Conheça mais dados sobre a história de Bragança Paulista por meio de cordéis

Nesta edição, os leitores poderão conhecer um pouco mais sobre a história de Bragança Paulista ao longo desses 252 anos.

Por meio de cordéis elaborados pela primeira turma de cordelistas da cidade, ligados a Ases (Associação de Escritores de Bragança Paulista) e a UBT (União Brasileira de Trovadores) – seção de Bragança Paulista, estão contadas as histórias do padre Aldo Bollini, cuja morte ocorreu há 32 anos (4/12/1983), da Paróquia de Santa Terezinha e São José, da Estrada de Ferro Bragantina e da Montanha Leite Sol.

Esse último poema foi escrito pela jovem Beatriz Lancellotti, de 15 anos, integrante da Ases Jovem.

Vale informar que começa na próxima quinta-feira, 10, a exposição “Histórias da Cidade Poesia – Gente – Fatos – Memórias”, que poderá ser vista na sede da Ases, até o dia 15, das 14h às 17h30. Além dos cordéis, o público poderá ver algumas fotos antigas da cidade.

Confira os poemas:

 

MONTANHA DO LEITESOL

Beatriz Lancellotti

 

Olhando aquela montanha,

com suas curvas como o mar     

que me fazem expressar

a paz que sinto cantando,

tudo o que me passa amando

e  que me faz encantar.

 

A vista de um lindo céu

no topo dessa montanha

livre de todas as manhas

neste paraíso imenso,

sou livre com o que penso

longe de todo escarcéu.

 

A beleza de suas flores

que formosas aparecem

na primavera florescem,

para mostrar todo encanto

que existe nesse recanto

celebrando os seus primores.

 

Montanha do Leitesol

suas encostas rochosas,

suas curvas luminosas,

refletindo tanto brilho,

permeando sobre o trilho

mostram os raios do sol.

 

Com suas pedras divididas

ambas fazem-se irmãs,

ao silêncio das manhãs

sobre suas cores que dançam

e seus perfumes que lançam

em meio a toda sua vida.

 

Inicio a subida

pelas curvas do caminho

posso caminhar sozinho

me escondo na quietude

que encontro na juventude,

ao enfrentar a partida.

 

Entre as árvores encontro

a inspiração procurada,

a paz tanto desejada

que reflete meu viver,

com o meu jeito de ser

nessa vida,  ao florescer.  

 

Me faz sentir tão poeta,

me faz vibrar de emoção

traz-me grande inspiração

e com tamanho vigor,

posso falar desse amor,

que existe em meu coração.

No luar da lua amiga

sou livre nessa subida

lembrando da despedida

que feriu meu coração

busco com minha emoção

curo e transformo a ferida.

 

Por aqui posso ficar

deixo as horas dissolverem,

meus olhos enriquecerem

nessa vista que fornece,

o silêncio prevalece,

belas horas sem cessar.

 

Junto a seu índio deitado

dormindo se faz real,

ora! Sua beleza ideal

o recobre mansamente

e deitado eternamente

guarda essa serra calado.

 

Linda montanha do índio,

o grupo eco de Bragança

encheu-nos com esperança,

porque pode te salvar

tua beleza exaltar,

para que eu possa falar

 

com tristeza e lamento

das agressões ambientais,

que ameaçam as naturais,

riquezas primordiais

belezas originais,

que encontramos no momento.

 

Na Serra da Mantiqueira,

vista de extrema beleza,

amantes da natureza,

amantes das aventuras

que envolvem as criaturas

cheias de paz, com certeza.

 

Montanha do Leitesol!

Patrimônio ambiental,

patrimônio cultural,

herança da natureza

exalto tua beleza,

Patrimônio Nacional!

 

SANTA TERESINHA, SUA IGREJA E EU

Odete Bin

 

No ano de mil novecentos

com mais oito e mais quarenta

faça a conta quanto dá;

a cidade ainda era lenta,

por essa data veio um padre

saciar alma sedenta.

 

Chegou padre Aldo da Itália

a trabalho missionário

no bairro do Matadouro;

era padre visionário

também assim o seu povo

um com o outro solidário.

 

Trouxe alegria, esperança

conduzindo sua igreja

sendo servidor da vida

e a idade bendita seja

como testemunha viva

se há história sem peleja.

 

Entrou na capela rústica

erigida no alto do morro

simples, pobre como quê,

precisada de socorro,

de fraternidade em dobro

desde o chão, parede e forro.

 

Tornou-se bela paróquia

com nome de Teresinha

e também de São José,

porque na cidade tinha

um bispo com esse nome

e em socorro ao padre vinha.

 

Aos domingos, lá na igreja,

Aldo, esse famoso padre

em latim rezava a missa

e eu falava para a madre:

- outra língua com latim?

- nessa missa não me enquadre!

 

Ele ali continuava

pois já era a sua igreja

e também paróquia minha;

o principiante peleja

mas busca consolação

e Teresa assim deseja.

 

Era padre de domínio

um presente pra Bragança;

tornou veloz a cidade,

criou creche pra criança,

profissões, bairros, igrejas

com poder fez aliança.

 

 

Padre Donato, como ele,

recém chegado da Itália

falava na mesma língua

também igual na  sandália

isto querendo dizer,

viver de modo que valha!

 

Inversão do padre Aldo

era assim padre Donato:

“anjo ambulante de moto

imolado para o fato,

nas cerimônias, um místico

praticando o celibato”.

 

Tinham lemas em comum:

- pregar a religião

- bem saber ler e escrever

- se preparar na instrução;

por isso constroem escolas

para a mãe ter profissão.

 

Assim foi criado o ISE,

doado terreno à escola

com nome de “Assis Gonçalves”,

um teatro ali descola

com verba de deputados

tudo, tudo sem parola.

 

Ofereciam momentos

de lazer e aprendizado:

bar, salão de jogos, bocha,

sala de música ao lado,

além de corte e costura,

festa junina do agrado.

 

Para em Bragança morar

deixamos nossa cidade;

por ser morada dos sonhos

sonhei com felicidade

e também ver a santinha

que morrera em tenra idade.

 

Num sonho de asas abertas

parti com velocidade

ocupando todo o espaço

muito fora da verdade,

pois, reinar nada custava;

fiquei bastante à vontade.

 

Pensei encontrar um amor

gostaria vê-lo agora

para cair em seus braços

mas que fosse lá de fora

e contudo que eu depois

morresse na mesma hora.

 

Morrer não, por que morrer

e condenar-se novinha?

Vestir-me toda de noiva

ficaria bonitinha

e na mão buquê de flores

igual Santa Terezinha!

 

Se meu pai disso soubesse

roubaria a liberdade

não queria que eu gozasse

da distração da cidade;

de mim faria prisioneira

segurando a santidade.

 

Tudo não passou de um sonho

mas santos sonham também;

no convento Teresinha,

mas o meu foi mais além;

alguém me ensinou a olhá-la

nesse mundo de vai-e-vem...

 

Se pecados cometi

está bem esclarecido;

Deus é verdadeiro e pai

mesmo ficando escondido;

hoje quando penso nele

já me sinto arrependido.

 

O homem, mesmo sendo bom

muitas vezes é chamado

para pecados pagar

levando fardo pesado

sofrimento bate à porta,

é de espinhos coroado.

 

Críticas injustas doem,

doem mais que qualquer dor;

o melindre mexe n’alma

dando inveja, perde amor.

Dizia assim Teresinha:

- são poucas as que dão flor.

 

Após fixada em Bragança

ia à missa sempre ali

no bairro da Matadouro,

na linda igreja que vi

e desde que lá cheguei

dela nunca me esqueci.

 

Eu fiz com Donato Vaglio

a primeira comunhão;

quando histórias nos contava

com tanta satisfação,

em Deus fixava seus olhos

nos chamando à adoração.

 

Tateando, praticava

a língua com expressão

preparava como nunca

com Deus Pai no coração

o bê-á-bá com fervor

e o evangelho por lição.

 

Ensinava sobre o Pai,

como exemplo era Jesus;

viver na amizade deles

quer dizer andar na luz.

Ouvia, não entendia;

hoje entendo, faço jus!

 

O sábio padre Donato

com tudo que se imagine

fazendo papel de pai

dizia: “não se decline” 

mostrando que Teresinha

para Jesus se define.

 

Encorajou-me a ensinar

catecismo à criançada;

eram almas caminhando

com Teresa, uma aliada

e Cristo também conosco

em cada manhã velada.

Eu falava com os santos

mais com santa Teresinha

sempre pedi-lhe favor

era de confiança minha,

servidora e missionária,

interceder por mim vinha.

 

Quando voltava da escola

de joelhos, com cautela

pedia cheia de amor,

a sua fiel donzela,

um futuro promissor

mas que fosse sem procela.

 

Eu lhe escrevi dois bilhetes

porque tinha precisão,

a respeito de mamãe

por causa do coração

e neles pus toda a fé,

precisava de atenção.

 

Em cada um sempre continha

para Teresa um pedido

implorando sua bênção

não havia me esquecido

da amiga de caminhada

daquele tempo florido.

 

Um era assim: - Teresinha,

amiga de caminhada

és modelo para mim

quando me vejo arranhada,

nunca me negue atenção,

mesmo sendo madrugada.

 

Com olhar de rogo vinha

Teresinha bem sabia

pela posição das mãos;

junto ao pedido do dia

soluçando de tristeza

prontamente me atendia.

 

Pela visão de Deus Pai

essa santa descobriu

a beleza do Evangelho.

Desse belo se vestiu

esse foi segredo seu

e como Deus lhe sorriu!

 

Ela fez experiência

pessoal de salvação

de sua alma fez pequena

 e tamanha era a  atenção

de somente a Deus louvar

por amor à criação.

 

A menina boazinha

vinha consolar criança

que cedo aprendera a amar

para deixar por lembrança,

o legado de seu pai

sua amorosa bonança.

 

Por causa de minha fé

recebi sua mensagem

e garanto à santidade

que não foi por malandragem,

também não invenção minha;

foi na esperança e coragem.

 

Passei minha adolescência

indo na igreja rezar;

não vi sem igual surpresa

a mocidade chegar,

mas Teresinha lá estava

no altar sempre a me esperar.

 

Rosa ofertei com espinhos

sem espinhos devolveu

por ser minha intercessora

com amor me recolheu

e cada ação praticada,

floresceu, não feneceu.

 

Tantos padres já passaram

na igreja de Teresinha

com veracidade e fé

buscando o povo que tinha

e continuam buscando;

hoje é Tião: eis a vinha.

 

Desde menino sentia

tanta alegria em servir

crescendo em amor e fé;

tinha Deus a lhe instruir

qual a estrada preferida

pra plantar e produzir.

 

Vindo a Bragança servir

traz história do seu povo

e ouvindo sua palavra

a aurora se faz de novo,

pois testemunha a verdade

e eu, junto ao povo o promovo.

 

Entregando-se ao trabalho

vive a Páscoa de Jesus

na expressão maior do amor;

evangeliza sob luz

o caminho que escolheu;

toda a igreja ele conduz.

 

E Teresinha nos olha

consciente à nossa dor

transformando toda em rosa

muitas bênçãos do Senhor.

Que saibamos cada dia

partilhar do nosso amor.

 

Enfim, ao chegar a morte

para vermos o Senhor,

Teresinha de Jesus

nossas falhas nos releve

e em nosso final suspiro

leve-nos hino de amor.

 

ESTRADA DE FERRO BRAGANTINA – OS TRILHOS SAEM DO CHÃO E VIRAM RECORDAÇÃO

Henriette Effenberger

 

I

Trago aqui estes meus versos,

escritos  de coração

e relembro esta história,

de amor e dedicação.

Pois não me sai da memória,

o seu  derradeiro apito

na estação do Taboão,

que soou tal qual um grito

no meio da multidão,

naquela noite inglória.

 

II

Na praça  Nove de Julho,

Eis que ali jaz o trenzinho,

  nossa Maria Fumaça –

Escondida em um cantinho,

quase perde sua graça,

suja, presa, abandonada,

longe dos dias de glória,

a  infeliz Número Três,

em condição vexatória,

perdeu aquela altivez.

 

III

Talvez recorde, saudosa,

dos anos de servidão,

da lenha que a alimentava,

que transformava em carvão,

e no ar se esfumaçava.

Saudades tem do foguista,

enchendo sempre a fornalha,

e do antigo maquinista,

salpicado de limalha...

ao som de ca-fé -com -pão...

 

IV

O século?  Dezenove!

Empresários com visão

e fazendeiros respeitáveis

acertaram em reunião,

propostas admiráveis

de inovar a região,

facilitando  o transporte

do nosso café em grão.

E a partir desse suporte,

das ideias fez-se a ação.

 

V

Ela se lembra tão bem...

Foi  em abril –  dia seis

do ano setenta e dois,

e se chamou trinta e seis,

a lei que veio depois.

A Provincial que dizia:

– inicie a construção

do  trecho da ferrovia:

Campo Limpo – Taboão.

E se instaurou a alegria!

 

VI

Com o nome bem pomposo:

Companhia Bragantina

ela foi iniciada

e chegou nesta colina

de esperança renovada.

Era dezembro e o ano

da graça, setenta e oito.

E assim, sem desengano,

o progresso chega afoito

pelos trilhos desta estrada...

 

VII

No ano de oitenta e quatro

deu-se a inauguração

da linha da Bragantina

Campo Limpo – Taboão.

Esse trecho inicial,

era parte da extensão,

prevista no original

traçado da construção,

que, enfim, chegou ao final,

sem nenhuma confusão.

 

VIII

O trenzinho apita alegre

por uma década inteira

com a  Maria Fumaça,

sempre lépida e faceira,

passando cheia de graça...

Mil novecentos e três:

eis que a nossa Bragantina

passa a ser de dono inglês.

Mais estações aglutina,

com seu jeito tão cortês.

 

IX

No novecentos e doze

a linha estava completa.

Quilômetros? cento e sete!

Fora atingida a meta

e mais progresso promete.

No ano quarenta e seis,

o governo federal

dá um tchau para o inglês,

devolve a linha central

pro governo estadual.

 

X

Durante sua existência

A Bragantina enfrentou

vários e graves problemas

quando o dinheiro faltou.

Foram muitos os dilemas:

por ter estreita bitola,

necessitar baldeações,

e a rodovia que a assola,

com potentes caminhões.

Enfim, o  progresso a imola!

 

XI

O Governo do Adhemar,

que assumiu  a Bragantina,

na década de cinquenta,

nova visão descortina

e um grande problema enfrenta:

a linha é deficitária,

manutenção onerosa,

 e a classe ferroviária,

muito embora harmoniosa,

também era numerosa.

 

XII

O prejuízo viria

agravar-se a tal ponto

que o doutor Carvalho Pinto

logo após, no contraponto,

já declarou como extinto,

o ramal de Piracaia

e o trecho Vargem – Bragança.

E o povo, de atalaia,

foi perdendo a esperança,

prevendo maracutaia...

 

XIII

Porém foi no mês de junho

do ano sessenta sete,

bem no dia vinte e dois,

que a memória nos remete

para o que veio depois:

ao dar seu último apito,

foi trancada a  Estação...

Conforme o que estava escrito,

os trilhos saem do chão,

e viram recordação...

 

XIV

Porém, ainda faltava

dar certa destinação

aos bens e aos funcionários.

Pois com sua extinção,

os nobres ferroviários

precisavam de atenção.

A administração e a guarda

de todo seu patrimônio,

ficou sob a retaguarda

deste empregado idôneo:

 

XV

o meu tio Flávio querido,

que com sua competência,

inventariou peça a peça,

com inteira transparência,

porém sem nenhuma pressa.

Enfim à Sorocabana

o relatório remete

num invólucro bem bacana.

No dia sete do sete

do ano setenta e sete.

 

XVI

Nunca mais se ouviu o apito,

nem som de ca-fé- com- pão:

em Canedos, Piracaia,

em Vargem ou no Taboão.

Fim da Estação de Atibaia,

Arpui, Guaripocaba,

Maracanã, Batatuba...

como também se acaba

a de Yara e Caetetuba,

reinando  a desilusão...

 

XVII

Campo Largo e Campo Limpo,

Quarenta e quatro – a Parada–

mais Tanque e Maracanã

ficaram sem a Estrada

e também sem amanhã.

Nossa Estação de Bragança

ficava no Lavapés,

também perdeu a pujança,

ao receber o revés

ficou só desesperança...

 

XVIII

Ainda resta de pé,

mas perdeu sua função,

a velha Curitibanos.

– Deixou de ser estação –

e  após o passar dos anos,

se transformou em morada.

Assim como outras tantas

que não foram derrubadas...

Me vem um nó na garganta:

as daqui viraram nada!

 

XIX

À família ferroviária,

deixo aqui minha homenagem

àqueles que  co’ esperança

de Campo Limpo a Vargem,

de Piracaia a Bragança,

assentaram os dormentes

e logo em seguida os trilhos.

E aos outros que, infelizmente,

sem entusiasmo ou brilhos

os arrancaram, silentes...

 

XX

A benção, Flávio Rodrigues!

O relato aqui contado,

foi baseado no seu  texto,

muitas vezes premiado.

Escrito em outro contexto,

muito mais elaborado.

Suas palavras colhi

e com a mesma emoção,

as transcrevo por aqui,

co’a ponta do coração.

 

PADRE ALDO BOLLINI – O VENERADO VIGÁRIO DA PARÓQUIA DE SANTA TEREZINHA

Myrthes Neusali  Spina de  Moraes

 

Dizia a mãe: É un bambino!

Vibrava o pai de alegria.

A família festejava,

o menino que nascia.

Sua mãe o abençoava

e ao bom Deus agradecia.

 

Com oito anos de idade,

o seu pai sempre ajudava,

como auxiliar de pedreiro,

Com vontade ele estudava,

buscando sempre ser o primeiro,

Em tudo o que praticava.

 

– Eu quero ser missionário!

Confessava à mãe com medo.

Mas o pai não percebia

do filho tão novo o enredo,

até que em um belo dia

descobriu o seu segredo.

 

Diz-lhe o pai: – Esqueça isso!

Escolha outra profissão!

Responde-lhe – Não desisto!

E afirma, com convicção:

– Quero as almas para Cristo!

Irei viver de oração.

 

Contudo não desistia,

e ao estrangeiro queria

pregar como missionário.

Isso a Deus ele pedia,

Ao dedilhar o rosário

à Santa Virgem Maria.

 

No dia de sua ordenação

toda família o abraçava

e o padre feliz sorria.

O povo então suspirava.

A emoção que ele sentia

a todos contagiava.

 

Em Monza, na bela Itália,

professor de Seminário,

da juventude assistente,

no santíssimo sacrário

Orava sempre contente,

num compromisso diário.

 

Sonhava em ir ao estrangeiro.

Mas a guerra começou,

impedindo sua viagem.

Com muita fé, aguardou

e refez sua bagagem,

até que a Itália deixou.

 

No porto a mãe acenava,

(e entre lágrimas sorria)

ao navio que se afastava.

pois, o  seu filho  queria,

abraçar o que ele amava.

Junto a Deus nada temia.

 

Venceram  as suas preces!

O oceano ele cruzou.

Tinha força , lutaria!

E logo que aqui chegou,

Todo cheio de energia,

Ao trabalho se entregou.

 

Bragantinos logo foram

Espera-lo na estação.

Nesse encontro muito lindo,

o que causou emoção

foi ver crianças sorrindo

com bandeirinhas na mão.

 

Quando a cidade ficou

inteirada do ocorrido,

Padre Aldo foi aclamado,

muito abraçado e aplaudido.

Sentiu que seria amado,

porque foi bem acolhido.

 

Era plena primavera,

quando na capela entrou.

No altar da Virgem Maria,

logo ele se ajoelhou,

pedindo sabedoria.

E sua fé renovou.

 

1948. Em meados de abril,

numa manhã ensolarada

padre Aldo recebia

festas e até uma parada,

Santa Terezinha  iria,

por ele ser transformada.

 

A capela era pequena,

apenas com sacristia.

Foi aí que pernoitou,

numa noite em que chovia.

Mas de nada reclamou.

E assim clareou o dia.

 

Não tinha quarto e cozinha

e  nem sequer um banheiro.

Mas tudo estava perfeito.

Trabalhou o dia inteiro.

Para tudo dava um jeito,

pois era mesmo um guerreiro.

 

Na padaria Espanhola

fez primeira refeição.

Mais comida foi ganhando,

feitas com dedicação.

Pernil e vinho chegando

completavam a emoção.

 

Antes que a noite chegasse,

eis que surge um garotinho

Carregando um cobertor,

que entregou-lhe com jeitinho.

Abraçou o benfeitor,

que mostrou tanto carinho.

 

Porém, no dia seguinte,

vejam só quanta aflição:

ver a capela vazia

apertou-lhe o coração.

Rápido precisaria

reverter a situação.

 

Sentado em frente à capela,

o missionário pensava

na alegria das crianças:

- Um campinho planejava.

E repleto de esperanças

o trabalho começava.

 

Legionários foi o nome

que o time receberia.

No campo, com muita gente,

era só festa e alegria.

Ficava o padre contente,

quando o jogo acontecia.

 

A frequência à capela

aumentava dia a dia.

O padre Aldo emocionado,

sempre a sorrir de alegria,

com seu trabalho esmerado,

uma nova igreja erguia

 

Batina curta, surrada,

a barba sempre crescida.

Mas ele não se importava.

Vivia em constante lida,

no sacerdócio que amava,

aos pobres dando guarida.

 

Mas depois de muito tempo,

do ano certo não me lembro,

sol quente naquele dia,

em pleno mês de dezembro,

em pé, lá da escadaria,

padre Aldo muito sofria.

 

Com os olhos lacrimejantes,

com certeza ele previa,

que a carta que então chegava

notícia triste traria

O pai ao filho contava:

Sua mãe não mais vivia.

 

Num dia de carnaval,

ao ver um grupo  passar

com trajes de cangaceiros,

pensou logo em convidar

os jovens para  parceiros

e com o chefe foi falar.

 

Convidado pelo padre,

“ Lampião”, o “cangaceiro”,

pela Igreja se encantou.

Tornou-se grande parceiro

e em tudo colaborou,

doando-se por inteiro.

 

Para a reforma da Igreja,

o Abrigo lhe foi emprestado.

Recreio dominica,.

com cinema, foi criado.

Sempre havia festival,

Jogos e aula de bordado.

 

Nas lindas festas juninas

o povo todo ajudava.

Havia doces, comidas

e a fogueira crepitava.

Com barracas de bebidas

a festa se completava.

 

Para terminar a noite,

a quadrilha começava.

A noiva, toda bonita,

em suas mãos segurava

flores com laço de fita,

enquanto o noivo abraçava.

 

O filho de dona Brígida,

e de João, o grande pedreiro,

da paróquia o bom Vigário

doava-se por inteiro.

Trabalhava sem horário,

Fazendo tudo ligeiro.

 

As doações eram tantas!

As escolas aumentavam

nas vilas e na cidade.

As famílias se alegravam

ao ver tanta lealdade

e em tudo colaboravam.

 

O bairro do Matadouro

Mudou muito de aparência.

Tinha banda e até cinema,

além de toda  assistência.

A  Igreja adotava um lema:

“Trabalho e muita prudência”.

 

Cada vez mais conhecida,

a Igreja  destacava.

Tinha até um jornalzinho,

que” Garotos” se chamava.

Textos com muito carinho

o padre Aldo elaborava.

 

Padre Donato chegou,

outro  santo missionário,

que humildemente ajudou

em tudo que foi necessário.

A Igreja se transformou

em um belo santuário.

 

Tinha um nobre  coração,

em tudo colaborava.

Ia aos sítios bem distantes

e por onde ele passava,

abençoava os andantes

e um rastro de amor deixava.

 

Nas festas religiosas,

muitos fogos e rojões.

Famílias entusiasmadas,

nas solenes procissões,

com janelas enfeitadas

cumpriam as tradições.

 

Crianças vestidas de anjos

junto ao andor de Maria,

davam um toque angelical.

Até a banda ( quem diria?)

tinha um destaque especial

na procissão que seguia.

 

Famosa,, a Paixão de Cristo

parecia de verdade,

ao vivo representada,

em procissão na cidade.

Era muita chicotada!

Santo Deus! Quanta maldade!

 

Com Jesus na manjedoura,

o presépio emocionava.

Tarcísio sempre sorrindo,

as mãozinhas agitava.

E hoje está a Deus servindo:

- Mostra a Luz que o acompanhava.

 

Também havia o Teatro.

Plateia sempre lotada,

com palco bem enfeitado

em cada peça encenada.

Até um palhaço engraçado

divertia a criançada.

 

Quando a Companhia Spina

no palco se apresentava,

causava muita alegria.

O padre Aldo se encantava!

o tempo todo sorria

e os atores abraçava.

 

O padre fez bons amigos,

moradores  da cidade,

que o ajudavam com carinho,

por sua capacidade.

Pra tudo dava um jeitinho,

mostrando boa vontade

 

Cumpriu  a nobre a missão,

até o fim de sua vida.

O padre Aldo adeus dizia...

Terminara sua lida.

O silêncio reinaria

m sua triste partida.

 

Os amigos, comovidos,

na despedida choravam.

E com tristeza e emoção

entre lágrimas rezavam.

- Padre Aldo alí no caixão...

Eles não acreditavam!

 

Padre Aldo, descansa em paz.

Dobram os sinos tristemente.

Choram adultos e crianças.

É uma cena comovente!

Guardaremos as lembranças,

na memoria eternamente!

 

E sob o altar de Maria,

seu corpo foi sepultado,

como havia sugerido,

há tempo,  lá no passado.

Sendo assim foi atendido,

e para ali transladado.

 

Seus pertences recolhidos

e com carinho guardados,

relembram acontecimentos

de vários anos passados,

trazendo-nos bons momentos

que serão eternizados.

 

Fotos e apito, relíquias,

encontram-se em exposição.

Batinas e paramentos,

causando muita emoção,

misturam os sentimento

de saudade e gratidão.

 

Santa Terezinha, a Igreja

pelos padres conservada,

com pinturas muito lindas,

 hoje tão bem decorada,

nos traz saudades infindas

de uma época abençoada.

 

O padre do Pontifício

Instituto das Missões,

que com trabalho e coragem,

conquistou os corações,

deixou uma santa imagem

a todas as gerações.

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