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Olhar Social

Criança mais que esperança!

Com a chegada de agosto, inicia-se enfaticamente – no mês desprovido de feriados – a Campanha “Criança Esperança” – parceria entre a rede Globo e a Unesco – a qual desde a década de oitenta realiza uma grande festa e promove ações em prol da doação de recursos, que financiam inúmeros projetos sociais Brasil afora.

Sob o slogan “sua esperança transforma vidas”, a campanha busca sensibilizar a sociedade a contribuir com a causa, garantindo um futuro melhor a centenas de crianças, adolescente e jovens de todo o país, imersos, em grande parte, num universo de ausências, cujos projetos financiados talvez sejam, de fato, as únicas ações que tenham acesso e lhes permitam sonhar com dias melhores.

Os relatos das pessoas atendidas e os flashes das ações realizadas, expostos pela emissora, não deixam dúvidas quanto a importância dos trabalhos desenvolvidos; alguns, eventualmente, conhecidos ou próximos a nós. Também não se dúvida do compromisso, afeto e dedicação daqueles que dão “o sangue” para que as ações se concretizem. Pessoas que, por vezes, batem de porta em porta em busca de recursos que financiem suas causas.

Assim, entre um plim plim e outro, as celebridades dão o ar da graça e convidam o telespectador a se juntar a causa e doar o quanto puder!

Causa legítima. A criança e o adolescente – enquanto pessoas em desenvolvimento – devem ser prioridade absoluta do Estado brasileiro e contar com proteção integral, o que ficou assegurado em nossa Carta Constitucional em 1988, com desdobramentos para a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) em 1990, frutos de tratados internacionais, mas também de muita luta!

Proteção integral que requer contar com políticas públicas e orçamento público que garantam serviços – permanentes e continuados – no campo educacional, cultural, esportivo, de lazer e convivência a todas as crianças e adolescentes, enquanto um direito a elas reconhecido.

Por sua natureza, os serviços garantidos (creches, escolas, centros de convivência, espaços culturais, esportivos e de lazer, por exemplo) possuem essencialmente condições mais concretas de imprimir mudanças substanciais no futuro dessas crianças e adolescentes, contribuindo na transformação de suas vidas, justamente por contar com sua presença concreta e continuidade da atenção ofertada.

As atividades desenvolvidas via projetos sociais são bem-vindas, enquanto complementares das ações continuadas, já que sua natureza – temporária e pontual – possui um caráter mais restrito e limitado em transformar efetivamente as vidas atendidas, ainda que, por vezes, são essas ações – ou as únicas ações – que chegam a muitas crianças e adolescentes, perante a ausência e omissão do Estado.

Não há, vale lembrar, nenhuma objeção em campanhas como essa, mesmo reconhecendo que elas eventualmente mais afagam o ego dos proponentes e aliviam, de certo modo, a consciência de quem contribui ao sentir que fez a sua parte. 

Mas precisamos de mais, muito mais!

Crianças e adolescentes precisam de mais, mais que esperança, mais que contar com a generosidade de quem se preocupa com seu futuro.

Num país como o nosso, que arrasta uma imensurável dívida social, que acumula desigualdades sociais, raciais, territoriais e de gênero, crianças e adolescentes – em especial as que vivem em condições miseráveis – precisam efetivamente contar com serviços estatais que resguardem sua condição de pessoa em desenvolvimento.

Ainda que nos sensibilizemos com a campanha, doemos nossos tostões e nos animemos com a grande festa, é preciso garantir condições dignas de vida e subsistência a todas as crianças e adolescentes desse país, o que precisa ir além das campanhas de solidariedade. Algo estruturado no campo do direito e do dever público estatal, em que o futuro será melhor e as vidas transformadas, como nos ensinou o mestre Paulo Freire, no instante em que “[...] a justiça social se implante antes da caridade”.

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo

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