiores diariamente, com seus preços exorbitantes, que sobem quase que à mesma proporção em que aumentam nossa tristeza e indignação por viver nesse eterno País-Casa Grande-Senzala.
Chicotearam um jovem negro por ter roubado um chocolate, e isso em pleno século XXI. Bom, se isso não lhe causa um arrepio de terror, eu receio mesmo que eu é que esteja equivocada. Espero mesmo que esteja.
E a propósito, Feliz Dia da (In)dependência!
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