Foto: Arquivo pessoal
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Educação

Da periferia de São Paulo a Harvard: Conheça a história do jovem estudante de Medicina Marcinho

O jovem Márcio Henrique de Jesus Oliveira, de 21 anos, nascido e criado no bairro periférico de Itaquera, na Grande São Paulo, tem um plano ambicioso para o ano de 2020: ir a Harvard, em Boston, nos Estados Unidos, a convite do professor e pesquisador Paulo Saldiva.

A única coisa que separa o jovem de seu objetivo é a questão financeira, por isso, ele está realizando um financiamento coletivo para levantar os custos necessários para a viagem.

O Jornal Em Dia conversou com o jovem Márcio, hoje estudante de Medicina na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), que contou um pouco de sua trajetória e falou como o conhecimento e a educação transformaram sua vida.

De acordo com Márcio, como um jovem da periferia, ele não tinha grandes expectativas de um futuro melhor, principalmente por meio da Educação. “A gente que nasce e cresce em periferia não é acostumado a ter muita perspectiva de vida. A minha perspectiva, até o segundo ano do Ensino Médio, era sair da escola para poder trabalhar em um serviço braçal mesmo. Então, no bairro em que eu cresci, eu não tive muita inspiração para os estudos, meu pai terminou o segundo grau, minha mãe parou na quarta série, então eu não tinha um espelho que eu pudesse enxergar nos estudos, na educação, a possibilidade de ascensão não só material, mas uma possibilidade de poder enxergar o mundo a minha volta”, explica.

Segundo o estudante, a possibilidade de ter uma vida diferente da de seus pais, no início, era remota. “Eu nem sabia que o mundo a minha volta existia e que era importante ter esse olhar mais crítico, mais humano. Então, a minha vida ela estava fadada a sair da escola, trabalhar e ajudar meus pais. Eu comecei a trabalhar muito cedo, eu e o meu irmão, mas isso nunca atrapalhou na escola, porque na verdade, eu não levava muito a sério, eu ficava andando pelos corredores da escola, eu tinha muita amizade, sempre respeitei os professores, mas em questão de querer aprender, de enxergar na aquisição do conhecimento uma possibilidade de crescer enquanto pessoa, eu não olhava para o conhecimento e para a educação – história, arte, geografia, ciência, política –, eu não enxergava, no conhecer, uma coisa legal”, relata.

Marcinho, como é conhecido, aos 17 anos, conciliava trabalhos em um hospital e em uma pizzaria, mas viu sua vida começar a mudar com o discurso de um professor no segundo ano do Ensino Médio. “Ele teve um discurso bem chocante para mim, porque ele me fez parar para pensar, de que o legado que eu tava deixando na minha existência era um legado já deixado por muitos, e um legado triste, que por falta de conhecimento, a gente reproduzia as mesmas práticas e as mesmas dores... A gente, do Ensino Médio, na escola pública da periferia de São Paulo, está fadada a reproduzir o que os nossos pais passaram. Então, a gente ‘tá’ reproduzindo um ciclo que já existe há muito tempo e que é favorável que ele exista para muita gente”, conta, afirmando que, a partir daí, seu pensamento começou a mudar. “Eu falei: ‘nossa! O que eu vou deixar?’, ‘eu vou ser mais um?’. Não no sentido de que ser mais um seja ruim, mas se eu tenho possibilidade de ser diferente, de estudar, de conhecer o mundo – e isso é louco, porque a gente passa, o mundo fica, e a gente vai... Então, eu ter a possibilidade de deixar alguma coisa no mundo me chamou atenção, e aí eu falei ‘eu vou estudar’, mas foi um ‘vou estudar’ tímido, foram passos intercalados com várias recaídas, mas com muita gente boa que sempre estendeu a mão para mim na hora que eu recaía, que eu brincava”, conta.

Entre essas pessoas, uma professora que Marcinho conheceu “passeando pelos corredores” da escola falou sobre o cursinho pré-vestibular MedEnsina, ministrado pelos estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) para alunos de baixa renda. “Ela disse: ‘alunos de escola pública, alunos iguais a você’. E eu falei ‘nossa, mas existe gente igual a mim, que ‘tá’ na escola pública e que sonha com vestibular?’”. E foi aí que tudo começou. “Eu comecei a prestar prova no MedEnsina, passei, é uma prova simples, porque eles entendem que os alunos às vezes não têm condições de prestar uma prova à altura do vestibular. Foi no MedEnsina que eu me encontrei, que eu cresci enquanto pessoa, que eu comecei a me livrar da miopia que é a falta de conhecimento e a enxergar o mundo assim”, completa.

No cursinho, conheceu a arte, a poesia, a literatura, a política, a ciência e a biologia. “Tudo que nos rodeia e que nos torna diferentes pelo fato de conhecermos eu conheci no MedEnsina”, diz.

Lá, também conheceu Marcos Agrela, um professor que entendeu as suas dificuldades e que o seu repertório não era suficiente para enfrentar o que vestibulares como Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular) e Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) cobram. “Ele reservava um dia da semana dele para ler para mim Memórias Póstumas de Brás Cubas, que é um livro de Machado de Assis, e traduzir o que o autor estava querendo dizer e eu não enxergava. Ele foi o cara que praticamente, junto com o MedEnsina, transformou a minha vida, e aí a gente jogou as coisas para cima e começou a estudar. Ele me custeava porque, no primeiro ano de cursinho, eu ainda trabalhava na pizzaria e em um hospital, no Itaim Paulista, e esse professor, no segundo ano de cursinho, me tirou de lá, custeou minha passagem e minha alimentação, e aí eu só estudei no segundo ano de cursinho. No terceiro ano de cursinho, que foi ano passado, ele se formou, entrou na residência e se dispôs a pagar um cursinho para mim, que é o melhor cursinho de São Paulo, o Poliedro, e pagava o cursinho, alimentação e transporte”, relembra.

Nesse cursinho, Márcio cresceu ainda mais e aprimorou os conhecimentos que havia adquirido no curso anterior. “Ali eu cresci. Mas eu já tinha crescido, já tinha firmado bem os meus fundamentos e alicerces no MedEnsina, e aí no Poliedro só foi uma questão de reparar o que faltava”, comenta.

O resultado dos estudos não demorou a vir. Marcinho passou em várias faculdades, uma delas particular em um bairro próximo de casa, e outras federais em diferentes estados. O professor novamente o incentivou, desta vez para que vivenciasse as experiências de uma faculdade federal. “Ele falou para mim: ‘eu não quero que você deixe de viver uma federal por falta de auxílio, eu quero que você viva um ambiente universitário e conheça o conceito de universidade na prática, que é ter relações com ideias, pessoas, pensamento, ações diferentes da sua e ampliar os limites do seu mundo, Márcio’”.

Márcio, então, optou por cursar Medicina na Universidade Federal de Uberlândia, em Minas Gerais. “Eu ousei ampliar os limites do meu mundo entrando na universidade, e assim, eu cresci muito. Na sétima semana de aula, estudando em Uberlândia, na Faculdade de Medicina, fui pedir pra um professor uma oportunidade de fazer pesquisa com ele e ele falou pra mim que ir para fora demanda condições materiais e intelectuais, aí eu falei ‘eu sou burro e pobre, então eu não vou’ (risos), mas aí o Paulo Saldiva, que é professor da Faculdade de Medicina da USP soube dessa negativa, vinda de um pesquisador, e me convidou para ficar um ano com ele em Harvard fazendo pesquisa”, fala.

A pesquisa aborda como a poluição atmosférica acelera o processo de doenças neurode-generativas, como Alzheimer, demência e Parkinson. Para dar mais esse grande passo, Marcinho conta mais uma vez com o apoio de pessoas que acreditam no poder da Educação, por meio de uma vaquinha online. A meta é arrecadar R$ 80 mil para custear passagem, plano de saúde, moradia, alimentação, transporte e outras despesas durante 12 meses em Boston.

Até a tarde de quinta-feira, 14, a campanha havia batido 73% do valor estimado. Para apoiar o projeto, basta acessar o link: https://www.catarse.me/ajude_o_marcio_a_ir_pra_harvard_7403, e doar qualquer valor acima de R$ 10.

Agora, falta pouco para que o estudante de Medicina dê mais esse grande passo, que só foi possível graças ao seu esforço e à contribuição de muita gente que se sensibilizou com a sua história e apostou que o futuro do jovem poderia ser diferente. “Muita gente me ajudou, sem essas pessoas que passaram pela minha vida eu não seria quem sou e certamente não estaria buscando o que quero ser, então foi por esse contato, por essas relações que o Márcio pôde crescer”, ressalta, citando uma frase do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein. “Ele fala que os limites da nossa linguagem são os limites do nosso mundo. Quando a gente consegue ampliar a nossa linguagem, a gente não tem limite para o mundo, e as pessoas que passaram por mim enriqueceram minha linguagem, o meu olhar, a minha escuta, a minha fala e me tornaram uma pessoa rica no sentido de não ter limites para o próprio mundo. Graças a Deus, muita gente boa passou pela minha vida e eu sou muito grato a cada uma delas”, finaliza.

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