Fotos: Arquivo Pessoal
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Dar de comer a quem tem fome

Conceito de cozinha solidária chega a Bragança pela Comunidade Sorriso 

Em algumas ocasiões, simplesmente “dar a vara e ensinar a pescar”, como sugere o ditado popular, não é o que vai resolver o problema. No caso da fome causada pelo desemprego e vulnerabilidade social, é preciso que seja dado o peixe, porque ela é urgente. E é nesse contexto, de ajuda de emergência, que surgiu o projeto Cozinha Comunidade Sorriso, que irá produzir quentinhas todos os domingos, a fim de arrecadar recursos para distribuir cestas básicas a famílias desprotegidas socialmente, em áreas periféricas de Bragança Paulista. O que diferencia esse projeto de outros que também trabalham com a urgência da falta de alimentos, fazendo arrecadações e doando cestas, é que, quem doa também é beneficiado. Cada doação vale uma quentinha e metade do valor fixo de R$ 30, cobrado pela marmita, colabora para a montagem de meia cesta básica com itens de higiene para uma família. Outra preocupação do projeto, assim como de tantas cozinhas solidárias espalhadas pelo país, é oferecer alimentação de qualidade, seja para quem doa, seja para quem recebe. 

A Cozinha Comunidade Sorriso se inspirou no Projeto Lute como quem cuida, da Ocupação 9 de Julho, em São Paulo. Lá, a compra de uma quentinha paga outra para uma pessoa em situação de rua. Aqui, a coordenação do projeto percebeu que cestas básicas doadas à comunidade do entorno de onde atuam, no Bairro do Cruzeiro, eram mais necessárias e fariam mais sentido neste momento. 

O Jornal Em Dia conversou com Thayla Godoy, cozinheira e ativista alimentar, e com Bruna França, ambas coordenadoras do projeto, que explicaram o porquê de trazer um projeto como esse para Bragança e como é possível colaborar com ele. 

Thayla Godoy na Ocupação 9 de julho

 

COMPLEMENTO ALIMENTAR

“Tivemos a primeira reunião no Cras Santa Libânia, que atende a região onde a Comunidade Sorriso está localizada. Na conversa, ficou bem claro que a população do Cruzeiro teve uma alta de vulnerabilidade, que aumentou de 2019 para 2020 e mais ainda de 2020 para 2021. Entendemos que precisa haver esse diálogo, de começarmos a atuar no local que a gente ocupa. Nessa conversa conseguimos compreender que, como o Cras já oferece aquela cesta básica que todo mundo conhece, com arroz, feijão, farinha, seria bacana entrarmos com a complementação desses alimentos. O que eles não conseguem ofertar, a gente traria para cobrir o buraco, como os itens de higiene pessoal, sabonete, pasta de dente, absorvente. No caso do absorvente, entendemos como um ponto fundamental neste momento, porque sabemos que mais de 80% das famílias em situação de fome são chefiadas por mulheres. Em relação aos alimentos, o projeto complementa com aqueles que não vêm na cesta básica, inclusive com comida de verdade, como batata, mandioca, batata doce.

Estamos iniciando os trabalhos, mas já em conversa com cooperativas de agricultores, para entendermos como podemos firmar parcerias. A ideia é comprar esses itens de produtores locais. Temos a preocupação de fecharmos esse ciclo, da produção até a mesa, dentro da própria cidade. Vários elos dessa cadeia alimentar estão sendo afetados por esse contexto de pandemia, e os agricultores são um deles, também passando por dificuldade de sobrevivência”, falam.  

Outra questão que as coordenadoras perceberam, após a reunião, foi a importância de o projeto ter um cadastro próprio das famílias que serão beneficiadas, para terem mais dados a respeito. “Dessa forma, conseguimos atuar em outros pontos também, como, por exemplo, identificar quantas famílias têm criança e fazer uma arrecadação de brinquedos. Por enquanto, isso ainda está em processo, mas temos essa perspectiva. Pensamos em fazer um cadastro a partir do que já existe no Cras”, explicam. 

Thayla Godoy na Ocupação 9 de julho

 

COMIDA DE VERDADE

“Dentro do campo do ativismo da alimentação, o veganismo popular acrescenta muito, porque traz pontos fundamentais, que é entender a lógica sistêmica da produção de carne, de que é justamente essa lógica um dos fatores que culminam em uma situação de fome. Porém, acreditamos que não cabe a nós impor um tipo de alimentação. Existe a cultura alimentar, daquilo que a pessoa consome há gerações e, também, o fato de estarmos vivendo uma situação que é emergencial. Por exemplo, se tivermos uma doação de linguiça bragantina, vamos colocar na cesta, se for comida de verdade, se não for algo superprocessado, que sabemos que vai estar mais matando do que alimentando. O veganismo não vai orientar esse tipo de escolha, já que a situação de urgência é a de que as pessoas precisam comer. O que vai nos orientar é esse conceito, da comida de verdade, acima de tudo. Mas o veganismo popular traz uma qualidade para o debate que eu acho que é muito importante também. Não queremos restringir, mas queremos olhar com atenção para saber que produto é esse, de onde ele vem. Não cabe a nós determinar o que a pessoa deve comer. Mas cabe a nós, de repente, trazer essa reflexão”, analisam. 

VALORIZAÇÃO DE QUEM TRABALHA COM COMIDA

A cada domingo, um chef de cozinha diferente vai ser responsável pelo menu das quentinhas a serem vendidas. Embora Thayla, pessoal e profissionalmente, esteja ligada à comida vegana, outros cozinheiros que irão participar do projeto atuam em áreas distintas da gastronomia. A ideia, também, é unir todos os elos da cadeia de alimentação: produtores, consumidores, chefs de cozinha e cozinheiros. Thayla pensa em trazer cozinheiras de bares populares da cidade e também merendeiras, como convidadas, a fim de serem responsáveis por um dos domingos do projeto, pensando o cardápio e preparando as quentinhas. “O que as pessoas podem esperar desse projeto, além da solidariedade, é uma valorização de quem trabalha com comida na cidade, em todos os âmbitos, desde o chef, o cozinheiro, o produtor do alimento. E também a possibilidade de experimentar diversos sabores produzidos na nossa cidade”, dizem. Outro diferencial vai ser experimentar uma comida feita por chefs que já são consagrados na cidade, preparadas com ingredientes mais simples. Entre os nomes já confirmados para os próximos domingos, estão: Ana Christina, Cris Mendes (Espaço Camélia), Eloíza Gatti (Gatti Gastro Vino), Victor Godoy (Festvall Family), Bia Robortella (Oso) e Chef Pasta (Verso Bar). 

Cozinha Comunidade Sorriso

VALORIZAÇÃO DOS ENTREGADORES

Outro ponto importante de valorização do projeto é a respeito do trabalho daqueles que fazem a ponte entre a comida preparada na Cozinha Comunidade Sorriso e quem vai receber em casa: o entregador, peça fundamental em tempos em que o melhor é evitar sair de casa. “Para a entrega das quentinhas, optamos pela escolha política de não fazer por nenhum aplicativo. Vamos ter o trato direto com o entregador e ele vai receber o valor completo do frete mais o almoço do dia. Eles já vão sair sabendo para onde vão, porque as encomendas serão feitas previamente. Além de saber quantas marmitas vamos preparar, isso também vai nos ajudar a saber quantos entregadores vamos precisar no dia”, explicam. 

FINANCIAMENTO COLETIVO

Para montar a infraestrutura da Cozinha, o projeto está com uma campanha de financiamento coletivo no Catarse. O valor que for arrecadado ali será usado, também, para logística e manutenção da kombi da Comunidade, higiene, limpeza e segurança do local, remuneração e formação da equipe, divulgação e reserva para eventualidades.  Para conhecer e contribuir, é só acessar o link: https://linktr.ee/cozinhacomunidadesorriso, que também direciona ao WhatsApp para fazer a reserva das quentinhas. 

COMO COMPRAR

Para adquirir as quentinhas do projeto, é preciso fazer a encomenda pelo WhatsApp sempre até a sexta-feira anterior. O número é o (11) 9 3397-2239. Os cardápios e o convidado da semana são divulgados pelo Instagram, no link: https://www.instagram.com/cozinhacomunidadesorriso. Na estreia deste domingo, 20, quem preparará a comida é a chef Fabíola Baena, da Garagem Hamburgueria, porém, os pedidos já foram encerrados. No domingo seguinte, dia 27, será a própria Thayla, que está à frente do Bem-dita Semente, quem preparará o cardápio. A quentinha deste dia trará feijoada vegetariana, com arroz, farofa com castanhas, couve refogada e vinagrete especial. As encomendas podem ser feitas até o dia 25. No momento, o projeto aceita pagamento por pix, transferência bancária ou dinheiro. Há a opção de retirada ou entrega e o preço do frete é combinado junto com o pedido. 

 

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