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Olhar Social

Como é possível?

Disse certa vez Dom Helder Câmara, bispo católico e arcebispo emérito de Olinda e Recife (1909-1999): “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista”.

A provocação do religioso vai muito ao encontro da rememoração feita anualmente no mês de novembro por quem comunga do Catolicismo Cristão sobre o “Dia Mundial dos Pobres”, instituído pelo Papa Francisco desde 2017 para sensibilizar a Igreja e a sociedade sobre a importância da solidariedade e da luta contra a pobreza no mundo.

E a centralidade é bem essa mesma: a luta contra a pobreza!

Para além do escopo político ou religioso, a luta contra a pobreza deveria ser um compromisso de todos nós. Toda uma sociedade que, inconformada e relutante a sua presença, juntaria todas as suas forças e energias em enfrentá-la e extirpá-la em todo canto.

Embora o cenário de pobreza em nosso país venha apontando melhorias no atual governo, especialmente em razão dos Programas de Transferência de Renda (como o Bolsa Família) e recuperação do mercado de trabalho, essa é uma realidade ainda muito presente e cruel, que assola centenas de milhares de pessoas. Prova disso é ver os dados alarmantes que temos: só na cidade de São Paulo – a maior metrópole do país e umas das maiores do mundo não só em tamanho geográfico ou em contingente populacional, mas também em riqueza produzida – mais de 470 mil famílias vivem em situação de extrema pobreza, ou seja, uma situação ainda mais agonizante e de penúria, sobrevivendo com menos de R$ 4,00 por dia, segundo dados da Prefeitura e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Tomando por base os dados do CadÚnico (ferramenta nacional para cadastramento em programas do governo federal), considera-se situação de extrema pobreza quando a renda mensal é de até R$ 109,00 por pessoa, o que, numa família composta por quatro pessoas, por exemplo, daria uma renda mensal de R$ 436,00 para passar todo o mês, ou seja, menos de R$ 15,00 por dia para todas as despesas e necessidades do lar.

Dados deste ano do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostram que cerca de 20,6 milhões de famílias vivem no país em situação de extrema pobreza, conforme os critérios de elegibilidade do Programa Bolsa Família, mantendo nas regiões Norte e Nordeste os grandes bolsões de pobreza e miséria.

Somam-se ainda a essa cruel realidade a presença gritante da fome; a ausência de rede de esgoto, saneamento básico, de educação e escolarização, especialmente em cada fase da vida; moradias precárias, insalubres e improvisadas; a ausência de documentos de cidadania e acesso aos bens e serviços públicos restrito ou completamente inexistente...

Lembrar dos pobres é justo e legítimo. Ajudá-los, como se pode, também!

A Igreja, nesse caso, ao voltar seus olhos para eles nos lembra e nos ensina princípios que fundamentam o próprio sentido e papel de sua doutrina, a partir da solidariedade, compaixão e partilha, algo notável, especialmente num mundo, como o atual, centrado no individualismo, egoísmo e acúmulo. 

No entanto, os pobres e toda a pobreza vivida, esse caldeirão de ausências e precariedades, não podem se limitar a ações caridosas e solidárias da Igreja, ainda que essas sejam muito bem-vindas e amenizem, mesmo que pontualmente, as agruras vivenciadas...

Explicitar essa realidade deveria também cumprir o papel de uma espécie de revolta e indignação coletiva, que gerasse mudanças concretas, como, dentre outras, a construção de um sistema de tributação justo, capaz de reparar a abissal distribuição de renda no país; o compromisso de parlamentares com a implementação de políticas públicas e orçamento público e toda uma sociedade engajada nessa luta. Afinal, vale o questionamento já feito pelo escritor português José Saramago (1922-2010): “Pergunto-me como é possível ver a injustiça, a miséria e a dor sem sentir a obrigação moral de mudar o que se vê”. Como é possível?    

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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