Câmara Municipal cedeu a estrutura à Diocese de Bragança Paulista em 1927, com posterior direção dos padres agostinianos, que permaneceram no local até o fim das atividades
Inaugurado em 1928, o Colégio Diocesano São Luís, situado ao prédio que hoje abriga o Centro Cultural Prefeito Jesus Adib Abi Chedid, comemoraria 95 anos no dia 15 março, se o polo educativo ainda existisse. Memória de uma Bragança que começava a se expandir, a instituição foi um marco para a história da cidade, bem como uma referência em educação no estado de São Paulo, com sua boa fama disseminada também em outros estados, como Minas Gerais.
O colégio nasceu por meio de uma iniciativa da Câmara Municipal, que havia adquirido o prédio do Teatro Carlos Gomes a fim de “preencher uma das maiores lacunas existentes nesta cidade, que então era e ainda é a falta de um internato em que se possa administrar à mocidade uma educação sólida e completa”, conforme consta na cópia da ata da sessão extraordinária de 1º de outubro de 1927, sob a presidência de Raul de Aguiar Leme, cedida ao Jornal Em Dia pelo historiador independente Agni Ariel Líbera.
Com a criação da Diocese de Bragança Paulista, em 1925, e a posterior posse do primeiro bispo no território, Dom José Mauricio da Rocha, a Câmara optou por ceder a estrutura à Diocese sob a condição de que ela fundasse no local um ginásio com um curso primário e outro secundário. Mais tarde, a direção do colégio foi passada aos padres agostinianos da província de Castela, na Espanha, com supervisão diocesana.

A VIDA NO COLÉGIO
Os padres agostinianos assumiram a direção em 1938, época em que o colégio contava com um reduzido número de alunos: 35 internos (residiam no local) e 70 externos (apenas estudavam). Porém, já no ano seguinte, a quantidade de estudantes subiu para 90 internos e 150 externos, sendo a maioria dos internos nativos da capital paulista e do sul de Minas Gerais.
Yves de Cilo Toledo, 84, que fez sua admissão no São Luís em 1949, aos 12, passou nove anos de sua vida acadêmica junto aos padres espanhóis e docentes contratados para ministrar algumas disciplinas: todos homens, uma vez que se tratava de um colégio para meninos.
“Tinha aula de inglês, de francês... lembro que o francês era a língua oficial na época, e depois passou a ser o inglês. E a gente aprendeu muito espanhol porque os padres eram todos espanhóis e tínhamos que entender [o que eles diziam]”, contou o ex-aluno, aos risos, ao Jornal Em Dia.

Aprovado por meio de um severo exame de admissão para o regime externo, Yves chegou a ser, anos mais tarde, semi-interno no instituto: passava o dia todo no colégio, almoçava e jantava no local, e, após os estudos da noite, ia dormir em casa para recomeçar a rotina no dia seguinte.
Além das aulas regulares, os alunos do São Luís, em especial os internos e semi-internos, também tinham horários para estudos e disciplinas extracurriculares, como a famosa fanfarra, com mais de 200 integrantes, que animava os desfiles cívicos e integrava as celebrações da Semana Santa na cidade.

Segundo Yves, que tocava corneta no grupo, em 1958 a equipe conquistou o terceiro lugar nos Jogos Abertos de Piracicaba; de acordo com os arquivos do historiador, em outubro de 1960, a fanfarra foi declarada a melhor da 25ª edição dos Jogos Abertos do Interior, realizado em Campinas.
Destacavam-se também as equipes de futebol e vôlei. O centro de treinamento dos rapazes era na “Fazenda Bom Retiro”, chamada por todos de “Fazenda dos Padres” (hoje o Parque Natural Municipal Lago dos Padres), onde havia a piscina e os campos de esportes, inaugurados em 1947 e 1953, respectivamente.
CADEIA
Ao lado do colégio, se encontrava outro prédio, tão bonito quanto o primeiro: a cadeia pública da cidade. Quem chegasse pela frente poderia vê-los lado a lado, quase como uma metáfora para os alunos que não andassem na linha ou que não quisessem se dedicar aos estudos. Mais tarde, o prédio da cadeia deu lugar ao Fórum Municipal e depois foi derrubado.
“Se você estava no pátio, via os presos nas celas. Alguns ficaram amigos da gente. Tinha gente de Bragança, tinha gente de fora. Às vezes, eles pediam cigarro, então a gente dava cigarro para eles”, disse Yves, em tom nostálgico e humorado.

O colégio diocesano entrou em decadência na década de 1960, após uma série de acontecimentos, como o fim do Curso Científico, o crescimento das unidades de ensino na região e, principalmente, a precariedade das instalações. A manutenção rotineira dos padres agostinianos não foi suficiente para garantir que os anos de atividades educativas não cobrassem o preço. Àquela altura, restavam apenas duas possibilidades: fazer uma reforma profunda com custo financeiro alto, ou devolver o prédio à Diocese, conforme previa o contrato.
Como investir um valor elevado em uma propriedade de terceiros não era uma opção aos sacerdotes espanhóis, iniciou-se uma tratativa com a Diocese, Câmara Municipal e Prefeitura de Bragança Paulista, a fim de que fosse concedido o direito de posse aos padres agostinianos. Sem acordo, os clérigos decidiram devolver o colégio à Diocese, deixando o local em 1º de janeiro de 1968.
“É uma tristeza, [o local] nunca mais foi o mesmo. Era diferente, os padres mantinham, todo ano eles reformavam. Quando você ia para o colégio, estavam as carteiras todas envernizadas, as salas pintadas [...]. Os padres foram embora, acabou, aí começaram a chamar de Carrozo, não era mais Colégio São Luiz. Ponto final”, lamentou o ex-aluno, com lágrimas nos olhos.
Após a instalação de várias outras instituições educativas, o antigo teatro passou um longo período abandonado. Nos últimos anos, o prédio foi restaurado pela Administração Municipal e hoje dá espaço ao Centro Cultural e Biblioteca Municipal, que recebe diversas atividades, como exposições artísticas, apresentações musicais e teatrais, aulas e workshops diversos. Entre os célebres alunos, a escola recebeu o saudoso prefeito da cidade, Jesus Adib Abi Chedid, que hoje dá nome ao prédio.
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