news-details
Olhar Social

Desejo...

Comumente nas festividades que encerram o ano, costuma-se desejar uns aos outros votos de boas festas e felicitações diversas de que os próximos 365 dias (ou 366, quando em ano bissexto) sejam repletos de muitas conquistas, alegrias, paz, saúde etc., etc., etc...

Os “desejos”, poema atribuído ao poeta francês Victor Hugo – cuja autoria é, na realidade, do jornalista gaúcho Sérgio Jockymann, lançado em 1978 sob o título “os votos” – traduzem algumas aspirações, que foram poeticamente cantadas nos versos do músico carioca Frejat em “Amor pra recomeçar”, sucesso dos anos 2000...

Desejo...

Recomeçar um novo ano, cujas nossas atitudes indicarão como a vida seguirá para sua preservação ou possível extinção. Isso a depender se seremos ou não gentis com a mãe natureza a ponto frear a tempo a crise climática já em curso, com suas altas temperaturas e eventos climáticos cada vez mais extremos e intensos.

O ano que se encerra deu pistas do desequilíbrio climático em razão do aquecimento global. 2023 registrou o ano mais quente em 125 mil anos, segundo dados do Observatório Europeu Copernicus, divulgado recentemente. Calor em ascensão, resultado das contínuas emissões de gases com efeito estufa, somado à ingerência do El Niño, responsável por aquecer as águas oceânicas. Combinação “perfeita” que está tornando insustentável a vida na Terra.

É! As festividades de final de ano serão quentes... e não será somente pelo calor humano dos abraços apertados...

A crise climática é um fato e impacta toda forma de vida terrestre – mesmo quem não a provocou ou contribui para sua ampliação, como a fauna, flora, vidas marinhas, animais e o ecossistema como um todo – mas serão os pobres, como sempre, os mais atingidos; pessoas que já vivem em condições mais vulneráveis, por vezes sem acesso as necessidades básicas de subsistências, que contam com menos recursos para enfrentar as consequências do calor extremo, vivendo de forma mais exposta e precária face às intempéries do clima.

A vigésima oitava Cúpula da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o Clima (COP28), realizada entre 30 de novembro a 13 de dezembro deste ano em Dubai, colocou em xeque a real necessidade de redução e eliminação do uso de combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão), o que vai no cerne da catástrofe climática; numa soma de esforços comuns – protagonizada especialmente pelos países ricos e produtores diretos da crise – em investimentos graduais e constantes em fontes renováveis, como energia eólica, solar, hidrelétrica e geotérmica.

Parece tímido o aceno para a pauta ambiental dados os interesses econômicos em jogo. Fato é que não é mais possível tardar seu enfrentamento, que não seja de modo sério, prioritário e inegociável, o que passa pelas mãos de cada um de nós com nossas atitudes diárias em zelar pelo meio ambiente; passa também pelo compromisso dos nossos representantes políticos com a pauta ambiental – vale lembrar que em 2024 temos eleições municipais, o que abre uma importante oportunidade de elegermos candidatas e candidatos comprometidos com a causa; além da pressão da própria sociedade, seus movimentos e coletivos, com forças suficientes para interferir nessa pauta.

Interferência sem a qual os votos e desejos de boas festas e feliz ano novo não poderão se concretizar, porque não haverá novo ano. Ainda temos tempo de mudar nossa história e continuar festejando o encerramento de cada ano e suas festividades típicas, cujo calor intenso seja apenas do abraço apertado!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo

Você pode compartilhar essa notícia!

0 Comentários

Deixe um comentário


CAPTCHA Image
Reload Image