A bragantina Jeniffer Stephanie Silva Coresma, de 19 anos, está dando orgulho pra muita gente. Isso porque ela está prestes a embarcar para Singapura para realizar um sonho antigo: o de estudar música, paixão que a acompanha desde a infância.
O Jornal Em Dia conversou com Jeniffer para saber a respeito de sua trajetória e como estão os preparativos para a nova empreitada. A jovem contou que iniciou na música cedo, no Ensino Fundamental, numa fanfarra na escola, onde conheceu os instrumentos. “A princípio, quando criança, eu entrei na fanfarra pra ficar perto dos meus amigos, aí comecei a ver que isso poderia ser uma profissão também e eu comecei a gostar de verdade de tocar um instrumento, de estar em conexão com a música, a partir disso, eu nunca mais coloquei outra profissão em minha mente. Comecei na fanfarra, depois fui trocando de instrumento e evoluindo até chegar no trombone baixo, então, fui conhecendo mais pessoas, foi onde consegui participar de alguns festivais, estudando sete horas por dia, sempre todos os dias focada”, relata.
De lá pra cá, foi um longo caminho até conseguir a tão sonhada vaga para estudar na Young Siew Toh Conservatory of Music. “Fiz parte de três festivais concursados, que são concorridos internacionalmente. O primeiro festival que fiz foi uma participação em que tive a oportunidade de encontrar um professor que gostou bastante de mim e outro aluno, e deu uma sugestão para nós, caso quiséssemos ser profissionais, mas na época, não dei muita importância, pois era muito pequena. Depois que cresci, decidi correr atrás pois ainda dava tempo, então continuei estudando e prestei duas vezes para a universidade em Singapura. No primeiro ano, não passei, pelo nível de inglês, mas no segundo ano, que foi 2019, prestei de novo e consegui 100% da bolsa, estudei mais, foquei mais, foi através de vídeos, tive que fazer uma prova superdifícil de proficiência em inglês, pois é bem concorrido”, entrega.
A jovem ainda concilia os estudos com o trabalho de balconista em uma conveniência de posto de gasolina. Hoje, trabalha em dias alternados e estuda inglês diariamente, e sempre que possível, vai para São Paulo para estudar trombone.

Jeniffer e seu "anjo da guarda", o professor Darrin Milling Coleman
Apesar do seu esforço, a jovem reconhece que sem o apoio de pessoas especiais, alcançar esse feito não teria sido possível. “Há pessoas sem as quais eu jamais iria conseguir chegar onde cheguei, porque, desde sempre, foi um obstáculo eu ir para outro país, nunca ninguém acreditou, sempre tem esses preconceitos do tipo: ‘você é mulher e quer tocar, é baixinha, negra’... Então, para mim, existiram pessoas fixas que sempre estiveram comigo, minha mãe, que em todos os dias em que eu chegava triste, quando os projetos não estavam bons, ou levava xingamentos, porque nunca fui a aluna destaque da turma, sempre fui a que tinha mais dificuldade nas aulas, mas sempre me esforcei, então compensou. Minha mãe, meu pai, meu professor Darrin Milling Coleman, que é o trombonista baixo solista da Orquestra Sinfônica de São Paulo, a Osesp, ele é um anjo da guarda, Deus me enviou ele para ajudar mesmo, foi a pessoa que mais me ajudou musicalmente falando, a Bárbara, que é uma das minhas maiores amigas aqui e o marido dela, o Fernando, sempre estiveram comigo”, pontua.
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Jeniffer e seus pais, José e Jorgina

A jovem e os amigos, Bárbara e Fernando
O empenho em estudar, ela garante, foi o principal fator que a fez desenvolver sua habilidade na música. “Eu não digo que eu tenho talento ou dom, pode-se dizer que é uma facilidade do querer estudar, porque se eu não tivesse aprendido a gostar de estudar, eu jamais conseguiria o que consegui, principalmente por ter muitas dificuldades”, diz.
Jeniffer tem ainda mais um motivo para se orgulhar, pois ela é a primeira mulher brasileira a ir para essa universidade. “Para mim, não só por ser uma mulher, negra, é muito difícil mesmo ter mulheres nessa área. Vai ser uma representatividade tremenda, representar todas as mulheres que na área da música estão sumindo cada vez mais. Meu foco principal é representar as mulheres lá e dar o meu melhor”, fala.
Além de se aprimorar na música, Jeniffer quer aperfeiçoar sua formação profissional e ganhar cada vez mais fluência no idioma. “Eu pretendo viver outro idioma [o inglês] de verdade, e fazer meu mestrado logo depois. Minha expectativa é de conseguir muitas coisas na universidade, continuar me esforçando, dedicando e focada para realmente conseguir o que quero, que é tocar em orquestra profissional, seja aonde for, e chegar no meu sonho, que é tocar na Orquestra de Berlim”, revela.

Para ajudar com os custos da viagem, bem como a realizar o sonho de adquirir seu próprio instrumento, ela está realizando uma vaquinha virtual, que receberá doações até o mês de dezembro. “Eu, meus amigos e o professor tivemos essa ideia de fazer essa campanha pra tentar arrecadar o meu instrumento, porque, pelo fato de eu fazer parte dos projetos, eu nunca tive meu instrumento próprio. Isso é meu sonho e o que vai me ajudar no desenvolvimento próprio”, explica. Para contribuir, basta acessar: http://vaka.me/1080603.
Apesar de animada, ela revela estar com o coração apertado para o embarque. “Já estava me preparando psicologicamente desde o ano passado. Meu voo será em 1º de agosto, chego lá no dia 3, é muito bom saber que estou indo pra lá em pouco tempo, mas estou com o coração apertado de deixar minha família. Sei que vai ser uma nova rotina, vai ser bom para mim profissionalmente, mas uma coisa que vou sentir muita falta é da minha família, amigos mais próximos, pessoas que me mantiveram firme nas horas mais difíceis que tive que passar”, aponta.
Estar tão próxima de alçar voos em um novo continente, ela entrega, faz todas as dificuldades valerem a pena. “Hoje, eu entendo que para ter conseguido isso, perdido tudo que perdi, ganhar todas as coisas que já ganhei, resumindo, é começar a contar uma nova história, representa muita satisfação de conseguir as coisas a limpo, pelo meu mérito, meu esforço e sem precisar derrubar ninguém”, declara.
Por fim, a jovem revela o papel transformador que a música tem em sua vida. “A música para mim é tudo, foi onde me encontrei mesmo, foi onde realmente achei meu espaço, onde consigo me expressar, seja minha tristeza, felicidade, todos os sentimentos, é minha paixão mesmo, já consegui conhecer outros lugares através da música, pessoas novas, que na nossa vida, é o que mais importa. Se você me pedisse para eu me definir, me definiria como uma canção mesmo, os estágios de uma música, ela na velocidade do ápice dela, e os sentimentos que nos oferece”, encerra.
Conheça mais sobre a história de Jeniffer em seu canal no YouTube: https://youtu.be/37Qxzv4RA-A.
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