A época tão temida por ela estava se aproximando. Já muito se ouvia na TV sobre as multidões nos comércios populares, a busca por presentes, os percentuais de vendas em comparação ao ano anterior... E enquanto ela ouvia tudo isso, um pesar enorme ia tomando conta de seu coração, era como se uma grande, pesada nuvem fosse preenchendo cada espaçozinho de sua alma, até fazer com que até mesmo seu corpo se sentisse débil e dolorido.
Essa era uma época dolorida, afinal. Até mesmo a ingênua empolgação dos pequenos a incomodava. Não, ela não fazia questão alguma de sentir-se assim e de reagir assim, tão amargamente a tudo, absolutamente tudo que se relacionava a essa época. Na verdade, houve um tempo em que ela adorava o Natal.
Mas naquele tempo, a árvore estava cheia de enfeites e a mesa repleta daqueles a quem amava. Naquele tempo, ela era apenas mais uma das crédulas crianças, que com o coração repleto da alegria que só a ignorância pode proporcionar, esperavam o bom velhinho.
Hoje, hoje, não. No apartamento acinzentado não há espaço nem vontade para montar uma árvore de natal. E ela ainda se lembra de quando, nessa época, o pai ia, numa aventura ilegal e arriscada, em busca de um pinheiro, pinheiro natural, cortado às pressas e às escondidas, à beira de alguma estrada. Lembra-se também da festa que fazia com os irmãos quando ele chegava, e de como era divertido enfeitá-lo todo.
No apartamento acinzentado, não há espaço, nem vontade, tampouco Natal. As janelas sempre cerradas impedem até mesmo que o aroma dessa época do ano adentre ao inóspito recinto. A porta, quase sempre fechada, também já não se abre mais para visitas de amigos, porque não há mais amigos que a visitem. E se não há árvore e nem amigos, tampouco haverá presentes, já que a credulidade da infância fora substituída pelo ceticismo tétrico da vida adulta e responsável.
Não há um enfeite sequer em qualquer um dos cômodos. Não há um enfeite sequer em sua alma. Há muito tempo que desistira de enfeitá-la. Há muito tempo, o tempo natalino perdera sua cor.
Mas naquela manhã, e nunca se saberá o porquê, ela se animara um pouco. Não, não se aventurou em montagem alguma de árvore de natal, afinal, guardada há tanto tempo, nem sequer conseguia se lembrar de onde estava. Também não enfeitou o apartamento. Não telefonou para nenhum amigo, se é que ainda podia chamar-se assim.
Contudo, e apesar de todas as circunstâncias, dentro dela, fez-se Natal naquela manhã. Arrumou-se, cabelos penteados para trás, presos por um coque que lembrava o que sua mãe costumava usar, saia, camisa, os sapatos confortáveis de sempre, carteira na mão direita, ela saiu, finalmente deixou seu invólucro e saiu às compras. Ia cozinhar, afinal! Mas não como sempre, não com a obrigação de se manter viva, mas porque estava viva e era Natal, e ela queria comer alguma coisa muito gostosa.
De onde saíra essa repentina gana, afinal? Não se sabe.
Não comprou carne, nem nenhuma massa, nem vinho, nem cerveja, nem champanhe. Mas comprou o que mais amava e o que, lamentavelmente mais a fazia lembrar-se dos natais de outrora. Comprou açúcar. Comprou figos. Confiou na palavra do feirante que há anos vendia-lhe essa quase que sagrada iguaria, quando este assegurou-lhe estarem frescos e bonitos.
Confiou em sua própria competência e reflexo, quando já na cozinha do apartamento, ousou a tarefa precisa de marcar-lhes com o sinal da cruz. A cruz, a doçura da cruz, o açúcar penetrando através dela, atingindo o miolo do figo. Os dedos já marcados também pelo peso da faca e pelo sumo que eles expelem quando assim cortados.
O figo no fogo com o açúcar era o próprio Natal sendo reproduzido defronte de seus olhos inertes. Há muito que ficara cega e há muito que não se permitira mais celebrar essa data.
Aquele ano foi diferente, e repito que ninguém nunca soube o porquê.
O apartamento já estava todo tomado pelo aroma inconfundível do doce de figo. Sua alma toda tomada por alguma singela alegria estranha, como há muito, muito tempo não sentia. Sentou-se em sua poltrona, com um pote de figos ainda quentes numa das mãos, com a outra, acariciava a companheira de outras vidas, a gatinha com quem dividira seus dias mais solitários.
Sorveu com volúpia o primeiro figo, ainda quente, sentiu o dulçor tomar conta de seu paladar, sentiu o céu da boca queimar e ficou com a impressão de que no dia seguinte teria feridas abertas. Sentiu alegria! Sorveu um outro, e a cada um que acrescentava à boca, sentia sua alergia aumentar, como que por um milagre, como que por obra de um ser misterioso e maior que todas as nossas dúvidas e medos.
E quando terminou o pote todo, ainda em êxtase, num êxtase solitário, imersa na escuridão de sua cegueira, ela sentiu um toque no ombro direito. A gata, sensível como todos os gatos o são, já estava com os pelos todos em pé, afinal, o que a dona não podia, ela podia enxergar.
Com um miado agudo e triste, despediu-se da companheira. Pote ao chão, a boca ainda brilhando de açúcar, no rosto uma expressão serena.
Feliz Natal!
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