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Choro

Ainda sinto um arrepio percorrer todo meu corpo quando me lembro daquele choro. Um choro sentido, como costuma dizer minha mãe, quando quer se referir a um choro sincero. Tento me distrair com a TV e todos os compromissos que o dia me impõe, mas vez por outra me vem à mente aquela imagem, e pior que a imagem só mesmo o som daquele choro.

         Ele só queria sua mãe, só isso. Como eu também já quis só minha mãe, quando me perdi dela numa grande rede de supermercados ou quando a vida pareceu-me cruel demais para suportar sozinha.

         O choro de se querer a mãe e não encontrá-la é o pior de todos os choros. E ele era tão pequeno... que meu coração chega a doer só de pensar na sua dor.

         Mas penso também, ainda que com menos frequência, em tudo o que os dois viveram juntos, nas aventuras todas, nos desafios, nas vivências todas que só mãe e filho podem ter juntos... Mas logo me volta à lembrança aquele choro, um choro capaz de parar o mundo, capaz de comover até mesmo a mais insensível das criaturas. Um choro capaz de mudar o curso das marés. E eu me curvo diante do poder do amor e daquele choro.

         Por algum tempo me perguntei se estaria perdido, tal como eu no Carrefour, ou se ela o havia abandonado, como ocorre algumas vezes com algumas mulheres a quem a vida feriu tanto a ponto de terem de abdicar dessa tarefa sagrada. Onde estaria seu pai? Por acaso, não estava ouvindo seu choro? Impossível! Qualquer um ouviria. Ah, mas ele queria sua mãe. Como qualquer criança, como qualquer adulto.

         Fosse outra situação, eu o pegaria pela mão e o ajudaria na tarefa mais do que urgente de procurar por ela. E o acalmaria aos poucos e percorreria longas distâncias com ele já em meu colo, até que a encontrássemos.

         Nesse meio tempo, claro, lhe contaria algumas histórias, dessas que a gente inventa na hora, mas cujo objetivo é o mais terno de todos. E ele até riria de algumas delas, mas sem esquecer, nem por um segundo do que estávamos fazendo, afinal, sua mãe também lhe contava essas histórias assim inusitadas, inventadas com a criatividade que só a necessidade e o amor são capazes de criar.

Onde está sua mãe, afinal, pequeno? Custo a me convencer que ela o tenha deixado, não, ela jamais faria isso! Deve existir alguma justificativa para essa ausência.

Mas mãe, mãe é sinônimo de presença, mesmo quando todos se vão. Não chore tanto assim, meu pequeno, que choro com você, e essa dor assim tão lancinante corta minha alma feito um arpão.

Não, não olhe agora, meu amor. Eles vão dar um jeito de retirá-la de lá. Eu sei, você já entendeu, você já sentira muito antes de saber. Como confortá-lo, meu pequeno?

Seu choro é tão humano, meu pequeno. Sua dor é minha também. Eu sei, você só se aproximaria tanto assim para pedir ajuda. Eu não posso ajudá-lo, querido, e isso é o que mais me machuca.

Na areia da praia, o corpo exuberante de uma criatura magnífica jaz. Cercado por gente curiosa, muitos celulares e quase que nenhuma comoção. A baleia encalhada era uma mãe, como o são também muitas das banhistas com celular em riste. Seu filho chora ainda, o choro mais doloroso de todos, quase um grito melancólico e desesperado a percorrer céus e mares: a canção de pesar do mar, decidi chamá-lo assim.

O canto doloroso daquele “menino” jamais sairá da minha mente, mesmo que venham a retirar o corpo de sua mãe dali, mesmo que a maré mude ou que o tempo feche, chorosa que a natureza está por sua partida. Mesmo que se passem duzentos anos e sua espécie já tenha sido extinta por nossa ganância, eu nunca, nunca vou me esquecer do choro sentido daquele lindo filhote de baleia jubarte, separado pela morte, de sua mãe.

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