Sempre nutri uma admiração respeitosa por cavalos. Talvez porque sua imponência me constranja, seu porte e sua força sejam exatamente aquilo que me falta, ou, ainda, porque junto dessa admiração venha algum medo. Quase sempre tememos aquilo que respeitamos, e eu sei, não devia ser assim. O respeito devia vir sem a necessidade de qualquer temor, aliás, o medo nem sequer devia existir.
Animais inteligentes, sensíveis como eles, vez por outra tiveram de emprestar sua força à máquina da guerra, servindo-lhe de engrenagem. Cavalos são seres absolutamente lindos, mesmo diante da atrocidade da guerra e de toda a dor que ela é capaz de causar, mantêm-se altivos, quase inabaláveis. Há neles certa selvageria doce, um encanto gentil e forte.
Era mesmo assim o cavalo que cruzou meu caminho naquele dia: selvagem. A beleza de não obedecer ao seu cavaleiro foi o que mais me encantou, apesar de ter me assustado também, visto que o animal quase entrou na frente do carro.
Desobedecer é necessário às vezes. Ultimamente, tem se tornado fundamental. Aquele cavalo, livre, apesar da monta, rebelde, apesar do desespero do cavaleiro, alheio à sinalização do tráfego e toda a movimentação dos carros ao seu redor, lembrou-me da necessidade de subverter as regras erradas, as injustiças nossas de cada dia, os absurdos que temos engolido a seco, goela abaixo, coração adentro.
E renasceu em mim a gana de transgredir. Não, eu não aceito o que um grupo inescrupuloso tem imposto ao povo do meu país. Não, eu não aceito que a Constituição do meu país seja ameaçada ou ferida. Assim como não aceito o preço exorbitante dos produtos nas prateleiras do supermercado, nem o do combustível nos postos. Esse não é o Brasil que sonho, desejo e mereço. Não é o país que servirá de berço a meus filhos e netos. Não!
Somos um povo aguerrido, temos em nossas veias o sangue dos guerreiros tupis, dos reis africanos. Não é possível que sigamos tão inertes diante do circo de horrores que se forma, dia após dia nessa terra que amo.
É preciso derrubar o cavaleiro, deixá-lo tonto, o semblante em pânico. É preciso mostrar quem é que conduz os rumos dessa nação.
Cavalos... Eu sempre os preferi aos gados.
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